domingo, agosto 03, 2014

http://youtu.be/w9CVjd0KSsA

Neste endereço uma palestra sobre Perda da Amizade da filosofa Olgaria Matos que julgo imperdível  para entender o mundo tresloucado em que hoje vivemos.

quarta-feira, julho 30, 2014

VALE A PENA LER. ESCRITO EM JANEIRO DE 2009 PELO GRANDE JORNALISTA FRITZ UTZERI QUE NOS DEIXOU A QUASE DOIS ANOS. É DE UMA ATUALIDADE ESPANTOSA.

De Varsóvia a Gaza

Sempre me senti constrangido para criticar Israel devido ao fato de ter nascido na Alemanha e ser filho de um soldado da Vermacht (o exército alemão) morto na Segunda Guerra. Passei minha infância tentando entender o nazismo e como aquilo podia ter acontecido num país civilizado como a Alemanha, onde os judeus participavam ativamente da cultura e a condição de judeu era uma religião herdada (não muito seguida pela maioria secularizada). Os judeus alemães faziam parte inseparável e preciosa da cultura germânica. Embora nunca tenha sido cidadão alemão (não sou “ariano” o suficiente), nasci na Alemanha nazista, sob um regime no qual minha mãe teve que provar a Gestapo que não tinha ascendentes judeus até a quinta geração e sujeita a medidas antropomórficas dos “especialistas” em “raça” para determinar se não tinha características semitas.

Ou não funcionou ou os “especialistas” nessa “ciência” se enganaram, mas se houvesse a menor suspeita de judaísmo eu teria acabado num forno antes mesmo de nascer, condenado desde o óvulo e o espermatozóide, nessa singularidade diabólica que caracteriza e diferencia o nazismo de todos os demais totalitarismos, como o mal absoluto. Passei muito tempo olhando para os alemães com idade acima de 18 anos durante a Segunda Guerra para me perguntar sempre o que eu e o que eles teriam feito. Muita gente acha que sou judeu e não teria o menor problema ou preconceito em sê-lo, mas se considerar o preço que teria que pagar se o fosse, foi melhor para mim que os nazistas considerassem minha mãe aceitável, embora não de “raça pura”.

Dito isto faço outra reflexão. Para mim, a pátria judaica deveria ter sido estabelecida na Baviera, em 1948. Os alemães, os carrascos e os indiferentes é que deviam ter pago a conta com suas terras e bens e não os palestinos, que nada tiveram a ver com o Holocausto e que acabaram pagando o pato (e o estão pagando até hoje), por serem vistos pelo Ocidente como um povo de segunda categoria, daquele tipo cujos mortos valem pouco ou nada. O conceito de “sub-homem” (untermënschen) que os nazistas alemães levaram ao extremo do extermínio industrial, persiste entre os povos ricos em geral, todos de boa consciência, mas que não dão a mínima para os mortos palestinos, latino-americanos ou africanos e que em geral fornecem as armas com as quais esses excluídos se matam.

Os sionistas reivindicam a terra da Palestina de onde os judeus haviam sido expulsos no ano 70 pelos romanos, originando a diáspora. Alguns anos mais tarde, em 138, depois de uma segunda revolta judaica, o imperador Adriano expulsou de vez todos os judeus de Jerusalém. Adriano também alterou o nome Judéia para Siria Palestina. Apesar disso, nunca deixou de haver judeus na Palestina e durante o domínio árabe e muçulmano os filhos de Abraão foram tratados com muito mais benevolência do que o foram no ocidente cristão (afinal os árabes reivindicam o mesmo antepassado comum e veneram exatamente o mesmo deus).

Quando o Estado de Israel foi fundado, haviam se passado 1878 anos da diáspora. Os palestinos foram expulsos de suas terras manu militari e sucessivas ações terroristas de grupos sionistas radicais como o Hagannah e Irgum, contra árabes e mesmo contra os ingleses que dominavam a região. Os árabes não fizeram melhor e expulsaram 800 mil judeus de vários países após a fundação de Israel, além de invadir a região e sofrer sua primeira derrota militar. O problema é que se a humanidade tivesse que resolver suas pendências territoriais com reivindicações de quase dois mil anos, o mapa do Mundo seria um caos, nós, por exemplo, teríamos simplesmente que ir embora e pedir desculpas aos índios.

Mas não é só isso, se recuarmos mais no tempo veremos que a chamada “terra prometida” foi conquistada pelos judeus depois do êxodo do Egito. E não foi uma terra fácil, virgem, zero quilômetro, preparada pelo deus de Israel para o seu povo, uma terra sem ninguém. Nada disso, foi uma conquista sangrenta, guerra de extermínio. Os povos que lá habitavam como os cananeus, foram impiedosamente massacrados. Não restou nada de sua cultura, de suas gentes, nem de suas cidades. E muitos casos, nem os animais foram poupados. Foi um Holocausto. Não imagino quem sejam (ou se existem) seus descendentes, mas se há direito tão antigo, os cananeus e os demais povos que lá estavam antes dos hebreus, têm prioridade sobre os filhos de Israel.

A terra de Canaã é um campo de lutas e extermínios desde o começo da civilização e a suposta doação do território por parte de um pai eterno é algo difícil de engolir para quem não for crente ou tiver o mínimo de bom senso, mas vamos ver como a Bíblia narra a história da chegada do “povo eleito” à “terra prometida”.

Lemos pouco a Bíblia, mas nela há histórias de arrepiar os cabelos, a ponto de em certas passagens acharmos difícil crer que estamos diante de um livro sagrado, inspirado por um deus. Vejam esta passagem de Números, quarto livro do Pentateuco (Os cinco livros de Moises: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). No capítulo 31, versículos 13-18 narra-se o desfecho da luta dos judeus contra os madanitas. Os filhos de Israel ganharam, e retornam a Moisés para ouvir o seguinte: “E saíram a recebê-los fora dos acampamentos, Moisés, o sacerdote Eleazar e todos os príncipes da Assembléia. Moisés irado contra os chefes do exército, contra os tribunos e centuriões que voltavam da batalha (curiosamente na edição católica da Bíblia usam-se graus militares romanos) disse: ‘Por que poupaste as mulheres? Não são elas que por sugestão de Balãao seduziram os filhos de Israel e vos fizeram prevaricar contra o Senhor pelo pecado de Fregor, pelo qual também o povo foi castigado? Matai pois todos os varões, mesmo os de tenra idade, e degolai as mulheres que tiveram comercio com homens, mas reservai para vós todas as donzelase mulheres virgens”.

Edificante ao extremo. Sei perfeitamente que estamos falando de sociedades há milhares de anos, mas a reivindicação atual se baseia num direito que foi estabelecido naquele tempo e para os judeus religiosos vale até hoje, embora os mais ortodoxos considerem a existência atual do Estado de Israel um crime, um pecado, já que o mesmo só poderia voltar a existir com a chegada do messias. Há judeus religiosos radicais que chegam a atribuir o Holocausto a uma pretensa culpa pelo sionismo.

No livro seguinte, o Deuteronômio, é narrada a preparação para a conquista da Terra de Canaã por Josué, que vem a ser irmão de Moisés. Logo no capítulo 3 podemos ler um episódio da luta dos hebreus contra Og, rei de Basan. Leiam: “O rei de Basan e todo o seu povo ferimo-los até o extermínio, destruindo ao mesmo tempo todas as suas cidades, não houve cidade que nos escapasse: sessenta cidades em todo o país”.

No capítulo cinco desse mesmo livro, Moisés recebe e transmite os dez mandamentos (o primeiro dos quais, listado no texto é: “não matarás”). Mas no capítulo 7, sob o título: "Destruir os cananeus e os seus ídolos", a “inspiração divina” escreve e ordena o seguinte: “Quando o senhor teu Deus te tiver introduzido na terra da qual vais tomar posse, e tiver exterminado diante de ti muitas nações: o heteu, o gergeseu, o amorreu, o cananaeu, o ferozeu, o heveu e o jebuseu, sete nações muito mais numerosas e fortes do que tu, e o senhor teu Deus as tiver entregado a ti, tu as combaterás até o extermínio. Não farás aliança com ela, nem as tratarás com compaixão”. No livro a seguir, Josué (o primeiro dos livros ditos Históricos), é relatada a conquista, massacres e extermínio dos povos que viviam na “terra prometida”. E só ler.

