domingo, novembro 17, 2013

POR OUVIR DIZER

O advento da Internet quase eliminou a locução de frases iniciadas com “dizem que...” Estas eram ditas no passado em tom alarmista ou confidencial para revelar fatos absurdos ou de natureza inconfessável. Hoje, estes são divulgados no espaço cibernético. Assim ficamos sabendo que o recém assassinado Osama Bin Laden pretendia explodir o Cristo Redentor; que ao ligar para o número 9963-0009 teremos o telefone clonado; que a caixa do leite longa vida é responsável pela re-pasteurização do leite; e que a prata pode sugar toda energia vital de um ser humano.

No meu entender a origem destas loucuras deve ocorrer da mesma forma que ocorria para os “dizem que...”: nem sempre maldosa, nem sempre inventada. Possivelmente surgem porque alguém não se apercebeu onde o galo cantava e saiu espalhando a torto e a direito sem qualquer censura. Digo isto porque fui testemunha do surgimento de uma dessas lendas extraordinárias, no caso envolvendo a vida pessoal de um casal amigo.

Morávamos em casas vizinhas, em Salvador, na Praia de Ondina. Coincidentemente tinham eles um casal de filhos da mesma idade dos meus. O convívio diário e a ausência de família por perto fez com que nos tornássemos muito íntimos. Os dois meninos, filhos mais velhos, também se tornaram os melhores amigos. O mesmo aconteceu com as duas meninas mais moças. Frequentavam a mesma escola e no tempo livre transitavam entre as duas casas como se ambas lhes pertencessem. Nós, os pais, também nos tornamos comuns às crianças para efeito de permissões e proibições. Foi assim que não me assustei quando a menina entra em prantos no meu quarto e se atira no meu colo chorando. Alguma desavença na certa. Não estava eu preparada para o que estava por vir e num primeiro momento emudeci no espanto.

Soluçando ela me declarou que queria vir morar comigo e ser minha filha porque acabara de saber que o irmão não era filho de seu pai! Aos prantos ela me dizia que a mãe havia declarado que Alexandre – o irmão – era filho do Felipe (um capitão aviador que morava poucas casa adiante). Recobrando do espanto procurei elucidar a história. Disse-me ela que o pai e a mãe estavam discutindo e que quando a mãe disse que Alexandre era filho do Felipe, o pai rindo (!!!) disse que Alexandre era filho do Leônidas (!!!). Este, o Leônidas, era um oficial há pouco transferido para outra Base Aérea.

O horror tomou conta de mim. Como é que se discute uma barbaridade destas em frente a uma criança? Era obvio que a menina não poderia ter inventado isto. Tinha apenas oito anos. Impossível arquitetar tal monstruosidade. Levei algum tempo para me recompor e era evidente que alguma coisa tinha que ser feita. Meu primeiro cuidado foi me certificar de que ninguém mais havia escutado a tal discussão. Infelizmente, segundo a menina, a empregada e o jardineiro também haviam sido testemunhas do fato. O irmão, felizmente, estava em minha casa no momento do ocorrido. Procurei consolar a menina dizendo que podia ficar comigo o tempo que quisesse, mas que devia ter uma explicação para o que ela tinha escutado e que eu iria a sua casa para elucidar melhor esta história.

Apavorada, eu não via alternativa senão a de comunicar ao casal que a filha havia escutado as terríveis revelações e que não queria mais vê-los. Reuni o pouco de coragem que ainda me restava e marchei para a casa vizinha. Encontro o casal na sala, ele lendo e ela costurando: uma cena de família feliz. Minha revolta estava a ponto de explodir. Os sorrisos a mim dirigidos morreram quando eu declarei que estava ali para um assunto muito sério e extremamente constrangedor.

Começo o meu relato e antes que o pudesse terminar os dois são tomados por um ataque de riso incontrolável. Ataque este que também me acometeu quando me contaram que estavam discutindo sobre quem seria o pai de Alexandre o Grande: ela dizia ser Felipe da Macedônia e ele dizia que era Leônidas de Esparta. Corro a minha casa para sossegar a menina e durante muito tempo ainda riamos do episódio.

Pois bem, anos depois, eu já desligada da FAB, encontro com um casal que também morava em Salvador na época em que esta história sucedeu. Como sempre acontece nestes encontros, perguntas se cruzam buscando saber informações sobre o paradeiro dos outros casais que moravam na vizinhança. E chegado ao casal da história, num tom ultra confidencial, a mulher declara: dizem que o filho mais velho era filho de outro oficial! Você sabe de quem se trata? Você deve saber já que eram muito amigos.

A este casal eu pude contar a versão correta, mas sei lá eu se me acreditaram. A verdade, muitas vezes parece menos verossímil que o “dizem que...” Mas, ainda que tenham acreditado, seria impossível esclarecer a todos que haviam sido alvo da inconfidência do jardineiro ou da empregada. Da mesma forma que na Internet a coisa provavelmente havia se espalhado enxovalhando para todo sempre a história matrimonial de pelo menos três casais. Só espero que não tenha chegado aos ouvidos das senhoras de Leônidas e Felipe!

