quarta-feira, janeiro 15, 2014

O IMPOSSÍVEL DA BIOGRAFIA

Espanto-me com o comentário da prima: naquele tempo você pensava assim. O tom era tão afirmativo que me acovardei e até concordei. Mas a verdade é que não tinha eu a menor ideia do que eu pensava “naquele tempo”. Mesmo que num lampejo viesse à memória este pensar, seria verdade? Seria eu capaz de reproduzir aos oitenta, vésperas de oitenta um, o pensamento dos quinze? Acho que não. A lembrança viria modificada por um modo de pensar atual, tão diferente daquele antigo.

Dos quinze aos oitenta é monumental a transformação que ocorre. Não estou me referindo àquela obvia e inexorável transformação física. Falo de outra que se dá lá na cabeça ou na alma, sei lá eu. Não existe neste caso o binômio “melhor/pior”. Impossível um juízo de valor. É tão somenos, diferente. Isto faz com que qualquer um destes extremos seja possível. E, cá pra nós, os dois acabam existindo mesmo. Mas a dificuldade vai muito além do que se pensava. Até os fatos adquirem outra versão. E as pessoas, paisagens e coisas adquirem outro aspecto. O que havia de mais substantivo no então, sofre mudanças radicais no hoje.

Lembro-me de pessoas que, segundo meus pais, eu não conheci. Diziam eles que a lembrança vinha do que me contaram. Pode até ser, mas Seu Tadeu, segundo marido de minha bisavó, tem até cheiro para mim. E Vovô de Uva (meu bisavô) me levou à praia sim, embora tenham me afirmado que jamais deixariam que isto ocorresse. Ele já tinha noventa anos quando nasci e de fato não seria razoável que aos noventa e quatro fossemos ambos curtir um banho de mar no Arpoador, onde se localizava a casa dele (naquela época um deserto). Mas eu me lembro nitidamente desta aventura: só estávamos os dois na praia, ele me comprou um picolé e estava com um roupão azul!

Apenas em um dos casos meus pais, provavelmente, tinham razão: a lembrança do nascimento de minha prima (mais velha do que eu) tão claro em minha memória! Seria de fato impossível, mas o fato é que me lembro! Por estas e por outras eu seria incapaz de escrever minha biografia. Seria tudo uma deslavada mentira. Uma obra de ficção. Mas cá pra nós: isto não deve acontecer só comigo. Vai ver todas as biografias tem uma grande parte de ficção. Vem de longe a voz de meu pai: não liga muito para o que as pessoas dizem. Repara bem no que fazem. É bem mais verdade. E não é que estejam mentindo. É que o que dizem reflete o que gostariam que fosse, e o que fazem é o que realmente acontece lá dentro delas.

E como é que vou me lembrar do que eu fazia e, sobretudo por que fazia? O dentro de mim, agora, é outro. Tão outro que – acho - não me reconheceria se por mágica me defrontasse comigo aos quinze anos. Outro problema é que não existe em minha vida memorial uma seqüência ininterrupta de fatos e acontecimentos. A memória dá saltos enormes e, ao mesmo tempo, é capaz de rever alguns dias e até horas nos mínimos detalhes. Uma maluquice.

Por que raios eu me lembro do estampado do vestido que Madame Jacobina, a professora de francês, estava usando no dia em que eu surrupiei a foto do irmão de uma colega por quem havia me apaixonado perdida e desesperançadamente?  Não tem o menor sentido. E por que não me lembro do professor de história se me lembro de todos os outros? O que teria feito este sujeito para que eu o varresse da memória? Lembro-me de todos os nomes da lista de chamada do ginásio no Bennett e apenas de quatro colegas do científico do Andrews cursado bem depois. Sei a localização (árvore) exata de cada ninho de João de Barro que havia no sítio em Miguel Pereira. Aliás, daquele Paraíso a memória é farta. O estranho é que o tempo escamoteou muito dos meses em que eu lá não estava na adolescência. O que é que eu fazia, o que é que pensava, o que queria, de março a junho e de agosto a dezembro quando não estava no sítio?

Do tempo em que servi na FAB (não se espantem. Naquele tempo as senhoras “serviam”) lacunas enormes se abrem. No entanto detalhes ínfimos da manifestação de minha personalidade clumsy  desta época, ficaram intactos. Sei lá por que este meu lado desastrado foi tão presente em meu período militar. Uma revolta à disciplina, talvez? Entre os trinta e oito anos que medeiam entre meu nascimento e minha fixação para todo sempre – espero - neste Humaitá, morei em vinte casas em cidades diferentes! O que dá em média 1,9 anos por casa. E isto saracoteando mundo afora. Pois bem: a memória nítida de todas existe embora pareça impossível a lembrança das duas primeiras. Segundo meus pais, não parece impossível: é impossível mesmo.


Vem a idéia maluca de que eu gostaria, gostaria muito, de conhecer minha vida de cabo a rabo. Devo ter sido protagonista, coadjuvante ou observadora de fatos e acontecimentos que valeria a pena lembrar. Agora entendo a razão do porque do título Memórias, ao invés de Biografia. É bem mais verdadeiro. Memórias, quem sabe eu seria capaz de escrever. Mas não vou poder fazê-lo. Pablo Neruda, já fez há tempos. Deu a elas, às memórias, o único título que eu gostaria de dar. Porque mesmo com lacunas imensas, minhas lembranças fragmentadas atestam: Confesso que Vivi!     

terça-feira, janeiro 14, 2014

JOGO DE CINTURA

Há uma semana minha caixa postal transborda com mensagens saudando o Dia Internacional da Mulher. Divertidas, ternas, piegas, bem e mal escritas, em prosa e em verso. Este prosa e este verso falam da beleza, da ternura, da coragem, da mãe, da filha, da avó, da profissional e que mais sei eu. E nenhuma, nenhuma mesmo, ressalta um aspecto que a mim sempre pareceu inerente ao sexo feminino, raramente percebido no outro: o jogo de cintura! Fala-se muito de uma de suas manifestações, a tripla jornada, como se fosse este o único exemplo. E não é. Inúmeros outros existem.

Temos, nós mulheres, uma extraordinária capacidade de sair airosamente de situações complicadas nas quais os homens, se com elas defrontados, meteriam os pés pelas mãos. Pensando nisto a memória me catapulta para meados dos anos 70 trazendo de volta um episódio ocorreu entre dois colegas de trabalho. No Aeroporto Santos Dumont, dia amanhecendo, a mulher, nos seus quarenta e poucos anos, espera o jovem colega com quem iria partir numa viajem de trabalho a Fortaleza. À sua chegada a primeira surpresa: ele a olhou de uma forma nunca antes adotada (trabalhavam juntos havia anos) e numa voz idem declarou: “como você está bonita!” Ela não disse, mas pensou: Epa! Ai tem! Na verdade não pensou exatamente “ai tem” porque não era uma expressão da época. Mas deve ter sido uma equivalente que significava idêntico espanto e preocupação com o que viria a seguir.

Ela era desquitada. Não havia ainda o divórcio e livre, leve e solta (já havia Leila Diniz), trabalhava num mundo masculino onde eram poucas as mulheres presentes e as poucas que por lá estavam eram todas casadas. Ele, nos seus trinta anos, era um belo rapaz, casado e com filho pequeno. A conversa até a hora do embarque desenvolveu-se normal embora conduzida olho no olho com uma expressão um tanto esdrúxula da parte dele. No check-in ele armou uma discussão com a atendente que queria colocá-los em cadeiras distantes. Enfático ele se revoltou, com um olhar pleno de significância, a ela dirigido, buscando uma conivência que garantisse a realização de uma atividade que nada tinha a ver com trabalho.