Voltando à era moderna, os cristãos, ao perseguirem e oprimirem os judeus criaram os guetos. O termo nasceu em Veneza, onde havia uma ilha com uma fundição (ghetto em italiano antigo), onde os judeus foram concentrados e obrigados a viver. Havia portões que fechavam o bairro à noite (retirados por Napoleão quando conquistou a cidade, mas cujos gonzos podem ser vistos ainda hoje). Os alemães estabeleceram vários guetos na Europa, entre 1939 e 1944 que chamavam de Judengasse (Bairro judeu), onde os judeus eram concentrados e aprisionados antes de serem enviados para os campos de trabalho e de extermínio. No Gueto de Varsóvia chegaram a ser confinadas 380 mil pessoas. A fome, as doenças e o envio para campos de extermínio reduziram a população para 70 mil. A revolta do gueto, em 1943 levou a seu arrasamento e ao extermínio dos sobreviventes.

Claro que as atrocidades cometidas pelos alemães são mais bárbaras do que a atitude dos judeus ante os palestinos, mas a Faixa de Gaza é inquestionavelmente um gueto, o maior gueto já criado. É um dos territórios mais densamente povoados do planeta, com 1,4 milhão de habitantes para uma área de 360 km². As condições sanitárias são assustadoras. A área depende de Israel para receber água, eletricidade e suprimentos. É cercada por muros e com portões de entrada por onde só transita quem tenha um passe. E isso não apenas do lado judeu, mas também do egípcio. Grande parte da população vive numa das maiores, talvez a maior favela do mundo.

Nas últimas eleções realizadas na Palestina, o Hamas, um movimento radical islâmico sunita, ganhou derrotando o Fatah, o partido do falecido Yasser Arafat, que era percebido pelos palestinos como corrupto ao extremo. As eleições foram limpas, mas para o Ocidente, a democracia passa quase sempre a ter um valor relativo quando o resultado não agrada, seja na Palestina, na Argélia ou no Chile. O resultado foi uma pressão, com sanções internacionais que levaram a uma luta interna e à divisão dos palestinos. A Cisjordânia ficou sob gestão do Fatah (com o apoio de Israel e do Ocidente), enquando o Hamas ficava com o controle da Faixa de Gaza, onde a situação humanitária precária favorecia o radicalismo.

Houve uma trégua de seis meses entre o Hamas e Israel, mas ao mesmo tempo o bloqueio de Israel ao território foi apertado, por terra, mar e ar e a situação da população de Gaza piorou. Hoje o desemprego chega a 50%, dois terços dos refugiados passam fome, não há fornecimento regular de luz e água ou remédio nos hospitais. Além disso, o acesso de ajuda humanitária sempre foi controlado e inferior ao necessário para aliviar a situação. O gueto começa a desesperar-se e é nesse contexto que o atual conflito recomeçou. Os palestinos que se amontoam em Gaza não estão lá porque queiram viver na praia, mas porque foram expulsos de suas terras a partir da formação do Estado de Israel e jamais se falou em sequer indenizá-los. Agora os velhos princípios de retaliação e extermínio já fundamentados no Velho Testamento estão de volta, uma triste repetição sem fim. Os nazistas alemães o fizeram várias vezes, a começar pela Noite de Cristal, (Kristallnacht), em 9 de novembro de 1938, quando em resposta à morte de um diplomata alemão em Paris por um judeu polonês mataram 91 judeus, prenderam e levaram para campos de concentração entre 25.000 a 30.000 e destruiram 7.500 lojas e 1.600 sinagogas.

          Uma semana de bombas e o total de mortos palestinos já se aproxima de 500, dos quais dezenas de crianças, e quase três mil feridos como represália a foguetes que até então então não haviam morto um só israelense (e quando mataram um, no primeiro dia da ofensiva de Israel, acertaram um beduíno, um trabalhador árabe). Isso é um resposta desmesurada sim, ainda mais porque já vem sendo feita à séculos, milênios e só tem levado a novas guerras e mais massacres.

Até hoje, dia sagrado para os muçulmanos, tanques israelenses, canhões e imensas retroescavadeiras blindadas se concentram na froteira entre Gaza e Israel. Se esse dispositivo for acionado (e tudo indica que o será), o massacre e a despropoção de forças vai aumentar. Será um banho de sangue e os civís palestinos serão – mais uma vez – as maiores vítimas.

Os árabes, por seu lado, se indignam, mas seus governos, em geral pusilânimes e corruptos, não movem uma palha para ajudar os palestinos. Não digo militarmente, essa solução só levará ao extermínio, inaceitável em qualquer hipótese, sejam quem forem os exterminados. Tais episódios e tal modo de pensar e agir já deveriam ter sido banidos da memória humana. Mas é verdade que os árabes podiam fazer muito mais do que fazem para melhorar as condições de vida de seus irmãos palestinos.

Não se deve negar a Israel o direito a existir, mas o fato é que qualquer república baseada em religião e exclusão só gerará violência. O pior de tudo é que me sinto como um estúpido naïf, um idiota, ao achar que todos devem desarmar seus espíritos.

Reporto-me a Ghandi que dizia que a política de retaliação, o olho por olho, só terá como resultado a cegueira geral. A impressão que tenho é que Israel busca uma posição de força para tentar enfraquecer o Hamas, aproveitando os estertores do apoio incondicional da era Bush. Mas será que Obama vai transformar essa realidade? Se o fizer será uma espécie de messias, o que duvido...


sábado, março 08, 2014

AGORA É PRA VALER

Minha gente,

agora acabou mesmo. O estoque da crônicas da Revista Alpino já foi todo publicado. Agradeço demais a vocês que tanto prestigiaram esta pretensa cronista. Os comentários, tão gostosos de ler, quase me convenceram de que eu de fato era uma. Segundo me esclareceu Ângela Delgado, que leu todas as crônicas, ela sim uma escritora de peso, o Blog ainda fica no ar por muito tempo. Como é improvável que muitos tenham participado da maratona que ela empreendeu, vocês poderão ainda ler algumas das que ficaram faltando. Não sei, até hoje, qual foi o critério que usei na ordenação da publicação mas hoje me dou conta de que as de que gosto mais foram publicada quando da criação do blog. Uma curiosidade me fica: o porque de tantos leitores na Russia, China, Malásia e Alemanha? Nos Estados Unidos dá pra entender|: Jorge e Ângela Pontual, amigos de fé de longa data, organizaram uma distribuição espantosa! Outro espanto: a quantidade de leitores da crônica Porque Eu Gosto de Abiu! Devo ser uma péssima crítica de mim mesma porque nela não fazia muita fé. Por outro lado, A Síndrome de Boris, que eu gosto pelo sentido que tem, foi muito pouco lida! Mais uma vez agradeço a todos vocês pela leitura. Tive um enorme ganho em conhecer pessoas fabulosas que não quero perder! Vai dai que continuaremos a nos falar, não é?  

quinta-feira, março 06, 2014

POR UM SERVIÇO LIMPO

Rio de Janeiro - Carnaval de 1952
José Simões, aos 30 anos, dá o laço na gravata borboleta, dentro de um impecável "summer". Com desgosto, alisa um imperceptível amassado no paletó e grita por Antonia. Risonha, ela escuta recriminações: o descuido em passar a roupa significa uma falha na imagem. Antonia promete: não vai mais acontecer. O tom rigoroso e autoritário dá lugar a uma queixa infantil, lamurienta: ela sempre diz isto. Antonia sorri maternal, contrariando seus 25 anos.

No bonde, um grupo de palhaços coloridos, canta e dança sobre os bancos. O Teatro Municipal surge iluminado. José salta e se dirige para lá, apressado. O porteiro fardado é a única pessoa na entrada, que José ultrapassa dirigindo-se à porta lateral, onde uma fila de homens, vestidos como ele, entra vagarosamente. José é garçom.

José conduz uma garrafa de champanhe e taças, com elegância, desviando-se de bêbados e mascarados. Na porta de um camarote, dois homens de terno, o deixam entrar depois de uma avaliação minuciosa. O sorriso nos lábios de José é quase imperceptível ao oferecer a taça ao homem sorridente que o observa. O "senhor presidente" tem um leve tom de intimidade e é retribuído com exclamações de reconhecimento. José é um garçom familiar ao Presidente Getúlio Vargas.

Nos braços de Antonia, José comenta sua atuação no baile. Nomes famosos desfilam entremeados com a descrição do cardápio servido na ceia. Antonia, sedutora, quer saber se ele flertou com alguma mascarada. José sinceramente se escandaliza. Seria inadmissível, não profissional. Antonia enrosca seu corpo no dele, num convite ao amor. José se rende e a possui com uma fúria que não se poderia supor num homem comedido como ele.