2011

sábado, novembro 16, 2013

MAL ESTAR CIDADÃO

É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam o poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida”.

          Esta frase abre o genial livro O Mal Estar da Civilização, escrito por Freud em 1920.  Passados quase cem anos, nos quais extraordinários progressos e descobertas ocorreram em todas as áreas de conhecimento, é espantoso que o ser humano não tenha evoluído quando a esta “impressão” que atormentava o mestre naquela época. Impressão tenho eu de que nada mudou. Poder, sucesso e riqueza ainda são os responsáveis por comportamentos esquecidos e divorciados do que tem verdadeiramente valor na vida. A simples leitura de um único exemplar de qualquer jornal, em qualquer dia, evidencia, à saciedade, os efeitos desta busca por elementos tão ilusórios em sua importância. Muitas são as explicações do fenômeno fornecidas por Freud. Mas não é delas que desejo falar.

A lembrança das lições de meu muito querido professor de filosofia - David Perez – quando afirmava que “tudo tem a ver com tudo”, faz com que eu parta para consultar outro livro – um dicionário – onde busco o significado da palavra “cidadão”. A esta altura os que me lêem podem se surpreender: será que ela não sabe o que é cidadão? Eu sabia. Mas o fato de não mais encontrar esta entidade andando por aqui me faz desconfiar que o conceito mudou ou desapareceu mesmo. Vejamos: Indivíduo no gozo dos direitos civis e político de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com ele. Nossa! Não mudou, não! Mas se na primeira parte da definição incluem-se todos os brasileiros (embora este “gozo” seja muito mal distribuído) o papel mencionado na segunda é protagonizado por poucos. É triste, mas verdadeiramente poucos são os brasileiros, sejam eles colocados no alto ou na base da pirâmide, que cumprem com os seus deveres civis e políticos.  

A postura do “venha a mim” é a mais comum. E ficam verdadeiramente espantados, e muitas vezes injuriados, quando se lhes atribui o descalabro que por aqui grassa. Com honrosas exceções o “dever cívico” limita-se exclusivamente ao ato votar de dois em dois anos. E mesmo este ato é por muitos ignorado. Os crescentes percentuais de abstenção atestam isto. Para os que votam a escolha de candidatos raramente merece a análise da atuação pregressa do candidato ou das  qualificações de que são dotados para a posição que postulam.

A maioria dos eleitores têm dificuldade em recordar, passado algum tempo, em quem votou para vereador ou deputado, seja este estadual ou federal e, quando se lembram jamais lhes ocorre acompanhar a atuação destes no desempenho do mandato para verificar se mereceram seu voto e mais do que isto, para cobrar as promessas feitas. Quando o voto é para Presidente a omissão é ainda mais grave. Os Programas apresentados pelos partidos raramente são lidos. E quando o são cobranças não são feitas pelo não cumprimento.

Passados dez anos da eleição do Presidente Lula para o primeiro mandato, a relação de propósitos e intenções não cumpridos é impressionante. Só como exemplo: a reforma tributária (um vasto capitulo no Programa!) jamais foi sequer esboçada. Inúmeros outros exemplos poderiam ser dados. E me espanta a grande quantidade de pessoas que critica a pessoa de Lula e não a situação em que nos encontramos não lhes ocorrendo que poderiam ter tentado uma mudança ao votar no segundo mandato ou agir numa cobrança objetiva.

A divulgação pela mídia sobre a torrente de escândalos (ou mal feitos como os rotula nossa Presidente) só tem o poder de torná-los mais indignados. Nenhum de fazê-los agir. Fica-se no discurso e não na ação de uma efetiva, objetiva e inteligente cobrança. Este discurso tem se mostrado especialmente enlouquecido, ultimamente, quando aplicado ao Mensalão. Seja contra ou a favor. Parece-me, por vezes, uma guerra santa movida por “crenças” de uma fé religiosa, cada lado defendendo dogmas e não fatos objetivos. Os réus para os da situação são entidades santas, sem jaça e martirizadas; para oposição, demônios do mal que deveriam ser condenados às profundezas do inferno. Agem todos como torcidas organizadas em final de campeonato.

A seriedade e a significância deste julgamento, que são notáveis, não estão levando a uma reflexão cidadã: onde foi que erramos? Como deixamos chegar a este ponto? De um lado alguns partidos prestam solidariedade a criminosos que pertencem a seus quadros; de outro, partidos manifestam a indignação de não serem todos os réus condenados às penas máximas. Mas não vejo qualquer deles preocupados em mudar o que realmente precisa ser mudado. E, para coroar existem os “cidadãos” omissos (os que dizem “no mundo inteiro é assim”) e que deixam de votar porque o dia da eleição coincide com um feriadão e o apelo das praias e serras é mais forte ou, ainda, por que “detestam política” como se esta não lhes dissesse respeito.