A atendente não se dando conta do olhar ligou-se ao significado das palavras e, sei lá por que artes, conseguiu os dois lugares juntos. Já instalados e entalados nas duas cadeiras vizinhas sobrevoaram a Baia de Guanabara naquela manhã tão linda. Ele se inclinou exageradamente sobre ela para ver o Pão de Açúcar que estava careca de ver e ela pensou: “vai dar trabalho”. Antes de prosseguir e para que fique compreensível o que estava prestes a ocorrer, é necessário que se esclareça que quando em viagem, naquela época, não eram recebidas diárias. Ganhava-se um adiantamento para fazer face às despesas de hotel, taxi e alimentação e no retorno se comprovavam os gastos com as notas relativas a estes.

Voltando ao avião: mal decolou ela escutou a voz insinuante que começou a frase com um “meu bem” nunca antes usado e pleno de intenções. Intenções estas claramente expostas na proposta que se seguiu: Vamos ficar juntos, não é? No mesmo quarto. Conheço o gerente do hotel e posso pedir notas de quartos separados. Ninguém (e o meu bem volta!) ficará sabendo das noites maravilhosas que vamos ter. Era preciso pensar rápido. Afinal iriam trabalhar juntos durante três ou quatro dias e um ”não” ainda dito sem grosseria criaria um clima complicado. 

E foi então que numa voz doce e sedutora ela abriu um sorriso encantador e saiu-se da entaladela com um extraordinário jogo de cintura: Não, querido! De jeito nenhum! Você é um dos homens mais cativantes que conheço. Estou sem saber o que falar! Emocionada mesmo. Nunca imaginei! Eu quero que saia uma nota só de um mesmo quarto, Quero que todos, mas todos mesmo, fiquem sabendo. Você é tão jovem, tão bonito. Com a nota do mesmo quarto todos vão acreditar quando eu contar, não é? Vai ser a glória! O horror estampado no rosto do rapaz transformou-se em pânico e ele só conseguiu murmurar: estou morto de sono!

E, como se houvesse levado uma paulada na cabeça desmaiou só acordando horas depois com avião já no chão. Dormiu Casanova e acordou Sancho Pança preocupadíssimo com o trabalho e o prazo que tinham para executá-lo. Tão preocupado estava que ao chegarem ao hotel, feito o registro, ele declarou: mil desculpas por não sair com você para jantar. Estou exausto e amanhã temos que começar cedo! Ela, hipócrita, muito penalizada concordou com um que pena. Adoraria jantar com você!

Hoje, quando se reencontram, amigos que sempre foram, ele já um belo avô e ela uma quase bisavó, divertem-se com a história que ele faz questão de contar aos presentes, sempre com uma frase preâmbulo cujo tom delicado e muito carinhoso desmente as palavras: esta mulher não presta para nada!

2008

segunda-feira, janeiro 13, 2014

4 DE JANEIRO DE 1959

Arrumar gavetas e armários é uma daquelas tarefas que consigo adiar, sem menor culpa, por intervalos de tempo desmedidos. Por anos, às vezes. Mas sempre que me disponho a fazê-lo acabo curtindo uma deliciosa viagem. Esta semana, corajosamente desabei todas as gavetas de fotografias! Não diria que as tenho aos milhares, mas certamente centenas. Locais e pessoas brotaram causando espanto, emoção, riso e saudade. Algumas trazendo de volta pessoas que já se foram ou se perderam nestes descaminhos que a vida teima em criar.

Mas as que mais me atraem são sempre as que refletem a mim mesma em idades crescentes começando em berços e fraldas. Destas é claro a memória nada me diz. São memórias de outros e nelas não consigo me reconhecer. Poderiam ser qualquer criança, na verdade.  Mas, a partir de certa idade, creio que por volta de três anos, consigo recuperar luzes, cores, ruídos e perfumes. Algumas me assustam por tão diferentes das imagens que a memória conservou. Coringa, meu primeiro cavalo não era enorme! Fraulein não era feia! Tio Carlos não era bonito! Meus cabelos não pareciam com os de uma estrela de Hollywood. Na verdade eram apenas despenteados (sempre).

E eis que hoje me caiu nas mãos uma foto histórica. Olho no verso e lá estão nomes e a data. Dia em que as forças de Fidel Castro entraram em Camaguey. Não creiam que conheço tanto assim a História desta nossa América a ponto de lembrar-me de maneira tão precisa o dia, o mês e o ano. Lembro-me porque entrei em Camaguey no mesmo dia que em que Fidel o fez! Num por acaso. Estava, em companhia de meu marido e outros oficiais, a caminho dos Estados Unidos, onde eles iam buscar aviões que haviam sido adquiridos pelo governo brasileiro. Não tenho muita certeza, mas acho que eram os Netuno, aviões destinados à caça submarina. Ia comigo uma grande amiga – Elsie - também casada com um oficial e que havia sido minha colega de ginásio no Bennett. Ambas partíamos para a aventura de conhecer Nova York enquanto os maridos se mandariam para a California em busca dos tais aviões. Voltaríamos pela aviação comercial, mas a ida se fazia num DC-3 da FAB, com bancos de metal e de lado. Um horror.

Mas nós estávamos tão entusiasmadas que nem este tormento que duraria dias, nos trazia qualquer desconforto. E foi assim que subindo e descendo sem parar (a autonomia do DC-3 não era lá estas coisas), numa das ultimas etapas pernoitamos na Guiana Inglesa. Dali seguiríamos para Miami onde tomaríamos um ônibus para Washington e finalmente Nova York! Eis que pouco depois da decolagem o comandante anuncia uma pane no motor esquerdo, anúncio este seguido de outro bastante desagradável: o direito não estava lá estas coisas. No avião só havia pilotos, sargentos mecânicos e nós duas. E se eles pareciam calmos, achamos de bom alvitre também ficar. O lugar mais próximo para um pouso de emergência era a pista de Camaguey, em Cuba. E Cuba estava em plena revolução.

A notícia estourou como uma bomba. Naquela época (quase) todos torciam por Fidel entusiasticamente, mas a ideia de sermos confundidos com possíveis inimigos não era agradável. Pelo rádio se soube que naquele mesmo dia Fidel havia entrado em Camaguey. Ficamos excitadíssimos. Iríamos ver Fidel. Devidamente identificada como aeronave brasileira nos foi dada permissão de pouso.

Ao tocar o chão, através das pequenas janelas, emocionados vimos os guerrilheiros com suas armas e suas barbas. No lanche mais que frugal que nos ofereceram veio a grande decepção. Não poderíamos ir à cidade por questões de segurança. Ver Fidel, nem pensar. Confinados ao campo de aviação o jeito foi confraternizar com os guerrilheiros que o ocupavam. Contaram-nos da entrada triunfal de Fidel na cidade, população nas ruas, enlouquecedores aplausos. O advento da câmara digital estava longe de ocorrer e eu sem máquina fotográfica!  Elsie também não a tinha. Estas eram um dos itens que pretendíamos adquirir nos Estados Unidos. Imploramos ao Comandante (único que possuía tal aparelho e pessoa de quem faço questão de esquecer o nome) a nos fotografar na companhia de nossos gentis e recém conhecidos guerrilheiros. Tivemos certa dificuldade em convencê-lo porque ele era um dos poucos que não aprovava Fidel que considerava comunista e como tal certamente comia criancinhas vivas. Mas finalmente vencemos a parada.