Rio de Janeiro - 1968
No Bec Fin o movimento é intenso. Em todas as mesas discute-se a situação do país. José apresenta as trutas com amêndoas ao senhor de cabelos grisalhos que preside a mesa e inicia sua abertura. Todos interrompem a conversa para acompanhar a operação: ninguém faz isto como José. O elogio não o perturba. Impassível e solene ele vai colocando os pratos servidos para cada um dos convivas. Curioso, o senhor quer saber a opinião de José sobre o golpe militar. Categórico, ele deixa transparecer o desgosto: militares não sabem se ter à mesa. Uma gargalhada de concordância saúda a declaração.

A mesa de almoço está sendo primorosamente posta por Antonia. Serviço terminado ela se dirige para o quarto. Na penumbra José dorme. Antonia o observa com carinho. Delicada ela o acorda: já são 5 horas da tarde. José senta-se na cama. Os dois trocam comentários sobre a noite anterior. José enumera nomes de fregueses a quem serviu. Orgulhoso, pede à Antonia que apanhe a carteira no bolso da calça. Exibe um maço de notas: Dr. Almeida Furtado retribuiu assim seu comentário sobre o governo da revolução. Um garçom sabe das coisas. Se souber aproveitar adquire mais cultura do que na faculdade. Antonia comenta que se as gorjetas continuarem assim dentro em breve poderão comprar a casa. A vizinha disse que agora tem um banco que ajuda. José, complacente, traduz. É o BNH. É uma mulher que chefia. Já foi uma vez no Gourmet. Ordenou um Chateau Margaux para acompanhar um badejo. Um horror. Antonia está impressionada.

José e Antonia comemoram a compra da casa. Ele se destaca dos convivas que, ruidosamente, tomam cerveja em mangas de camisa: de terno, é tratado com deferência. O sogro escuta admirado o relato que José lhe faz de notícias que não saem em jornal. Torturas, prisões, pessoas desaparecidas. José não conhece essas pessoas. São estudantes, comunistas, pessoas que nunca freqüentaram os lugares em que trabalha. Mesmo assim ele está chocado. Isto não parece certo, embora o governo esteja sendo apoiado por muitos de seus fregueses mais eminentes. José está confuso. O sogro acha que ele não deve se preocupar com isto. Afinal foi o governo que permitiu a compra da casa. Todo mundo está prosperando. José concorda que há muito dinheiro rodando na noite. Até dólar ele tem recebido. O sogro olha, maravilhado, a nota de 10 dolares que passa de mão em mão, admirada com respeito.

Rio de Janeiro - 1986
A imponência que caracterizava José já não é mais a mesma. O maitre do Gourmet, pouco a vontade, se dirige a ele: o movimento já não é o mesmo. Os fregueses antigos se foram. Os novos preferem o serviço feito com rapidez e não dão valor ao requinte com que José se habituou a servir. Ele merece uma casa que valorize o tradicional. José, atingido, procura manter a dignidade: serviço não há de faltar.

A romaria começa, à procura de emprego. José se choca com as poucas propostas: sem salário, só à base de gorjeta. Percebe que sua experiência e capacidade de nada valem. Pequenos detalhes revelam seu desânimo: a maneira de andar, de se vestir, o tom de voz. O orgulho, no entanto, ainda transparece no que fala, ao se candidatar a uma vaga.

Antonia apresenta os mesmos sinais de envelhecimento que marcam José. Mais gorda, olheiras fundas, conserva, no entanto o sorriso e o bom humor que complementam o carinho com que trata José, chegando em casa, cansado. Ela se apressa nos últimos cuidados com a casa antes de sair. Está atrasada. Até Ipanema é um estirão e D. Mercedes cria o maior caso quando ela chega depois da sete para a faxina. É preciso ter paciência.

Rio de Janeiro - 1990
No escritório de segunda classe José é recebido por Airton, gerente da firma de recrutamento de garçons. A experiência que ele tem garantirá uma constante convocação. É só preencher uma ficha. Ele será chamado. José está radiante. Perde-se no relato do tempo em que Getúlio Vargas o chamava pelo nome. Airton disfarça o pouco interesse: vai adorar ouvir isto em outra oportunidade. Há muitos candidatos à espera. Os que esperam têm um ar cansado, desanimado.

Airton, rindo, descreve para o dono da empresa, a figura de José. Inacreditável. Cheira a naftalina. Parece, no entanto, entender do negócio. Servirá para dar um ar de competência que os suburbanos que os contratam valorizam. Julio se preocupa: muito idoso?  Cabelos brancos? A afirmativa de Airton determina: mande pintar. 

Em casa, a recepção que lhe foi dada por Airton é colorida pela fantasia de José que prevê o fim das dificuldades. A firma é conceituada. Recepções e casamentos. Certamente encontrará, nestes lugares, os antigos fregueses. Antonia se preocupa com o entusiasmo. Procura trazê-lo à realidade, com cuidado. Contanto que haja serviço já será muito bom.

José, em companhia de outros garçons, escuta a preleção de Airton. Não há gorjetas. É um casamento. Na eventualidade de ser quebrada alguma peça de louça, o valor será descontado. Vai ser um ótimo serviço. Festas de casamento terminam cedo. São poucas horas de trabalho e as bandejas já estarão servidas na cozinha. Os copos também. José se assusta com esta informação: não é de bom tom trazer os copos já servidos. Airton seco atalha: a quantidade de bebida já é predeterminada. A circulação dos garçons deve ser rápida e constante, impedindo que se sirvam de mais de um salgadinho por vez, ao mesmo tempo dando impressão de fartura. José está chocado. Os outros garçons observam o diálogo com ironia. Um deles informa a José que é sempre um casamento brega. A empresa nunca pega serviço de granfa. Tudo subúrbio. José, com frieza, declara que não se justifica a ausência de etiqueta. Ainda procura convencer Airton que irritado explode: tem que pintar os cabelos. José se cala.

No banheiro, Antonia acabou de pintar de preto os cabelos de José. O resultado é grotesco. O preto avermelhado faz com que as linhas da velhice se destaquem marcando o rosto. Antonia procura animá-lo. Parece ter menos 20 anos. Ela é que está velha. Vai ter que se cuidar. Assim José acaba conquistando alguma menina. È enorme a tristeza de José.

No escritório os garçons reclamam. O atraso no pagamento do último serviço já vai para mais de três dias. Airton explica: o cliente ainda não pagou. Com esta inflação a empresa não pode financiar. Assim vão acabar tendo que fechar as portas. Será pior para todos. O argumento assusta e eles desistem. José se deixa ficar. Quer falar com diretor. Airton tenta dissuadi-lo. Não vai adiantar. Julio está muito ocupado. José insiste. Espera o tempo que for necessário. Airton dá com os ombros e vai para a outra sala. A secretária olha para José, penalizada. Seu Julio não vai ceder. Imagina se ele vai tirar o dinheiro aplicado para pagar alguém. Só quando entrar o outro serviço. José se escandaliza com a noticia. Isto é desonesto. A secretária ri debochada. Também é desonesto ficar com as gorjetas e ainda pagar só um terço do que cobra por cada garçom. José, indignado, sai correndo.

No bar da esquina alguns dos garçons tomam cerveja. Ele os informa do que acabou de saber. Os outros riem. José parece viver num outro mundo. Todas as empresas funcionam assim. Não adianta fazer nada. José tenta argumentar. Há que ter dignidade. Os colegas se irritam: dignidade, o cacete! O que interessa é a vaga.

José entra apressado no sindicato. Quer falar com o advogado.

O advogado explica: José não tem vínculo empregatício. É autônomo. Não há contrato assinado obrigando a pagar no dia da prestação de serviço. Comenta com o assistente: essa gente se abaixa, aceita as condições mais absurdas e depois quer lutar pelos direitos. Um mínimo conhecimento da legislação é necessário. José, chocado, se retira, sem atender o chamado do advogado.

José em desespero, anda sem rumo. Esbarra nas pessoas, como bêbado. Um rapaz comenta com a namorada que a bicha de cabelos pintados está num barato. José escuta. Uma mudança se opera. Ele se empertiga. Entra em uma loja de ferragens. Sai com um embrulho. Anda rápido, desenvolto. Parece mais moço.

Julio está chegando no estacionamento. Vai abrir o carro e vê José que se aproxima. Esboça um gesto de contrariedade: que saco! Não tem tempo agora. Volte amanhã. José, com um inesperado e doce sorriso, enfia a faca em seu peito. O sangue jorra, sujando a mão que ainda segura a faca. O corpo cai libertando-se dela. José se afasta, caminhando devagar, empertigado. Os raros passantes olham a cena apavorados, imóveis.


Na delegacia, José deposita a faca na mesa do espantado comissário. Dignidade e orgulho dão o tom à sua declaração: "É preciso lutar por um serviço limpo, Doutor."

E SE...

      Frente à tela fazia tempo que Mafalda olhava mas não via e nem escutava a novela. Engraçado! A partir dos sessenta e cinco anos este alheamento havia começado. A filha que passava de lá pra cá em seus afazeres comentava com as amigas: Mamãe não perde um capítulo. Fica vidrada.  Prestasse ela mais atenção à expressão de Mafalda, perceberia que aquele olhar vago e distante não era destinado aos personagens que desfilavam na tela. Mafalda estava era se dando conta da entrada na terceira idade! E como!

      Em sua vida até então nada de terrível havia ocorrido. Fora tranqüila entremeada de momentos bons e ruins como a de todo mundo. Alguns foram difíceis e tristes, é verdade, como a morte do marido havia alguns anos.  Mas isto teria mesmo que acontecer: era ele quase vinte anos mais velho. Os filhos – três - haviam nascido, crescido e tomado o destino lá deles sem maiores problemas. Uma pensão razoável garantia-lhe o morar com a filha sem a sensação de dependência. Ao contrário, até ajudava, providenciando coisas supérfluas que o genro não poderia prover. Então – pensava Mafalda – porque a sensação de que alguma coisa faltara? Por que esta sensação estava ali, presente. Incomodando. E o que é pior, cada vez mais forte. 

      Vai daí que um dia a neta interrompe seus devaneios com uma pergunta aparentemente sem importância: Vó, e se você ganhasse na sena?  Mafalda sorri, achando graça: impossível, meu bem. Eu não jogo!  A neta insistiu: mas, e se?!  Mafalda não respondeu, mas, a partir deste dia, não conseguiu mais se livrar da introspecção do que lhe faltava. Aquilo ficou martelando e seus ouvidos: “e se... e se...”  Censurou-se: e se o quê? Jogar na Sena?  Que bobagem! A probabilidade é mínima. Esta constatação deveria ter sossegado seu pensamento. Mas não! O “e se” continuava insistente. Lembrou-se sorrindo e até um pouco envergonhada: e se eu houvesse me casado com  o Augusto? Uma pontinha de emoção começou a fazer seu coração bater mais forte. Censurou-se de novo: que coisa ridícula na minha idade! Ele já deve até ter morrido. Suspira: era lindo! E se não houvessem mudado para o Rio de Janeiro... quem sabe?

      A partir daí uma torrente de “e se” começou a jorrar de seus pensamentos. E se não houvesse aceitado a imposição do marido para que parasse de trabalhar? E se tivesse ido à Europa com o dinheiro que teria ganhado? E se tivesse conhecido Veneza, seu sonho? E se tivesse dito à desagradável Tia Eulália tudo que ela merecia ouvir? Uma tristeza começou a invadir seu mundinho: os “e se” ficaram todos num passado distante. Impossível de realizá-los. Até a peste da Tia Eulália já se foi!

      De repente como um raio um pensamento perigoso. Muito perigoso!. Os “e se“ não precisam se tornar passado!! E se ela comprasse aquele vestido que adorou, mas achou com um ar muito jovem? Levantou-se de um salto. O shopping ficava aberto até 10 horas e era é logo ali. Sob olhar estarrecido da filha anunciou: vou sair. Já volto!  E foi assim que tudo começou. O vestido novo funcionou como uma armadura guerreira que lhe permitiu partir, lança em riste, para a aventura de uma terceira idade assumida e divertida em que os “e se” podem acontecer no presente.

      O primeiro dos desatinos (segundo os filhos) foi: e se eu fosse dançar na Estudantina? A ida ao dancing sozinha era uma ação inimaginável em sua pacata vida. Mas foi. Não só foi como dançou, noite adentro, com um daqueles fabulosos senhores que por lá exibiam suas qualidades coreográficas. E se eu cortasse meus cabelos bem curto, deixando que os cachos que sempre procurei esconder se liberem? E assim foi feito e no salão o “e se” funcionou a mil: maquilagem, depilação, massagem linfática tudo o que tinha direito. Quase não foi reconhecida ao entrar em casa.


      Os filhos ficaram em pânico. Uma noite se reuniram em casa do mais velho deles aventando as possibilidades as mais terríveis. O que mais ela poderia aprontar? A filha desolada  informa: ela comprou um maiô! Deu pra ir a praia com aquele velho do quinto andar! Os outros gritam apavorados: vai dizer que ela está namorando?! A moça suspira: felizmente, não. Ela disse que ele é um chato... mas carrega a barraca!  Ao voltar para casa a filha quase desmaia ao vê-la  participando da mesa de pôquer que o marido organiza as quartas feiras com os amigos. Ela chama o marido aparte e furiosa cobra: “ta maluco?! Você está dando força para esta loucura de mamãe querer parecer jovem?!”  O genro sorri: “ela não está parecendo mais jovem e nem quer isto. Ela está, minha querida, muito  feliz!”   

quarta-feira, março 05, 2014

O SEGREDO


Podia-se dizer, sem mentir, que Quinzinho era um homem de sorte. Desde o nascimento tudo havia dado certo e foi assim, que aos trinta anos, a vida lhe sorria no rosto de Dalva, sua mulher. Dalva havia sido, e ainda era, a mulher mais bonita que já vira. Estavam casados havia dez anos e eram citados por todos como o casal mais feliz daquelas paragens. De fato era invejável o entendimento entre os dois. Amavam-se perdidamente. Não havia entre eles palavras não ditas, pensamentos não revelados, anseios não expressos. Confiavam tudo um ao outro, certos do entendimento, da aceitação, da compreensão. Por esta razão Quinzinho não se recriminava de haver guardado um único segredo: era estéril.

Havia sabido disto quando se candidatou ao tiro de guerra na cidade onde estudava, longe de todos. Na época aquilo incomodou um pouco e ele guardou para si a informação. O incômodo logo passou quando Dalva, no início do namoro, lhe fez uma extraordinária confissão: achava difícil que um homem a quisesse como esposa já que ela abominava a ideia de ter filhos. Quinzinho, já caído de amores, exultou. E, sabe-se lá por que não revelou sua impossibilidade neste setor. Apenas concordou, entusiasmado: filhos jamais!  E vai daí que esqueceu a esterilidade. Esqueceu mesmo.

E eis que chega de Portugal um primo distante para uma visita. Hospedou-se em casa dos pais de Dalva e, imediatamente, ficou íntimo do casal que se maravilhava com histórias e descrições de uma Europa que lhes parecia um lugar encantado. Havia vindo para passar dois meses, mas de repente, para espanto geral resolveu partir. E todos culparam Dalva deste fato por que ela, inexplicavelmente, havia se tomado, do dia para noite, de uma solene antipatia pelo Primo tratando-o com indiferença e até com certa grosseria. Recriminada por todos Dalva reagiu mal, pela primeira vez, até com Quinzinho. Mas ele colocou um ponto final no assunto.  

Pouco tempo depois o ponto final transformou-se num raio quando Dalva, aos prantos, revelou que estava grávida. Estava esclarecida a rejeição de Dalva ao Primo. Quinzinho, ao invés de bradar aos céus, como seria de esperar, emudeceu. E suas lágrimas juntaram-se às de Dalva. O médico espantou-se: mulher com depressão pré parto já não era comum, homem então!  Pela primeira vez não tinham eles a mesma clareza sobre os fatos: o motivo do pranto de Dalva era conhecido por Quinzinho. E ela, que nem desconfiava disto, atribuía a um filho não desejado a torrente de lágrimas do marido. E ele sofria. Sofria muito. Isto durou até que foram a um show de Roberto Carlos. Como última música ele cantou, emocionado, “Eu vi a mulher preparando outra pessoa”... e o tempo parou para que Quinzinho olhasse para aquela barriga como fruto seu.