Em 1969, dez anos depois, quando interrogada pelo Sops (dependência do DOPS num porão da praça XV), me foi mostrada esta foto como prova das muitas acusações que me faziam: eu, além de fomentar a revolução camponesa no interior de Goiás havia sido atuante na revolução cubana! O comandante sem nome e sem muitas outras qualificações também, era o dono dos negativos e, provavelmente, deve ter se felicitado em ter cedido a nossa insistência em tirar a foto. Isto lhe proporcionou dar um testemunho de sua fidelidade ao regime militar anos depois. Afinal a foto comprovava que desde criancinha havia se preocupado em documentar a adesão daquelas duas perigosas subversivas, às forças de Fidel na companhia dos terríveis e sanguinários guerrilheiros Gutierez, Quintana, Chaco e Corrucho, 


domingo, janeiro 12, 2014

TRANQUILA RUA DO HUMAITÁ

Acordo dando bênçãos: o calor se foi. Será que de vez? Começo a rotina do dia às avessas. Ouvi dizer que isto evita Alzheimer. Mas arrumar a cama antes de tomar café é mortal. Arrisco contrair a doença e parto para cozinha. Foi neste exato momento que os tiros começaram. Pareciam vir da rua. Corro imprudente para janela e me dou conta que estamos em guerra. A rua está tomada por viaturas policiais e por dois tanques daqueles pretos do BOPE. Uma confusão dos diabos. Os operários da infernal obra que nos enlouquece pelo barulho estão sendo dela retirados em fila, escoltados, e são revistados. Fico pasma. Rebelaram-se eles? Trata-se de uma revolução operária? Cada um, depois de liberado é enviado para o muro azul da Produtora, do outro lado da rua, creio que para ficarem a salvo dos tiros que agora são de vários tipos: metralhadora, pistola e granadas! Não dá pra perceber de onde vêm, nem para onde vão. Talvez por isto as pessoas se protejam de um lado e de outro dos carros estacionados criando uma enorme probabilidade de que um dos lados seja o atingido.

O gato Pandareco, mais prudente do que eu, esconde-se em baixo da coberta da cama: sai daí, Pandareco! Deixa de ser bobo. Bala atravessa pano. O telefone toca. Minha filha: está ouvindo? Respondo: estou vendo! É aqui. E faço a reportagem que também se dá lá em baixo na quantidade de carros de emissoras de TV que se misturam às viaturas policiais provocando um engarrafamento nunca visto. De um taxi dois policiais retiram, aos cachações, um homem que parece ser o motorista. O homem começa a sangrar no rosto. Absurdamente penso: melhor passar Mertiolate, esta rua está imunda! O homem é algemado e deitado no chão enquanto outro que estava próximo ao carro é interrogado por policiais. Ele gesticula muito e aponta para o deitado no chão. Só à noite, no noticiário vim a saber que o motorista era este. O outro era o bandido que havia tentado lhe roubar o taxi para fugir.

Mais tiros e policiais correm em todas as direções apontando armas. Os passantes que se escondiam começam a brincar de quatro cantos trocando entre si seus ilógicos esconderijos. Mais viaturas chegam e fecham o acesso da Lagoa para a Rua Pinheiro Guimarães. Os motoristas dos carros represados saltam e formam uma pequena multidão na esquina de Macedo Sobrinho. A cada saraivada de balas começam também a brincar de quatro cantos se protegendo em esconderijos disparatados. Mas, aparentemente, os tiros não se dirigem para a rua. Os policiais apontam as armas a torto e a direito, mas não atiram. Portanto as balas devem vir dos bandidos.

Absurdamente um moto-boy sobe a ladeira driblando os carros para entregar uma pizza!!! Quem é que come pizza esta hora da manhã, gente?! Ninguém lhe dá a menor atenção. Um policial levanta a cabeça e dá comigo na janela. O grito vem indignado: sai daí, Dona! Obedeço sem discutir e passo a olhar pela fresta da veneziana que prontamente fechei. Ficou mais complicado agora porque não dá para ver o fim da rua, fronteira com a mata. O ensangüentado é colocado na mala de uma viatura. Novamente absurda me preocupo: a mala deve estar mais suja do que a rua, Vai infeccionar e vai ficar um calor dos infernos.

Gritos ocorrem. Não resisto e abro um pouquinho a veneziana. É uma confusão na fila dos operários que estão sendo revistado. Uma quantidade enorme de policiais cerca um deles. Um círculo de cinegrafistas e repórteres se forma em volta. E lá vem cachação. Mas este não sangra. Algemado ele é escoltado ladeira a baixo e colocado na mala de outra viatura. Pelo noticiário, à noite, fiquei sabendo que era um bandido que, para fugir, havia se disfarçado de operário.

Os rádios de todas as viaturas falam ao mesmo tempo formando uma cacofonia impedindo que se percebam as palavras. Ou então é código mesmo. Outro policial grita comigo: fecha esta janela! Desta vez não mereço o “Dona”. O interfone toca: É o Célio, porteiro: tudo bem com a senhora D. Anna? Quer que eu mande o Antônio ficar com a senhora? Antônio é o faz tudo do prédio e troca minhas lâmpadas *queimadas. Sem lâmpadas para trocar, agradeço e dispenso a companhia.

Pandareco já está me dando trabalho suficiente procurando os mais estranhos esconderijos. Está agora atrás da impressora. Meu filho telefona do trabalho e me diz o óbvio: mãe, não vai dar para ir ai e você não me saia de casa. Não posso deixar de concordar. De repente algo acontece: todas as viaturas se movimentam e é um milagre que não ocorram colisões já que estão colocadas nos mais estranhos alinhamentos. Sirenes são ligadas. Repórteres e cinegrafistas correm para seus carros. Em fila agora mais ou menos organizada, vão deixando a rua. A passagem para a Pinheiro Guimarães é liberada e as duas cacatuas que moram numa gaiola na varanda do apartamento em frente param de gritar, o que tinham feito ensandecidas até este momento. Em minutos a rua volta a seu normal.

Agora dá pra ouvir o canto dos passarinhos e até um mico aparece andando sobre a fiação do telefone. Pandareco, zen, dorme relaxado como só os gatos sabem fazer.  Ele já esqueceu. E eu? Faço o quê? Esqueço também? Uma brisa suave movimenta as folhas da mangueira e eu recuo muitos anos atrás e escuto a voz do proprietário que tentava me seduzir para comprar o apartamento: a senhora não vai encontrar rua mais tranqüila do que esta! Aqui só entra quem mora. E com vista para o Cristo e para a mata! O Cristo, lá de cima deve estar rindo: ele continua belo, mas a mata...

Mas o que me espanta e, confesso, me assusta, é que eu, e todos os que aqui habitam não se revoltem com este espetáculo! O que é que está acontecendo conosco?
2009


sábado, janeiro 11, 2014

NO TEMPO EM QUE ELES FALAVAM


Lá de um passado remoto Manchinha olha enviesada enquanto derramo a ração no cocho: para o Dream vai ser cenoura, não vai? ela diz. Domingo. Era minha vez de alimentá-los. Os cavalos. Um tanto irritada respondo: ele é meu cavalo, você não é. Ela muda de assunto e declara com a boca cheia: tenho medo de descer o morro. Respondo irritada: E eu não sei? Da última vez você quase me derrubou. É ridículo este medo. Agora a irritação é dela: vai dizer que não tem medo de nada. Hesito. Não é muito aconselhável demonstrar medo a um cavalo. No caso uma égua. Mas é melhor não mentir: tenho. De barata. Manchinha ri: isso sim é ridículo. Tenho que concordar: é mesmo.

Na baia ao lado Sarandi reclama: como é? E eu? Afago o dorso de Manchinha que se volta e sorri. Entro na baia de Sarandi que comenta: esta sua preferência por trotadores é absurda. Vou ter que explicar pela enésima vez: não é preferência. É que vocês não saltam. O “vocês quem cara pálida?” vem como um insulto. Marchadores, vocês marchadores, explico também pela enésima vez. Comida jogada no cocho ele não se digna a comentar. De longe, três baias adiante, Dream Boy sorri para mim, piscando o olho, na certeza das cenouras e no encanto do descarte dos marchadores.