E foi assim que Joaquinzinho nasceu lindo e bem vindo para alegria da família e espantosamente de Dalva e Quinzinho.  Mas desmentindo ditado, um raio cai, sim, duas vezes no mesmo lugar. Num terrível diagnóstico Joaquinzinho adoece e a única salvação seria um transplante de fígado. Dalva havia tido hepatite e não poderia ser a doadora. Ela e Quinzinho, ambos sabedores da verdade, se desesperam. Quinzinho submete-se aos exames para verificar a compatibilidade. Mudos, eles esperam pelo milagre de uma coincidência impossível. E eis que o médico, olhando o resultado do exame, anuncia ao aterrado casal: não nega que é seu filho. E Joaquinzinho é operado com o maior sucesso. Pasmo Quinzinho procura uma clinica e em segredo se faz examinar. Aleluia! O exame feito por época do tiro de guerra não se confirma.  No hospital ainda, para distrair o filho, Quinzinho mostra um álbum de família identificando os retratados.


E eis que o dedinho do menino aponta o Primo, numa das fotos: quem é esse? Dalva retém a respiração e observa o marido. Uma retumbante gargalhada ecoa no quarto. Quinzinho ri. Ri e chora. Ele toma Dalva nos braços e rodopia com ela, dançando leve e solto. E ele grita, brada aos céus: Dalva, meu amor, você tinha razão, o Primo era um cretino. E voltando-se para o filho: este ai, meu filho, não era ninguém! Sem que fosse preciso explicar e porque se amavam muito, Dalva entendeu tudo. E foi assim que o único segredo que havia entre eles desapareceu para todo sempre no riso alegre de Joaquinzinho.  

terça-feira, março 04, 2014

A REFORMA DESEJADA


       Marco Aurélio era, aos 30 anos, um esquisitão. Em tudo, cópia do tio avô Ramiro, que lhe havia legado o Casarão. Por isto ninguém se surpreendeu quando ele decidiu nele morar. Até que tentaram convencê-lo a vender. Escandalizou-se o rapaz: vender a casa do Tio Ramiro?! Nunca! Pelo menos faça uma reforma, pediram. Escandalizou-se mais ainda.

E foi assim que Marco Aurélio refugiou-se em meio às paredes cinza e tristes em companhia de uma senhora discreta e muda como o patrão e que se ocupava de todo serviço. Fora os livros e os velhos discos, também legados pelo Tio, nada mais lhe interessava. Nem mesmo as belas pretendentes que acabavam por desistir. Nisto também imitava o Tio Ramiro. Este jamais se interessou pela bela Joana que, morrendo de paixão, retardou o casamento até o último minuto esperando que Ramiro desse apenas um sinal para abandonar o noivo e jogar-se em seus braços. Contava a lenda familiar que no dia do casamento de Joana, Ramiro resolveu galopar estrada a fora em seu belo o cavalo alazão que jamais saia das cocheiras. Quem sabe irritado por ser perturbado em seu eterno descanso o cavalo reagiu e atirou Ramiro ao chão. Acordou dias depois num hospital mais enfarruscado do que nunca.


Além dos livros e os discos só demonstrava interesse por Marco Aurélio que, desde o nascimento, mereceu deste tio atenções nunca vistas, no que era correspondido pelo menino que o adorava. Quando Marco Aurélio veio morar no casarão manteve tudo exatamente como o Tio havia deixado. Única diferença foi a cocheira agora usada como garagem onde o belo carro em nada ficava a dever ao alazão do Tio, mas que nunca era usado.

Um belo dia a governanta sai de seu mutismo para fazer um pedido: uma sua sobrinha ficara órfã e só no mundo. Não tinha para onde ir. Será que poderia vir morar no casarão ocupando o pequeno depósito onde coisas que caiam em desuso eram guardadas? Ela poderia ajudar no serviço. Marco Aurélio concedeu, mas exigiu: desde que não me dirija palavra. E assim foi feito.

Como a apaixonada do Tio Ramiro, a moça chamava-se Joana e como ela era também deslumbrante. Passou a ser uma presença silenciosa junto a Marco Aurélio. Era ela que lhe servia o café, o almoço e o jantar, Os pratos, trazidos numa bandeja enfeitada com uma rosa sempre fresca, se sucediam acompanhados de um leve perfume de lavanda. Coisa estranha: Joana parecia adivinhar quando sua presença era necessária. Surgia do nada, sem ruído, trazendo a xícara de chocolate quente, fechando as cortinas quando a claridade incomodava, preparando a cama no momento em que o sono vinha e escolhendo as roupas que ele desejava vestir, após o banho, que arrumava primorosamente sobre a poltrona do quarto.

Joana havia se incorporado ao casarão e ao patrão. Dois anos se passaram até o dia em que Marco Aurélio ouve pela primeira vez a voz de Joana: é a última vez que lhe sirvo. Eu amo o senhor e isto não pode, não é? Marco Aurélio sentiu uma coisa esquisita quando o jantar foi servido pela governanta que, sem dizer palavra, assumiu todas as tarefas de Joana. Dela ficou no ar o perfume de lavanda que foi sumindo, sumindo até desaparecer por completo. E a coisa esquisita que ele sentia foi aumentando, aumentando e se tornando uma quase dor quando passava pela porta do quartinho que havia sido de Joana.


Alguma coisa tinha que ser feita. Atribuindo o desconforto e o mal estar a aquele quarto que permanecia como Joana havia deixado, decidiu por um recurso extremo: uma reforma! O quarto se tornaria uma despensa apagando a lembrança. É isto! E sem esperar ajuda começou a retirar do quarto todos os objetos que ainda guardavam o perfume de Joana. Ao retirar uma pequena caixa de madeira, curioso, abriu. Nela um embrulho com os dizeres: pertences recolhidos no acidente do doente Ramiro Gomes Teixeira. Entre estes uma carta na qual Tio Ramiro se declarara minutos antes de partir em seu alazão para raptar sua Joana às portas da igreja: meu amor, juntos leremos esta carta onde escrevo o que nunca fui capaz de dizer. E a governanta se assusta quando vê Marco Aurélio passar em disparada em direção à garagem, gritando: preciso entregar a carta! O carro espatifa-se contra um caminhão ao cruzar a estrada. No cemitério, pela carta que nunca recebeu, lagrimas correm pelo rosto bonito de Joana. 

segunda-feira, março 03, 2014

O TEATRO DA VIDA

      Hoje, passados tantos anos, nenhum deles consegue lembrar como e porque o Teatro havia surgido. Aquela vila de subúrbio era o palco e os pais o público que entusiasmado aplaudia os espetáculos produzidos pelas crianças, ainda tão pequenas. As idades variavam entre sete e onze anos. Pedro, o mais velho, era o diretor da Companhia. A estrela, Marinha. Aos dez anos a menina já anunciava a beleza que despontaria anos mais tarde. As peças improvisadas, jamais escritas ou decoradas, tinham por inspiração histórias narradas às crianças pela avó de Pedro. O figurino dos personagens era tomado emprestado nos guarda roupas dos pais; adornos e jóias confeccionados em papel crepom.

      E foi assim, como todos os outros, montado o último espetáculo: Rapunzel. Nesta montagem uma surpresa: Pedro exigiu para si, além da direção, o papel do Príncipe. Houve revolta. Afinal o galã era sempre o Tonho. A discussão terminou quando Pedro ameaçou deixar a Companhia: capitularam sem entender o porquê da insistência. Mas nem mesmo Pedro entendia o mal estar que sentia quando imaginava que outro, que não ele, iria tocar os cabelos de Marinha. Ele tinha fascinação pelos cabelos da menina: negros, brilhantes, fartos, chegando até a cintura. Até sonhava com eles! E se enfureceu quando Fabinho, que fazia o papel do Pai de Rapunzel, comentou que os cabelos da Princesa deviam ser louros e que só uma menina loura poderia fazer o papel. Pedro, indignado, invocou a presença da avó para atestar que Rapunzel era morena. Esta percebendo que por alguma razão isto era importante para o neto adorado, afirmou: os cabelos de Rapunzel eram negros! Muito negros! Diante deste abalizado testemunho todos se calaram e Marinha foi confirmada como Rapunzel.

      O espetáculo foi lindo. Emocionada, a platéia tomada por fértil imaginação, via uma altíssima torre no lugar da escada de quatro degraus da cozinha da casa de Tonho, onde Marinha-Rapunzel, num equilíbrio instável e interpretação irrepreensível, escutava o chamado de Pedro-Príncipe: Rapunzel, solta seus cabelos!  Num gesto dramático, Marinha os lançava escada abaixo para que Pedro os pudesse utilizar como corda para juntar-se à amada. Terminado o espetáculo a platéia aplaudiu frenética enquanto os atores de mãos dadas se curvavam agradecendo.