Ocupo-me agora de Bandoleiro. Nunca nos entendemos bem e ele certamente ouviu o comentário sobre marchadores. Finge que não me vê e nem olha para a ração já no cocho. Também finjo que não me dou conta da grosseria e demando à baia de Ventania que, grande marchador, orgulha-se disso: pode isto? Deve ser complexo de inferioridade deles. Vai dizer eu você não adora uma boa marcha quando não salta? Um refrigério esta compreensão: adoro, sim. E a sua...  é especial, ele completa. Convencido, digo eu. Ele ri: hoje sou eu que vou com você ao trem das onze buscar os jornais ou ELE? Sorrindo respondo: Você. Dream ainda não está bem. As orelhas movem-se pra frente, enérgicas: nada de freio, tá? Concedo: vá lá. Brindão. Mas só desta vez. Com bridão você custa a obedecer.

Da baia ao lado Gaucho reclama: como é? Esta ração sai ou não sai? Vou para lá. Qual é a pressa? Você nem com fome deve estar. Há dias que Mamãe não monta. A expressão dele é triste: você sabe por quê? Mamãe andava ocupada fazendo edredons com a lã dos carneiros tosquiados. Não achei prudente dizer isto. Ser relegado ao abandono por edredons é terrível. E ele está visível e justamente magoado. Minto: ela está com gripe. Olha só, hoje à tarde dou uma volta do Lago de Javari com você. Ele só diz “oba” e enfia o focinho na ração.

Agora sim. É a vez DELE. Dream Boy. Tão lindo e tão amigo. Derramo as cenouras no cocho e nele me encarapito para nossa conversa matinal: melhorou, meu bem? O som das cenouras sendo mastigadas é maravilhoso e me aguça a gulodice: me dá uma? Não espero a resposta e começo a mastigar também. Ele levanta um pouco a cabeça: amanhã já estou bom. Muda de assunto, falando baixo: você mentiu quando disse que sua mãe está com gripe. Eu sempre sei quando você mente. Preocupo-me: não conta pra ele. Está tão triste o coitado. E Dream escandalizado: alguma vez contei segredo seu? Não. Ele nunca! O meu fiel confidente sabe de coisas incríveis a meu respeito e jamais abriu a boca. Nem mesmo quando comecei a namorar pra valer e olha que ele não gostava deles: os namorados. Pior ainda não gostava dos cavalos que possuíam.

Eu só tinha 11 anos quando ele entrou em minha vida. Agora com 17 nossa amizade e cumplicidade só faziam aumentar. Ele pergunta: já tomou café? Quando sai de casa, Luiza estava botando a mesa. O cheiro de bolo de aipim invadia a casa, mas ninguém havia aparecido. Em segredo Dream informa: ontem à noite Virgílio esteve aqui para me examinar. Disse que hoje vai me levar para o picadeiro para ver como me comporto. Escandalizada respondo: de jeito maneira. Quem vai fazer isto sou eu. Ora bolas. Por que ele tem que se meter? Ele que cuide daquele pangaré dele. Sarandi irritado com a alcunha pangaré começa a bater com as dianteiras no chão. Dream ri: ele é médico e você... sou sua dona, completo. Você é meu. Só meu, ouviu?  Ele comovido: ciumenta. Cuspo o resto da cenoura: que droga!  Olha só, se ele quiser te montar joga ele no chão. Dá um corcovo daqueles que só você sabe dar, tá? Dream duvida: ele não cai. É um excelente cavaleiro. Tão bom ou melhor que você. Isto foi demais: saio batendo a porta da baia furiosa.

Entro em casa e todos já estão na mesa do café. Virgilio pergunta: alimentou os animais? Para espanto da família uma explosão minha: animal é você. Eu alimentei cavalos. Não animais. E você é um médico que não entende deles. O casco de Dream está péssimo. Ele me cont... Paro a tempo. Ele o que? pergunta Virgilio. Ele..,ele... está mancando. Mesmo aquela família tão fora de esquadro jamais acreditaria que conversamos, eu e os cavalos. Volto-me para Mamãe: vem comigo buscar os jornais. Gaucho precisa se exercitar. Fico radiante com resposta positiva e faço um pedido absurdo que deixa todos de boca aberta: me faz um favor. Tosse e espirra de vez em quando no caminho. Ouço a voz de minha prima: embirutou.

E, vem o mágico olhar de papai que sempre sabe o que vai por dentro de mim, acompanhado de um “deixa ela. Ela sabe por que está falando isso”. Ele sabe! Preciso contar isto a Dream. Ele vai adorar. Podemos conversar os três.  
2013


sexta-feira, janeiro 10, 2014

OLHA QUE ISTO PODE DAR BOLO


Pelos jornais sou informada de que um cidadão americano, professor universitário, foi o primeiro a ter seu genoma sequenciado permitindo antever as doenças de que será vítima provável no futuro. Sem dúvida mais um avanço da ciência e de respeito, este. Quem sabe, num futuro nem tão distante este feito poderá permitir que se evitem ou pelo menos que sejam diminuídos os estragos de males futuros para todos os indivíduos.

Mas a expressão “todos os indivíduos” me alerta para um aspecto preocupante. Vai que esta pesquisa, visando proteção futura, seja tornada obrigatória. Será que vai ser instituído um cartão tipo CPF, quem sabe um GDB (Genoma Pessoal Decifrado)? Epa! Ai tem problema! Estas informações podem até ser objeto de caráter sigiloso, mas por estas nossas paragens não há nada que garanta mais o vazamento do que o caráter sigiloso. Ai vai dar uma confusão dos diabos.

Volto ao passado e escuto a voz de minha avó, indagando sobre um meu namorado novo: de que família é? O teor da resposta era indispensável para a aprovação ou não pelo clã familiar. O sequenciamento do genoma, no futuro, modificará a pergunta das futuras avós? Qualquer coisa como: que espécie de genoma tem este rapaz? E vão ser possíveis diálogos estapafúrdios como: Menina! Tirei a sorte grande! Sabe aquele cara riquíssimo que estava a fim de mim? Tem um péssimo genoma. Caso com ele que bate as botas em seguida e eu fico rica! Artur já era, minha filha! Vou pular fora. Sabe aquela barriga tanquinho? Vai sumir amiga! O genoma deu obesidade. Este rapaz não serve, minha filha. O genoma do pai dele é uma droga! Vai ver tal pai tal filho! Morro de inveja do genoma da Julieta! O meu é péssimo! A mensalidade de seu plano de saúde vai ser triplicada. Seu genoma está classificado como altamente problemático. Não há nada a fazer. Quem nasce com genoma torto, morre torto. Sabe a Rute? Casou com um genoma fabuloso! Quem diria. Logo ela que tem um abaixo da crítica. Impossível?! Sei lá eu.

Como todo avanço científico e tecnológico esta nova descoberta trará boas e más conseqüências. Vamos ter que conviver com um novo tipo de preconceito: o “genômico”. A cor e a opção sexual deixarão de ser motivo de segregação já que um poder mais alto se alevanta. Vai ser um tal de falsificar genoma, sobretudo na administração pública já que o sujeito além de atestar o patrimônio ao se candidatar a cargo da alta administração ou a cargo eletivo, terá que revelar publicamente o genoma, a exemplo do que se faz com a declaração de bens. E os bancos? Estes não concederão empréstimos por tempo superior aquele em que, por vaticínio do genoma, o individuo estará morto antes que possa saldar a dívida.

Será certamente criado o portal do “genoma limpo” e leis proliferarão indicando a relação dos males que não serão aceitos. A certidão de “genoma limpo”, tal como acontece com passaportes brasileiros, passará a valer uma fortuna no mercado negro. Será criado, no nível mundial, o IGH (Índice de Genoma Humano) e surpresas virão: países com um baixíssimo IDH poderão apresentar um alto IGH. Pessoalmente não tenho grandes preocupações. Aportei aos oitenta com um genoma que não deve ser dos piores e qualquer vaticínio futuro não será, certamente, um demérito. Afinal, nestes tempos em que as estatísticas assombram qualquer vaticínio para mim será mais do que normal e esperável.

Fiquem, no entanto atentos os criadores de sites de esclarecimentos a eleitores. Terão que partir para uma simples análise combinatória visando esclarecer os cidadãos eleitores: ficha limpa e genoma limpo; ficha limpa e genoma sujo; ficha suja e genoma sujo; e ficha suja genoma limpo. Qual será o impacto desta classificação no voto de, por exemplo, um cidadão hipocondríaco e ao mesmo tempo ético? Seria preso de um angustia insuportável entre a cruz e a caldeirinha? E um hipocondríaco não ético? Será que candidatos plenamente limpos levariam alguma vantagem? Que dimensão teria o eleitorado dos totalmente sujos? Será que como ocorre a Ficha Limpa será espantosamente significativo?  

Não vou viver para ter respondidas estas perguntas, mas certamente o IBOPE e o Data Folha irão se capacitar para definir a amostra que melhor concorrerá para um resultado confiável. Será que esta nova descoberta vai provocar um revival da eugenia? Quando este termo foi criado por Francis Galton, nos idos de 1883, tenho certeza, era inimaginável que a tradução seu significado (bem nascido) pudesse causar os problemas ocorridos na Alemanha Nazista e, quem sabe, os que irão ocorrer em todo mundo nos tempos que virão em função do genoma também serão causadores de sérios conflitos. Depois de Galton as leis de Mendel deram outro sentido à história. E agora esta! Num enfoque não científico uma coisa é certa, vai dar uma confusão dos diabos!

2010

quinta-feira, janeiro 09, 2014

ONDE ANDA D. MAROCAS?

Só hoje me dou conta de que avó, pais e tios não nos contavam histórias de fadas. Estas, fomos estimulados a ler, tão logo aprendemos. Os personagens e peripécias que nos fascinavam, desde muito pequenos, saiam da vida real e até hoje tenho a sensação de havê-los conhecido de tão bem descritos eram. Faziam eles parte de nosso cotidiano já que citados sempre que alguma ocorrência justificava o bordão que a cada um deles caracterizava.

E assim era com o Coronel Peixoto que ingressou em nossas vidas muitos anos depois de falecido. Era ele dono da fazenda lindeira a do Campinho, em São José do Barreiro, junto à Serra da Bocaina, propriedade de meu bisavô materno – Vovô de Uva – como eu o chamava. Segundo a história o Coronel era uma doce pessoa: tímido, falava manso, em tom baixo e jamais dele se ouviu uma imprecação ou um destempero. Sua mulher, D. Marocas, era completamente diferente. Era descrita com uma fúria em saias pronta a explodir a qualquer momento. Dona de um vozeirão de mulher macho sim senhor, desancava Deus e o mundo por da cá aquela palha. Ao que parece, estranhamente, entendiam-se as mil maravilhas os dois, numa complementaridade e harmonia de fazer inveja.

Pois bem: todas as vezes que algum fato desagradável ocorria ou alguém saia da linha o Coronel, incapaz de reagir, chamava a mulher e dizia em sua fala doce: “Indiguina”, Marocas! E Marocas, leal porta-voz do marido, soltava os cachorros deblaterando aos berros e apavorando os faltosos. Diziam que partia até para a agressão física! Esta convocação à guerra tornou-se um dito comum que era usado por alguém da família, como um estopim, para por fogo na indignação geral sempre que algum fato o merecesse.

E foi este grito que me escapou recentemente quando frente à tela escutei pasma o Ministro do Planejamento – Paulo Bernardo – declarar que dado o vulto do orçamento do DNIT seria impossível e absurdo esperar que não ocorressem “erros”! Caramba! Gostaria de entender a lógica da declaração. O roubo é compreensível e quem sabe até justificável quando se trata de verba vultosa? É isto?! Numa analogia triste vejo que, nós brasileiros, somos como o Coronel Peixoto: doces demais, tímidos demais. Ainda que percebendo tudo e presos de uma enorme indignação somos incapazes de reagir. Assistimos há anos aos escândalos mais deslavados, aos comportamentos mais execráveis; freqüentamos os mesmos lugares e andamos nas mesmas calçadas em que transitam ladrões, mentirosos e corruptos sem nos vexar por isto; deixamo-nos espoliar sabendo que os impostos que pagamos enriquecem aqueles que os sonegam; trabalhamos muito e duramente para pagar altíssimos salários sustentando mordomias de senadores e deputados (os mais bem pagos do mundo) que deveriam trabalhar por nós; e nada fazemos.

Que falta nos faz D. Marocas! Ressuscitado em nós o Coronel, somos capazes de perceber o horror, mas não temos ao lado sua maravilhosa esposa. Estivesse ela presente, botaria a boca no mundo, exigindo mudanças, cobrando responsabilidades. Por que D. Marocas era muito bem sucedida suas intervenções, segundo me contaram. Acovardados pelo ímpeto de violência, os por ela agredidos, entravam na linha.

O correspondente do El Pais, Juan Arias, fez às vezes do Coronel Peixoto: em um excelente artigo se mostra espantado pela inexistência entre nós desta senhora que tanta falta nos faz.  E é mesmo um espanto que sejamos capazes de lutar por minorias sem encontrar forças para fazê-lo pela maioria! Maioria que inclui nossos filhos, nossos netos e agora para mim, nossos bisnetos. Será que não vale à pena? Será que não merecem, estes nossos descendentes, que nos movimentemos pelo voto para deixar como legado um Brasil melhor, mais bonito, mais justo? Será que este País tão belo e tão bem dotado não merece isto? Por que estamos paralisados, apenas assistindo?

Ah! D. Marocas, que falta nos faz a senhora! Sonho que um dia há de surgir entre nós aquele ou aquela de quem possamos escutar o grito: “indiguina”, Brasil

2010

quarta-feira, janeiro 08, 2014

INFELIZ SOCORRO

Seria tão bom se fossem expurgados de minha memória todos os episódios desastrados em sou eu a protagonista. Infelizmente não é assim que as coisas se passam. Ao conferir a relação das crônicas que já foram publicadas uma única me induz a releitura! Falava eu nela de um amigo de infância a quem fiz uma falseta que me valeria a condenação no Juízo Final.  A partir daí entrei em marcha à ré e passei a reviver o convívio com este amigo que há muito partiu, deixando saudades e muito boas lembranças.

Ai é que pegou! As boas lembranças ficaram todas em segundo plano trazendo para frente mais uma falseta por mim feita a ele. Uma que eu bem gostaria ficasse no esquecimento. Vai daí que terá que ser exorcizada. Ele, este amigo, nos pregou um enorme susto lá pelo final dos anos setenta. Sentindo-se mal, muito mal mesmo, demandou um hospital e lá, ao dar entrada, no saguão, teve uma parada cardíaca... e nasceu de novo. Naquele exato momento um aparato ressuscitador transitava pelo mesmo saguão empurrado por uma enfermeira que prontamente passou a dar furiosos choques em meu amigo que ressurgiu dos mortos. Um espanto de sorte!

Qualquer pessoa ficaria radiante com esta coincidência salvadora, mas não meu amigo que era uma pessoa “pra baixo” como ele só. No dia seguinte ao evento salvador ele me telefonou do hospital queixando-se da vida, da quantidade de exames a que estava sendo submetido, das dores, do desconforto e que mais sei eu. Terminou a ligação com a frase que funcionou como gatilho para minha infeliz intervenção que se deu logo em seguida: por favor. Venha me ver. Só você para me animar um pouco! Assim incentivada lá fui eu dando tratos à bola, procurando o que dizer ou fazer para animá-lo. Tarefa que desde sempre achei difícil por que ele reagia mal a qualquer incentivo.