      Quando foi servido o lanche de costume (cachorro quente e coca-cola) a terrível notícia caiu como um raio.  A família de Rapunzel, quer dizer de Marinha, iria mudar-se para São Paulo!  Aquele seria seu último espetáculo como estrela da Companhia. E Pedro sentiu o coração apertar. Nunca mais iria ver aqueles cabelos lindos, que agora havia tocado. Eram macios, tão macios!
* * *
      Pedro, aos vinte e cinco anos, sorri no pensamento: ainda sinto o coração apertado. Como estará Marinha hoje em dia? Com certeza cortou os cabelos. E vem uma idéia maluca: ela poderia ter sido a mulher de minha vida. Mas naquele tempo eu não percebia. Era tão criança...  
* * *
      A amiga de Marinha espanta-se: que ideia! Deixar de ir ao almoço da turma para ver um desenho animado! Pirou? Marinha sorri: não é um desenho animado. É a história de Rapunzel! A amiga espanta-se: e daí? Espanta-se mais ainda com a resposta de Marinha: o Príncipe, poderia ter sido o homem de minha vida! .  
* * *
      A fila do cinema está enorme. Crianças acompanhadas pelos pais fazem uma enorme algazarra. Pedro sente-se deslocado: o que é que eu estou fazendo aqui?  Marinha, um pouco adiante na fila, sonha: será que o Príncipe se parece com Pedro? Sem saber por que o faz, retira a presilha que prende os longos cabelos que nunca teve coragem de cortar. Eles caem sobre seus ombros chegando à cintura. Ouve-se um grito: Rapunzel! Ela se volta e deslumbrada reconhece Pedro que corre em sua direção. Os que estão na fila, espantados, observam o casal que se abraça comovido e depois parte, mão na mão, em direção à vida.


domingo, março 02, 2014

AMNÉSIA

Coisa mais absurda o nome que lhe deram: Bela! Porque Bela era feia. Muito feia. Ninguém sabia, nem ela mesma, de quem havia herdado a boca torta, os olhos arregalados e aquele nariz enorme. Bela fora deixada na porta de um asilo com dias de nascida. Mas se a herança havia sido cruel, no que tocava ao físico, uma enorme compensação se dava em todo resto. Bela era extremamente inteligente, sensível e corajosa. Mas nem isto ajudou para que alguma família a quisesse adotar. Tão feia ninguém a queria. Devorou ávida de saber, os poucos livros que havia no asilo e, lido o último, resolveu fugir. Pra onde nem sabia. Mas pelo que havia lido pressentia que lá fora outro mundo havia, onde pessoas viviam aventuras emocionantes.

Não foram fáceis os primeiros dias. Passou fome! Até que aportou naquela casa, tão bonita, onde além do prato de comida lhe deram trabalho. Ajudante da cozinheira não tinha que aparecer; como arrumadeira só se fazia presente nos belos salões quando a família ainda dormia. E foi assim que entre as cortinas viu Marcelo pela primeira vez. E Bela caiu-se de amores. Amor impossível, bem sabia. Mesmo assim dava um sentido a sua vidinha tão sem esperança. Bela quase não dormia. A patroa havia permitido que tomasse emprestados os livros da enorme biblioteca da casa. Livros que devorava à noite em seu quartinho. E foi assim que Bela se tornou uma pessoa que sabia das coisas. Tivesse oportunidade não faria vergonha em qualquer lugar. Mas esta oportunidade nunca iria existir, pensava ela, que se contentava em vigiar cada movimento de Marcelo.

Aproveitava as idas à feira para obter informações sobre ele. Soube que era órfão e muito rico. Morava sozinho naquela mansão. Chegou a rir quando lhe disseram que era formado em medicina e fazia residência em cirurgia plástica. Parece piada, pensou: eu tão feia e ele fabricante de beleza!  Através das grades do jardim, às escondidas, acariciava o cãozinho Peteleco que ele adorava e com o qual às vezes o via brincar. Tocá-lo era como tocar em Marcelo e isto a emocionava. Bela não se enganava nem se envolvia num sonho como se verdadeiro pudesse vir a ser. Sabia que o impossível era impossível e contentava-se em amar à distância e que ainda que esta distância fosse apenas o outro lado da rua, seria para sempre intransponível. 

Mas a vida é mesmo imprevisível. Os patrões resolvem mudar para São Paulo e, feita a mudança, a deixam tomando conta da casa até que o comprador dela tomasse posse. Ela iria para São Paulo tão logo isto ocorresse. E, nesta folga inesperada, Bela resolve ir passear na Lagoa. Foi assim que a bala perdida da perseguição policial lhe destruiu o rosto. Ao acordar no Pronto Socorro, depois de operada, vê vários médicos ao lado da cama. Marcelo é um deles! Ele está sorrindo ao escutar o que lhe diz um colega: desta vez você se superou! Incrível o que conseguiu fazer. Marcelo curva-se sobre ela: como é seu nome? Hesitante ela responde: não sei!

Condoídos todos se dão conta que ela não sabe quem é, não sabe de onde vem, não sabe nada. A memória se foi, levada pela bala. Sem documentos, na bolsa apenas o dinheiro da passagem, ninguém procura por ela. Marcelo envaidecido de seu trabalho dá a Bela uma atenção muito maior do que a necessária. Outras operações seriam necessárias para arrematar a obra. Aos poucos Marcelo se encanta com o mistério da origem, a inteligência, a cultura. Passam horas conversando. E, como nos contos de fada, o amor que, fazia tempo, havia desabrochado em Bela, encontra o caminho para o coração de Marcelo.


E vem o dia em que Bela, ao retirar definitivamente as ataduras que lhe envolviam o rosto, se vê maravilhada, verdadeiramente Bela. Irreconhecível. Nada impede agora um futuro para aquela que não tem passado. No dia em que tem alta, pelos braços de Marcelo, é conduzida à mansão que vigiava através das cortinas. Peteleco corre para saudá-los e ela grita: Peteleco! Marcelo assombrado pergunta: Como é que você sabe o nome dele?  Por alguns segundos o coração de Bela dá uma cambalhota. Mas ela se recompõe, sorri: você me falou dele! Não se lembra, meu bem?! Marcelo ri: não! Vai ver amnésia pega! E ela: pois eu me lembro. E é minha única lembrança. Mas daqui pra frente terei muitas.          

sábado, março 01, 2014

É O DESTINO

A moça se tornara uma obsessão. Aos amigos parecia uma maluquice. Apaixonar-se por alguém havia visto durante apenas alguns minutos! Naquela fila de espera, no aeroporto, haviam trocado poucas palavras. Mas o sorriso, a voz, os olhos brejeiros, o deixaram louco. Marquito pediu, implorou mesmo, o endereço, o telefone, qualquer informação que pudesse garantir um novo encontro quando então ele a pediria em casamento, com certeza. E ela, rindo, respondeu: quem sabe um dia vamos nos encontrar de novo... por acaso... Acredito no destino, sabe?  Aí então... E sem alternativa, ele passou a acreditar também.

Um nome... apenas um nome – Violeta. Naquele tempo ainda era jovem, muito jovem e agora já não era tanto. Durante anos Marquito esgotou todos os recursos na busca de Violeta. Os pais se foram desta vida, preocupados com ele.  Em conchavo com os amigos haviam tentado encontrar alguém que substituísse a amada idealizada. Impossível! Ele nem mesmo olhava as moças que lhe eram apresentadas. Estas bem que se encantavam pela beleza e pela posição invejável de que ele desfrutava. À medida que os anos passavam Marquito foi se tornando um homem triste. Em desespero, nas noites mal dormidas, a imaginava casada, feliz, com filhos que não dele. E sofria. Sofria pra valer. A voz, o sorriso e os olhos brejeiros o acompanhavam onde quer que fosse.


Desistiu do carro. Lembrava-se do destino de que ela falara. Seria mais fácil encontrá-la, no por acaso, em meio aos passantes. Em sua loucura, às vezes, parecia vê-la entre a multidão. E ele corria a seu encontro. Mas nunca era ela. Guardava em sua memória cada traço de seu rosto. Lindo, tão lindo. Rindo, sempre rindo. Um dia pensou: rindo de mim! E ficou ainda mais triste.

Em sua loucura contratou um pintor capaz de reproduzir um retrato falado. Passou meses a seu lado em requintando na busca dos mínimos detalhes, das mais sutis nuances de cores. Até que na tela surgiu, em todo seu esplendor, a amada. E ele pediu ao pintor que a reproduzisse em muitas telas que passaram a povoar as paredes de seu belo apartamento para espanto de todos que nele entravam. Os amigos (e ele os tinha muitos) não mais falavam em terapias, viagens e possíveis substitutas. Resolveram embarcar na loucura. Referiam-se à Violeta como se a conhecessem e como se, a qualquer momento, fosse entrar pela porta. Não mais se afligiam quando em meio a uma conversa, ele emudecia, olhando para um dos muitos retratos de Violeta, refugiando-se num mundo mágico onde só a moça era admitida. Quando isto acontecia, eles saiam de mansinho, sem se despedir, deixando-o só. Sabiam que esta contemplação poderia durar horas.

Um dia lhe falaram de uma cartomante capaz dos mais extraordinários feitos. E a esperança renasceu.  E não sem razão! Maravilhado Marquito a escutou afirmar que iria encontrar Violeta, num acaso, como ela havia previsto. E mais: ela não estava casada! Nunca esteve! As cartas diziam que ela o havia esperado, também. E o encontro estava próximo. Era preciso ficar atento, muito atento, sem qualquer distração, porque iam literalmente se esbarrar na rua. Ao andar pelas calçadas, em busca incessante, deveria esquecer-se de qualquer imagem que não fosse a de Violeta. E ele não parou mais de andar.

Um dia acordou com a sensação de “É Hoje”! Radiante esmerou-se no vestir e no barbear-se e saiu. Ao sair de casa parecia que alguma coisa guiava seus passos. Ia decidido como se soubesse para onde. Ao aproximar-se de uma esquina seu coração bateu mais forte. Ali vou atravessar e ela vai estar do outro lado! Tinha certeza. Já próximo da esquina pára, olhando-se num espelho disposto em uma vitrine. Confere a imagem: será que ela vai me reconhecer? Sorri para si mesmo fazendo render a emoção de que estava preso. Neste exato momento, Violeta dobra a esquina. Prepara-se para atravessar a rua quando esbarra num homem deixando cair embrulhos que trazia. Curvam-se os dois para apanhá-los, rindo e desculpando-se ao mesmo tempo.


O homem está visivelmente encantado com a voz, o sorriso e os olhos brejeiros. Os dois se dão conta de que o sinal já está piscando e, correndo juntos e ainda rindo, atravessam a rua. Neste exato momento Marquito deixa o espelho e se dirige para esquina aguardando, emocionado e esperançoso, a abertura do sinal. Já longe Violeta responde ao homem que lhe faz uma pergunta: é o destino, quem sabe?   

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

QUEM AMA O FEIO...


            Só namoro homens bonitos” dizia Cremilda. Bonita que só ela jamais havia encontrado dificuldade em manter esta máxima que mais era uma promessa.  Até que surgiu Jacinto. Feio que só ele. Um susto mesmo! O aceitar o convite para dançar no baile de formatura da Rosa foi assim como uma caridade. Surpreendeu-se pensando “como ele dança bem!” enquanto girava em seus braços. Pouco falaram. Ele disse o nome; ela disse o dela e ficou por ai.

Depois o viu dançando com Soninha que ria muito de alguma coisa que ele havia dito. Isto a perturbou: com ela não havia falado praticamente nada. Coisa esquisita. Curiosa perguntou à Soninha: “quem é?” Ficou no espanto da resposta: “é um sujeito incrível. Divertidíssimo. Marcamos um cinema amanhã". Aquilo, sabe-se lá por que, a incomodou. Jacinto não havia demonstrado o menor interesse por ela.

Dias depois, na praia, Jacinto aparece na barraca acompanhando Soninha e, num à vontade incrível, enturmou-se de estalo. Encantador parecia ter sempre pertencido ao grupo que o aceitou de imediato. Fora um “como vai?” distraído e sorridente, não lhe dirigiu palavra. Isto a deixou embasbacada. Havia-se habituado a ser o alvo das atenções dos rapazes e a aparente indiferença de Jacinto era desagradável. Inexplicável mesmo. A coisa piorou quando ele pediu emprestada a prancha de surf do Pedro... e deu um show! Soninha encantada com o sucesso de Jacinto, deitou falação: “ele morou muito tempo na costa oeste dos Estados Unidos. Fez universidade lá”.  Não resistiu e perguntou à Soninha: “você tá ficando com ele?” Ela sorriu e não respondeu. “Vai ver tem vergonha de dizer”, ela pensou, “ele é tão feio”.

A tarde já ia caindo quando a turma saiu da praia combinando o encontro para mais tarde à noite. Ai ela não agüentou e perguntou: “você vai?” E não entendeu porque ficou decepcionada com a resposta: “não vai dar...” Naquela noite a reunião da turma no bar de sempre foi uma droga. Jacinto não saia de sua cabeça.  Insistiu com Soninha: “você está ou não está ficando com ele?” Ela riu e respondeu: “bem que eu queria. Ele é o máximo. Mas acho que tem alguém na jogada”. E ela, contrariando sua máxima resolveu: ia procurar se aproximar dele. Mas não contava com o sumiço. Porque ele sumiu, evaporou-se! Atacou Soninha de perguntas. E ela ou fez-se de desentendida ou não sabia mesmo onde ele andava. Fato é que nem o número de telefone foi conseguido.

E Jacinto virou uma obsessão. Já nem dormia direito e, quando dormia, sonhava com ele, feio daquele jeito, sobre as ondas, surfando. Um dia, saindo da Faculdade o viu de longe, na direção de um carro estacionado bem em frente.  O coração parou e ela dirigiu-se para o carro disposta a abordá-lo... e ele engrenou uma primeira e partiu sem perceber sua presença.  Ficou ali tremendo, quase chorando. Podia aquilo? A partir daí todos os dias deixava-se ficar sentada na escadaria da Faculdade, por horas a fio, na esperança de que ele reaparecesse. E nada. Ficou triste, muito triste. Tão triste que pensou até em não ir à festa que Soninha dava todo fim de ano e que era um estouro. Soninha escandalizou-se: “só faltava mais esta! Tem que ir! Qual é!”

E ela fez das tripas coração e lá se foi sem mesmo caprichar no visual. Deixou-se ficar na varanda, olhando mar que ele dominava tão bem. De repente uma voz a acorda do sonho: “como vai?” e ela foi às nuvens. Era ele! Sorrindo para ela. Sem dizer palavra ele a pega pela mão e saem dançando. Ali mesmo na varanda onde se deixaram ficar por horas. Foi tão estranho. Parecia que sempre haviam se falado. As palavras vieram soltas, sem censura, verdadeiras. Foi bom. Foi tão bom. Quando à meia noite foram chamados para cantar o parabéns pra você, entraram na sala de mãos dadas como se estas sempre estivessem estado unidas. Viram o dia amanhecer juntos, muito juntos.


Dias depois ela achou que deveria apresentá-lo aos pais. Afinal o namoro estava firme e até faziam planos para o futuro. E ele veio, convidado para um almoço. Com sempre encantou a todos. Houve somente um pequeno incidente. Quando ele se foi ela encheu os pais de perguntas. Queria, precisava muito saber o que haviam achado.  Radiante ouviu dos pais e do irmão os comentários mais que favoráveis. Até o momento em que a mãe incauta declarou: “pena que é tão feio!”. Furiosa, agressiva até, ela responde aos gritos para espanto de todos: “Feio?! Ele?! Pois fiquem sabendo que Jacinto é um gato!” 

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

FATAL ERRO DE JULGAMENTO

           Rosalinda e Peter formam um lindo casal. Por onde passam olhares acompanham com admiração as deslumbrantes figuras que se rivalizavam em beleza. Difícil dizer qual dos dois o mais bonito. Ela, negra brasileira de olhos verdes; ele, sueco de cabelos louros e olhos azuis. São tão bonitos que nem os mais preconceituosos ousariam condenar a formação do casal que se complementa em tudo. Até na maneira de ser: Rosalinda é expansiva, risonha, comunicativa e fala pelos cotovelos; Peter doce, calmo e calado. Muito calado. Até mesmo com a mulher pouco fala. Seu amor, do qual ela não tem a menor dúvida, revela-se através de gestos carinhosos e olhares apaixonados que demonstram o deslumbramento que a mulher lhe causa. Ao invés de falar prefere ouvir as confidências de Rosalinda. Estas são, quase sempre, sobre o sonho e o desejo que mantém desde criança: atuar em um filme.