Ao chegar ao hospital, errei de andar e fui parar no da maternidade e onde vi pendurado na porta de alguns quartos, um cartão de gosto duvidoso: representava uma cegonha com um risonho bebê no bico tendo em baixo os dizeres: SOU UM  .... CHEGUEI ONTEM COM O PESO DE ..... MEU PAPAI É .... MINHA MAMÃE É......Os pontinhos eram preenchidos com o sexo do recém chegado, seu peso e nomes da mamãe e do papai. Vi ali a possibilidade de alegrar meu amigo. Uma das enfermeiras que por ali transitava, ao me ver embasbacada frente ao cartão, informou que eu poderia comprá-lo na lojinha situada no saguão do hospital. Coisa que imediatamente fiz preenchendo os pontinhos com o sexo, o peso de meu amigo acompanhados do nome dos pais.

Encantada, parti para o quarto de meu doente. Pendurei o desgraçado cartão na porta e entrei sorrindo já imaginando a cena que se daria quando da chegada da próxima visita que certamente entraria às gargalhadas. De fato poucos minutos depois adentra ao quarto o escritor e médico Pedro Nava, amigo de nossas duas famílias. Sacudido pelo riso ele, em palavras entrecortadas, falava da gracinha e de como meu amigo tinha senso de humor, imaginando que o próprio havia cometido aquela barbaridade.

Sem entender bem o que se passava este me pediu que apanhasse o cartão. Ao vê-lo começa a vociferar palavrões horríveis lançando ameaças terríveis ao autor da infeliz brincadeira, segundo ele de extremo mau gosto e desrespeito. Encolhi-me apavorada quando ele me perguntou: você não viu quando entrou? Por que não me disse? Como é que você pôde deixar que outras pessoas vissem?! Possuída por abjeta covardia, declarei que sabia que ele iria se aborrecer e tinha achado melhor não dizer. Ao que ele retruca que mesmo assim eu poderia ter retirado e destruído o cartão.

Fui socorrida por Pedro Nava que resolveu divagar sobre a dificuldade que têm as pessoas em tomar a decisão acertada sobre o que seria ideal para outrem. Encantada com a possibilidade nos engajarmos numa discussão filosófica que afastasse meu amigo da procura do autor, passei a desenvolver uma complicada teoria sobre o assunto. Mas meu amigo insistia em comentar o fato: trata-se de alguém mau caráter e que quer me ridicularizar. Uma pessoa que me detesta e que veio aqui de propósito para isto. Atingindo um grau de abjeção inimaginável e indigno concordo com esta possibilidade mesmo sabendo que estava dando força a seu delírio de que havia pessoas que o detestavam.

No final da visita deixei-o bem pior do que o havia encontrado. Dei carona a Pedro Nava e no caminho ele ainda fazia conjecturas sobre o autor do fato. Perguntou-me se eu tinha alguma ideia de quem poderia ter sido. E foi ai que cheguei ao auge do mau caratismo declarando: vai ver ele tem razão. Deve ser alguém que o detesta. E, coração em frangalhos, me julgando um monstro, escuto a resposta: Coitado! Ainda bem que nós, amigos, estivemos lá hoje!

2008

terça-feira, janeiro 07, 2014

MUITO IMPLICANTE?

A interrogação é só minha transformando em dúvida o que é uma certeza para os que assim me rotulam. Eu acho injusto. A razão deste rótulo é a cisma que tenho com certas palavras ou formas de falar. Implico mesmo.  Ao escutá-las, sobretudo em noticiários da televisão, sou vítima de reações físicas profundamente desagradáveis. Uma espécie de alergia. Dá até urticária, acreditem. Sei lá eu por que, a maneira pela qual são ditas soa pernóstica e descabida.          

Uma destas palavras é internauta usada pelos apresentadores e apresentadoras de programas para designar aqueles que assistem a seus programas e lhes enviam mensagens. Trata-se – creio - de uma evolução tecnológica de missivista, palavra que já não me era grata.  Eu que sempre escrevi cartas nunca admiti ser por esta injuriada. Cada vez que a palavra internauta é proferida fico possuída de uma irritação que me dá ganas de gritar. Por quais diabos não usam espectador ou mesmo o não tão agradável, mas possível de ser aturado, tele espectador?

Sempre que internauta é articulado por uma das sorridentes moças (elas riem muito, repararam?) imagino um coitado vestido com roupa de astronauta, flutuando, ao som do Danúbio Azul, frente ao computador onde digita a mensagem que gerou o epíteto. Pior é que dizem isto com evidente prazer, sabe-se lá por que, acentuando e prolongando o som da terceira sílaba: internaaauta. Como se não bastasse num dos programas me informaram que iriam passar à transmissão do momento internauta quando seriam divulgados e respondidos os mails recebidos.

Mais recentemente esta infeliz palavra foi suplantada em frequência por outra que, tendo alterado o seu significado original, me provocou além do horror, o espanto. Sei lá por que está sendo incessantemente usada para anunciar a programação de transmissões todo tipo. Não “divulgam” os fatos: repercutem. Não contente em repercutir afirmam que vão “estar repercutindo”. O que será que vai acontecer? Vão  reproduzir sons ao invés de falas e ainda por cima vão fazer isto sem parar (porque vão estar). Minha nossa! O tom de séria gravidade com que é proferida esta informação repercute em minhas entranhas com a mesma intensidade e incômodo de uma broca de dentista. Esta sim, desde minha longínqua infância, repercute a intervalos regulares causando sérios danos psicológicos e emocionais dos quais nunca me recobro.

Como se não bastasse, o episódio do resgate dos mineiros no Chile inspirou comentaristas, repórteres e, até por escrito, no texto que corre em baixo da tela, à criação da palavra resgatista para designar alguns dos desceram à mina para retirar os que lá estavam presos. Isto me preocupa porque é bem provável que num futuro próximo outros neologismos deste calibre venham a ser criados. Como escadista (aquele que sobe ou desce escadas). Não duvido que este primor de palavra seja atribuído a um bombeiro que avança pela escada Magirus tentando apagar um incêndio. Vai ver o tal resgatista também existe e eu, que não possuo a mais recente edição do Aurélio, estou apenas revelando ignorância. Outro mistério: por vezes, na transmissão, os resgatistas se transmudavam em socorristas. Vai ver resgatista só resgata e socorrista resgata e socorre. Ou seja, resgatar das entranhas de uma mina não é socorrer. Não importa: ainda que a palavra exista me causa desprazer. Feia que só ela!

Nem sempre são palavras isoladas que me irritam. Frases inteiras podem incomodar de igual maneira. Até hoje, passados alguns meses, ainda estou tentando entender a declaração de uma apresentadora de programa que disse “ter orgulho de não ser ainda nascida quando do festival de Woodstock”. Ela dizia isto com uma expressão encantada e rindo muito. Qual seria o motivo deste orgulho?! E do riso? Ou ainda outra que afirmou que o quadro de que falava “era autêntico do autor”. Neste caso até dá para imaginar que ela queria garantir que não se tratava de uma cópia.

E eu me pego pensando que bem podiam abandonar o tom empolado passando a dizer bobagens de uma forma simples o que poderia até tornar divertido o escutar. Lembro-me de dois campeões de asneiras que me deliciavam: o primeiro, motorista de uma prima que tentava convencê-la a comprar uma caminhonete Dodge (naquela época só existiam carros importados): a senhora sabe que na Itália tem uma cidade onde só circulam Dodges? Levamos alguns segundos para identificar Veneza (Cidade dos Doges) como sendo a cidade capaz desta estranha exclusividade automotora.

O segundo é uma segunda: minha excelente cozinheira que sempre me pedia para levá-la ao sítio em Miguel Pereira. Um dia resolvi atender ao pedido e no momento em que entramos no extenso túnel de bambu que dá acesso à casa ela exclamou maravilhada: que lindo! Igualzinho as alamedas de Paris! Esta mesma pessoa me legou uma frase afirmativa (mas nem tanto) que me maravilhou desde a primeira vez que ouvi. Ela repetia esta frase, invariavelmente a mesma, sempre e com a maior convicção todas às vezes que afirmávamos qualquer coisa que ela desconhecia. Nunca consegui descobrir se com ela demonstrava concordância ou discordância. De fato nos deixava na maior dúvida quando solenemente declarava: É. Não deixa de não ser!

Esta maravilhosa construção serve agora como resposta contrita a alguns (ou todos) leitores desta crônica que porventura concordem com aqueles que me julgam implicante: É.  Não deixo de não ser!  

2011

segunda-feira, janeiro 06, 2014

DO ÓDIO AO ESTADO DE GRAÇA


A manhã se anunciava desagradável. Em pleno inverno um calor absurdo transformaria num tormento a inadiável ida ao supermercado. A ladeira que fazia meus encantos anos atrás há muito havia se transformado num instrumento de tortura quando da volta para casa. Na verdade a ida também já que, ultimamente, a descida vinha se revelando complicada. Sabe-se lá por que causas o avançar da idade passou a imprimir uma catastrófica velocidade de descida nada compatível com o equilíbrio já muito prejudicado.

Uma sucessão de frases compostas pelo verbo odiar fez-se presente em meu pensamento ao descer: odeio ladeira; odeio supermercado; odeio calor; odeio água sanitária. Esta última afirmação dá inicio a uma sequência de profundo ódio a cada item da lista que relaciona o que deve ser comprado. Como corolário final penso irritada: odeio esquecer alguma coisa que com certeza não está na lista.

Num esforço inútil procuro identificar que alguma coisa é esta quando percebo um velho senhor caminhando em minha direção alguns metros à frente.  Muito velho mesmo. Arrastando as pernas na dificuldade da subida íngreme, ele anda rente ao muro da Casa de Saúde São José decorado por aquelas horríveis pintura que eu odeio também. O ódio agora se volta contra o velho: odeio constatar que provavelmente temos a mesma idade! Para meu espanto e horror o velho olhando fixamente para mim, de longe começa a gritar: Velhinha! Velhinha! Não acreditando no que escuto, por alguns segundos fico sem ação. É uma grosseria? O velho é maluco? Devo eu responder? Responder o quê?

Embora a velocidade de subida do ancião seja lenta quase parando, a minha de descida é vertiginosa. Resultado: defrontamo-nos antes que eu possa resolver como contratacar. Ao nos cruzarmos ele passa direto por mim absurdamente cantarolando incessante como num refrão infantil: velhinha-bonitinha-velhinha-botinitinha-velhinha-bo... Mais adiante já não o escuto e sou atacada de um acesso de riso incontrolável. Os passantes, já na esquina da Rua Humaitá, olham para mim penalizados. A expressão revela o que pensam: velha gaga!

Dentro do supermercado me vejo liberta de todos os ódios e de bem com a vida, até consigo completar a lista de compras com itens efetivamente esquecidos. Encontro com a irmã de uma muito querida amiga que me indica inúmeros produtos, segundo ela milagrosos, dos quais eu desconfiava quando via a propaganda (Nossa! Eu quase escrevi “reclame”, Ninguém mais diz isto!). Milagrosamente um enorme bem estar e uma estranha alegria surgiram, creio eu, graças à loucura do epíteto a mim conferido pelo velho senhor. Vai ver é também por esta razão que me vem uma vontade irresistível em adquirir os produtos recomendados.

Mas não para por ai meu estranho comportamento. Para coroar esta extraordinária manhã resolvo comer uma deliciosa pizza, como costumam ser as do supermercado Zona Sul. Isto às 11 horas da manhã e sem fome alguma! Sentada na mesinha saboreando o objeto de extemporânea gula, o velho não me sai da cabeça. Nunca o vi por aqui, Será que mora nas redondezas? Ninguém sobe a ladeira da Macedo Sobrinho se não demanda algum prédio da rua. É avô de alguém que mora por lá? Honesta, faço uma correção que se impõe na indagação: avô, não! Bisavô! Afinal eu sou uma. Com pena enfio na boca o último pedaço da excessiva pizza que na verdade era para duas pessoas.

Empanturrada e feliz dirijo-me à caixa empurrando o carrinho repleto de novas aquisições. Ai vem a urgência em experimentar os novos produtos adquiridos: olha, estes aqui eu vou levar na mão. O resto é para entrega. A moça se dirige para mim com um olhar de censura: são muito pesados. Uma pessoa idosa como a senhora não deve carregar tanto peso! E para o meu horror e indescritível espanto da moça da caixa escuto minha voz soando sem que eu a tenha comandado: não sou idosa, não!  Sou uma velhinha bonitinha!


Saio desabalada do supermercado, sem olhar para traz apavorada com o que disse, mas ao mesmo tempo achando tudo muito divertido. Coisa estranha: a ladeira não mais se revela penosa. O dia está lindo, o calor já não é tanto e a sacola não pesa nada. Em estado de graça antegozo o absurdo prazer que vou ter em passar a usar sabão líquido ao invés de sabão em pó como se isto fosse a maravilha das maravilhas. Em vão olho os passantes que descem a ladeira buscando achar entre eles o “meu” velho. O emprego do possessivo se impõe. Sinto que ele tornou-se íntimo, amigo e carinhoso. Quem sabe está retornando? Eu poderia convidá-lo para um café e iríamos nos encantar com as gracinhas que me contaria do bisneto que visitou. E eu contaria as de minha bisneta. Vai ver têm a mesma idade. Em vão: não consigo descobri-lo entre as pessoas que cruzam comigo sem me olhar, sem me ver. Vai ver não me acham bonitinha. Que pena! Que pena mesmo!

domingo, janeiro 05, 2014

VAMOS COMBINAR


O grito de minha neta de doze anos expressa uma monumental censura: VOVÒ!!! Espanto-me: o que foi que eu fiz? E ela: olha só o que você disse! Em minhas últimas palavras nada encontro que possa causar tal celeuma. Mas enfim... quem sabe minha personalidade clumsy se manifestou sem que eu me desse conta? Cautelosa, pergunto: o que foi que eu disse?  E a declaração vem grave: você disse que ficou com o Armando Flávio no encontro do SEPROVECTOS*. Eu já ia concordar que era isto mesmo que havia acontecido quando me dei conta que o verbo “ficar” tem hoje outro sentido. Explico que fiquei, mas não “fiquei”.

O rostinho até então escandalizado sorri aliviado: a avó, já quase bisavó, não havia se tornado uma velha fogueteira. É óbvio que ela não pensou “velha fogueteira”. Deve ter  traduzido o escândalo por outra expressão ou palavra que desconheço para adjetivar o meu possível mau procedimento. E desconheço porque um dos efeitos da velhice, pelo menos da minha, é não saber mais falar. Não estou me referindo à emitir palavras o que ainda faço e, salvo alguns deslizes, com algum sentido para  ouvidos jovens.

O problema com que me deparo, há já algum tempo, é a atualidade destas palavras. Será que minha avó sentia isto quando eu lançava um “bacana”? Nunca comentou. Também eu não comento, mas morro de inveja ao escutar um “irado”. É expressivo, não é? Claro que posso usá-lo, mas em mim soaria estranho. Soa estranho até em gente bem mais moça do que eu. Existe um dicionário para cada idade e eu nunca havia me dado conta disto.