O mutismo de Peter, estranhamente, não ocorre quando fala ao telefone! Nestas ocasiões ele é capaz de falar longamente. Nunca se soube por que razão é assim. Mas o fato é que é e sempre que necessário um maior tempo de discurso liga para a mulher e deita falação. Isto não incomoda Rosalinda que até vê certo charme nestas comunicações telefônicas. Em todos os anos de casados apenas um pequeno senão havia balançado as certezas de Rosalinda sobre o marido: um comentário inusitado que ele havia feito sobre Amanda, a mulher de um amigo. Peter surpreendera a todos ao comentar os lindos cabelos da moça. Um absurdo para quem nunca, mas nunca mesmo, emite qualquer opinião sobre alguém. Rosalinda sentiu um aperto no coração. Os cabelos da amiga eram lisos e lhe caiam pelos ombros num movimento leve, delicado, suave. Os cabelos de Rosalinda, cuidadosamente tratados, também são lindos formando uma perfeita moldura para seu rosto, mas não são lisos e muito menos longos. Ao contrário formam um capacete negro que fazem com que Antunes, o profissional que deles cuida semanalmente, se dirija a ela como “rainha etíope”. O elogio nunca surtiu efeito.


Rosalinda guarda dentro de si um desencanto: o marido não gosta de seus cabelos e desejaria que os tivesse diferentes. Jamais ousou perguntar. Uma das maiores qualidades de Peter é uma extraordinária sinceridade. Vai que ele confirma suas desconfianças? Seria insuportável saber a verdade; ouvi-la de seus lábios. Vai daí que ela guarda esta mágoa em silêncio. Ontem, Peter ao acordar comunica que um amigo de infância, um grande amigo, está no Rio de Janeiro e ele o havia convidado para jantar no dia seguinte. Pede então a ela que se prepare em sua melhor forma e, horror dos horrores, sugere que vá ao salão para arrumar os cabelos. Coração sangrando Rosalinda marca hora para o dia seguinte.

E é uma Rosalinda destroçada que entra no salão de Antunes. Olhando-se ao espelho ela toma coragem e decide: pede a Antunes que providencie um perfeito alisamento em seus cabelos colocando apliques que os torne longos, muito longos. Em vão Antunes tenta demovê-la deste propósito. De todas as suas freguesas Rosalinda é a que mais lhe causa orgulho. Em vão: Rosalinda exige. E é um Antunes triste que se desincumbe da tarefa de eliminar o volume majestoso da cabeça de sua mais querida freguesa. Obra terminada Rosalinda pensa o quanto Peter ficará orgulhoso de exibi-la ao amigo. Finalmente o único senão que havia entre eles havia sido eliminado.


Neste momento o celular toca. Ela sorri: é Peter que, com certeza, precisa comunicar alguma coisa que merece uma falação mais longa. Vai ver quer discutir sobre qual restaurante merece a ida de um sueco recém chegado ao Brasil. E Peter começa a falar excitado. Não vai conseguir guardar o segredo até a noite. Precisa contar a verdade. Seu amigo, um cineasta sueco, procurava uma negra brasileira belíssima para protagonizar seu próximo filme. E Peter pensou: mais bela que minha Rosa Linda impossível. Então ele havia enviado fotos dela e o amigo havia enlouquecido. Estava vindo ao Brasil para conhecê-la e, certamente, contratá-la. Peter comenta: você é exatamente o que ele havia sonhado. Ficou maravilhado com seus cabelos!!! E completa o horror: como eu, meu amor, são lindos! Em desespero Rosalinda olha sua imagem no espelho.  

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

O ROSTO DESEJADO

Maria do Socorro escondida no quarto chora em silêncio. Choro manso de muitos anos. Em seu ateliê Maurício pinta mais um retrato. As telas encomendadas por noivos, maridos e pais revelam belos rostos que a atormentam. Nunca, nunca mesmo, o marido a quis retratar. E isto dói! Um dia, ficou arrasada com a pergunta que lhe fizeram: ele não pintou  um retrato seu? Antes que pudesse responder Maurício adiantou-se como se a pergunta fosse a ele dirigida: pra quê?  Ele me acha feia, ela pensou, e felizmente não esclareceu o “pra quê”. E então veio o medo de que um dia ele, distraído, verbalizasse toda a verdade.

No casamento de muitos anos Maurício era de pouco falar. Vivia lá pra dentro de si mesmo, pensando sabe-se lá o quê. Às vezes o pegava olhando para ela com uma expressão estranha. Um dia tomou coragem e quis saber a razão daquele olhar mudo. Vai ver significava a comparação de seu rosto com todos aqueles outros. Tão lindos. E ela feia, tão feia. Mas apenas riu. Ele era assim. Nunca dizia nada. A paixão com que ele a possuía nas noites, muitas noites, era por ela entendida como o desejo provocado pela beleza daquelas moças. É isto. Ele as deseja. E como não as pode ter as recria em meu corpo. 

Passou a odiar as telas. Era um alívio quando as via sair porta afora levadas pelos noivos, maridos e pais. Menos uma, pensava. Mas não adiantava porque surgiam outras e outras. Resolveu não entrar mais no ateliê.  Era insuportável a visão do que era criado pela paixão, pelo desejo do marido. Sofria ao ver a volúpia com que o pincel e a espátula – extensões de suas mãos – acariciavam a tela onde os rostos pareciam  mais vivos do que os modelos. As moças – tão belas -  não representavam uma ameaça. Iriam desaparecer nos braços de seus pais, maridos e noivos. Mas as imagens na tela, estas não. Pertenciam a Maurício, para sempre. Ficariam gravadas em sua imaginação de criador.

Naquele dia o sofrimento se fez maior: todos os fantasmas que a atormentavam seriam expostos e ela deveria acompanhá-lo ao coquetel de abertura do evento. Tentou desculpar-se. Melhor seria não ir. Inventou um motivo tolo que provocou em Maurício aquele olhar mudo e esquisito.  Seria um suplício vê-las num conjunto ameaçador e, o que seria pior, ser vista por Maurício e por todos, numa comparação cruel. No espelho, o rosto coberto de lágrimas não ajudou. Feia! Sou feia! Sabe-se lá porque de repente se viu possuída por um sentimento novo. Raiva. Era raiva, sim, o que sentia. Pela primeira vez resolve partir para o ataque.

Enxuga as lágrimas e sai à procura da beleza que tanto lhe falta. Volta horas depois com um enorme embrulho. De novo em frente ao espelho olha esperançosa a profusão de produtos de maquilagem que vão garantir o milagre da beleza.  Frenética começa a obra. Mas nada parece dar certo. A ideal da beleza vai ficando cada vez mais distante. A depressão e a tristeza tão suas conhecidas de novo se instalam e as lágrimas voltam aos olhos borrando mais ainda a obra imperfeita que suas mãos inábeis criam ao manejar as sombras, as bases, os lápis, os batons.


E é nesta desolação que escuta a voz de Maurício: vem. Já estamos atrasados. Derrotada, ela pensa: desisto!  Um dia teria que acontecer. Nem se preocupa em lavar o rosto. Abre a porta e se revela a Maurício: sou feia, não sou? Diz! Fala. Mais uma vez aquele olhar estranho e mudo. Para sua surpresa ele a pega pela mão e delicadamente a faz sentar-se frente ao espelho. Com enorme carinho começa a modelar seu rosto. Por suas mãos mágicas os cremes, as sombras e os batons realizam o milagre da beleza. E ela é a tela. Maravilhada, vê surgir no espelho a imagem de uma mulher bela. Maurício já terminou a obra, mas estranhamente não parece surpreso com sua criação. Seu olhar é o olhar de sempre. Aquele que ela não entende. Aquele do qual tem medo. E ela suplica: não me olhe assim. Por uma noite você esqueça que sou feia. Você conseguiu. Todos que lá estiverem  me verão bela. E é deslumbrada que escuta a revelação na voz do marido, que se faz doce, tão doce: É!  É isto eu que eu mais temia. Eu sempre te soube linda. Mas te queria só pra mim! Se eu te transpusesse para tela, as outras, todas as outras, se veriam feias.