Aqui abro um parêntese para aconselhar os que tentam (inutilmente) escamotear idade: juntem-se aos jovens com uma cadernetinha nas mãos, anotem as palavras que os identificam como tal e passem a usá-las. Vai ver é mais eficaz que uma plástica. É perigosíssimo dizer, por exemplo, “aloprado”. Quem profere esta palavra é imediatamente catapultado para perto dos anos cinquenta ou seja, para idoso legal (legal aqui é de lei, mesmo e não “legal” no sentido de “bacana”). Pior ainda é dizer que se vai a uma “balada”: os da mesma idade pensariam que se dirige a algum teatro onde será executada a poesia cantada do século XV. Os jovens ficariam preocupados ao imaginar que os bares da noite serão invadidos pela terceira idade.

Há pouco tempo me referi a um tio avô como “dandi” e ouvi de outra neta: Bambi?! Por quê? Pobre Tio José, irmão de minha avó. Deve ter se revirado no túmulo ao ser confundido com o doce veadinho. Pra falar a verdade acho que ele também não gostaria nada de se ver referido como “dandi”.

Dei uma relida no que escrevi até agora e me dou conta de que usei a palavra “celeuma”. Será que ainda se diz isto? Há tempos não escuto. E nem gíria é. Caiu em desuso? Outra que não escuto mais é “détraqué”. Quando eu era moça era enorme a quantidade de “détraqués” que povoavam a família e adjacências. Ainda hoje existem certamente. Mas com qual denominação? Pirados? Não! Acho que não. Meus filhos diziam “pirado” e meus filhos já estão a caminho dos sessenta.

Preciso me informar urgente. Não para usar, mas para entender. Vai ver já ouvi e não entendi nada. Isto ocorre às vezes, em aniversários de minhas netas. Num deles aprendi, faz algum tempo, o conceito de “hauli”. Extremamente útil já que vez por outra me sinto como tal. Ou seja: sobrando; por fora. Para os não iniciados explico que se trata de uma palavra usada por surfistas para designar aqueles que não pertencem àquela parte da praia reservada aos “surfistas locais”. Pois é: velhice nos coloca como “haulis” em muitas circunstâncias.

E olha que eu procuro me atualizar, sobretudo evitando me escandalizar com novos comportamentos ou práticas. Mas por vezes é difícil como ocorreu recentemente: fui informada que existe agora, inventada por um editor maluco, a prática de “revitalizar” livros de escritores consagrados para estimular sua leitura pelos jovens!!! Esta “revitalização”, pasmem, consiste em contratar escritores jovens para reescrever clássicos da literatura. Ao que parece isto se denomina “mash-up”.

E foi assim que, estarrecida, fiquei sabendo que Senhora de José de Alencar e Dom Casmurro de Machado haviam sido “revitalizados” e publicados em linguagem e temática jovens fazendo com que vampiros e bruxas passassem a conviver com a doce Aurélia e a intrigante Capitu. Será que os jovens a quem foi destinada esta atroz iniciativa acharam-na “irada”? Espero que não, já que não os julgo idiotas. Ao contrário, tenho aprendido muito com eles. Mas eu fiquei irada, no sentido antigo da palavra.

Mas nem tudo é terrível assim. Algumas gírias e práticas são mesmo de causar inveja e eu gostaria que houvessem surgido quando eu ainda era jovem. Por exemplo, "vamos combinar” (e esta é uma das novas expressões que adoro e posso usar sem parecer estar-me “revitalizando”): em alguns casos como no deste editor que inova, a manifestação de juventude é definitivamente “détraqué”.

(*) Grupo de aposentados do SERPRO que se reúne uma vez por mês num bar em Ipanema e que, por razões econômico-financeiras, está fundando uma religião (Reaposentar em Cristo) da qual fui eleita Papisa.
2011



sábado, janeiro 04, 2014

SURREALISMO NO PLANALTO CENTRAL

Hospedou-se esta semana aqui em casa um colega com quem trabalhei nos idos de 1998, em Brasília. E, como sempre acontece quando velhos colegas se encontram, a conversa foi alimentada pela memória. Às gargalhadas recordamos um episódio que ficou nos anais do Nead – Núcleo de Estudos e Desenvolvimento Agrário. Por lá era comum a presença de consultores de outras nacionalidades. Entre estes um agrônomo chileno, extremamente simpático e competente. Desrespeitosamente o chamávamos “Cucaracha”, evidentemente não em sua presença.

Teria sido impossível contar esta história não fosse a prodigiosa memória de meu ex-colega responsável pela reprodução de todas as falas: uma bela manhã, na sala onde quatro de nós estávamos trabalhando, me vi sem grafite para a lapiseira. Nenhum dos presentes tinha para emprestar. Lembrei-me de ter visto o Cucaracha  reabastecer a sua. Levanto-me, falando alto: vou pedir grafite ao Cu... e apavorada interrompo a frase nesta trágica sílaba ao ver que o próprio entrava na sala. Marotamente um dos colegas presentes dá início ao absurdo diálogo que se seguiu:

Colega 1      Vai pedir a quem?!

Em desespero rezo para que o Cucaracha que nunca conseguiu se expressar em português ignore a grafia correta da primeira palavra que me vem à cabeça para completar a maldita frase:

Eu               Ao “cuzinheiro”.
Colega 1     Cuzinheiro?!
Cucaracha  De que cocinero habla usted?

Agora preciso encontrar alguma explicação que possa justificar o absurdo “cuzinheiro”.

Eu              A gente estava falando de comida. É que eu estou morta de fome.
Cucaracha Estas sin desayuno desde quando desperto? Pobrecita!
Colega 2    A pobrecita tá é doida e sem grafite.
Cucaracha E por eso tiene hambre?!
Colega 2    Tudo indica...
Cucaracha  Curioso!
Colega 3     Põe curioso nisto!
Eu               Você tem grafite que possa me emprestar?
Cucaracha  Si, por supusto. (rindo) Pero no lo vas a comer!
Colega 3      Com ela tudo é possível!
Eu               (furiosa) Muito engraçadinho!
Cucaracha   Y por qué están todos riendo?
Colega 1      Olha só: é quando você entrou na sala ela ia pedir grafite ao “cu... zinheiro”.
Cucaracha    Al cocinero. Pero...

Eu               (gritando) Que droga, gente, vamos parar                    com isto
Cucaecha     Usted no está bien! Que sucedió?
Eu                (em desespero) Não aconteceu nada. Eu só                 preciso...
Colega 2      ...procurar o “cuzinheiro”. 
Cucaracha   Y donde se encontra esse cocinero?
Colega 1      Vai ver tá na cozinha.
Cucaracha   Pero si no hay cocina aca!
Colega 2:     Este é o grande problema. Insolúvel.

Cucaracha desistindo de entender o que se passa sai da sala em busca do grafite e gargalhadas estouram. Retorna, segundo depois com o grafite e uma maçã (fruta que detesto) e me estende sorrindo.

Cucaracha  Grafite para escribir y uma manzana para solucionar tu hambre.
Eu         Obrigada. Obrigada mesmo. Mas a fome passou.
Colega 2       A fome dela passa quando tem grafite.

Novas gargalhadas explodem.

Cucaracha    Están todos bromeando, verdad?
Eu               Não liga, não, Olha! Eu vou comer a maça, tá?

Estômago revirado pego a maça. Voltamos todos ao trabalho e de repente o silêncio é cortado:

Colega 1    Alguém tem ai à mão a rotina de calculo do DV, módulo 11?
Colega 2      Pede ao “Cu...zinheiro”.
2011