E por descaso, omissão, não participação, somos obrigados a, entre outros absurdos, assistir ao sorriso vitorioso de um Maluf (aqui colocado como nome próprio e adjetivo), na posse do prefeito eleito pelo PT, partido que tinha por bandeira o repudio veemente a homens como Maluf!! É tão triste isto.   

2012

sexta-feira, novembro 15, 2013

ADEUS ADOLESCÊNCIA

Tinha apenas treze anos, aparentava quinze e dizia ter dezoito. Naquele ano de 1943 a guerra se fazia presente em Fortaleza para onde havia a família se transferido por um trabalho do Pai. O cinema americano ainda não havia entrado com toda sua força naquelas paragens. Assim, eram as atrizes francesas os seus modelos. Delas imitava os maneirismos e, dentro do possível e das limitações impostas pela Mãe, a maneira de vestir.

Hoje, passados tantos anos, ainda tem na boca o gosto do sorvete que tomava na Praça do Ferreira, na saída do colégio, naquele dia glorioso, enquanto esperava o motorista do pai que iria levá-la para casa. Era de caju! Foi ai que Ele entrou. Lindo de morrer aparentava uns vinte anos. Hoje, na lembrança, foi conferir na internet. O Google informa: tinha vinte anos, sim. Naquele dia Ele entrou e olhou para ela, olhou mesmo. Mais que isto, e maravilhosamente, falou: você não é daqui, é?  Mesmo com o coração tendo parado de bater ela conseguiu responder com a voz mais sedutora que pode encontrar: sou do Rio. Ele sorriu: eu também!  

E foi assim. Os céus conspiraram para que tudo desse certo e o motorista atrasou. Deu tempo para saber que ele era tenente aviador e que ali estava, em treinamento, esperando o embarque para o Rio. De lá seguiria para o Panamá onde completaria o treinamento. Depois seria a guerra! O carro chegou e ela ofereceu uma carona para uma república onde morava, na Praia de Iracema. Ela morava mais adiante, numa chácara, a caminho de Mucuripe. Marcaram praia para o dia seguinte, um sábado. Dentro de uma semana ele iria embora. Não importava. Uma semana como aquela seria uma eternidade. A semana teve apenas três dias: duas praias e um sorvete. Não, ela informou, não dava pra sair de noite.  Ele sorriu: você é tão criança! Ela nem se importou com o comentário. Criança ou não, ele disse que iria escrever. Imagina! Uma carta! Uma não! Muitas. Estas muitas se tornaram apenas três: duas do Rio e uma do Panamá. Depois nada.

No final do ano voltaram todos para Rio. Pelos jornais e pelo rádio ela da vivia o romance tendo agora como cenário a Itália onde o Senta a Pua, já estava em ação. Esperava a cada notícia ouvir o nome dele, heroico, abatendo aviões alemães. A família, sobretudo o Pai, acompanhava e respeitava o romance de maneira muda, mas perceptível. Não falavam, mas sorriam. Num dia glorioso soube pelos jornais que ele pertencia a Esquadrilha Vermelha, sediada em Tarquínia na Itália.  Procurou no mapa. Procurou na enciclopédia. Ficava no Lácio. Bem informada pode situá-lo melhor.

Nos cinemas, naquela época, os filmes eram precedidos por jornais que divulgavam notícias da guerra. Num destes acompanhou comovida as operações do 1º. Grupo de Aviação de Caça a que ele pertencia. Pensou tê-lo visto, de longe. Gastou toda a mesada vendo o filme três vezes. E chegou o ano de 1945, em que completaria os quinze anos agora de fato parecendo os dezoito que afirmava ter. Este ano anunciava o fim da guerra. Ele havia dito na terceira carta: quando voltar procuro você e vou achar, onde estiver. Fazia-se próxima esta procura, fazia-se próximo o encontro. Vivia pra isto. Imaginava o que iria ocorrer em todos os detalhes. Quem sabe ele avisaria antes e ela poderia ver a aterrissagem gloriosa no comando de um Thunderbolt, aquele mesmo em que heroicamente havia lutado. Ele poria o pé em terra e correria para ela tomando-a nos braços.

Naquela manhã de janeiro, acordou feliz. Os aliados haviam avançado mais ainda. Estava próximo, muito próximo, o fim da separação. Sentia-se tão radiosa que chegaram a comentar no colégio: parece que viu passarinho verde! A noite postou-se ao lado do rádio, junto ao Pai, para ouvir as notícias da BBC. E sobre ela desabou aquela que em momento algum havia sido imaginada possível: ele havia sido abatido numa missão. Estava morto. O coração parou mesmo. De repente sentiu frio. O que era estranho naquele calor escaldante do verão.

Correu para o quarto. Meteu-se na cama, cobriu a cabeça com os lençóis.  Irmão entrou: vem jantar. Comer? Como? A Mãe veio atrás, insistindo: vem. O Pai comandou a saída de todos, olhando sério para ela: não precisa jantar. Não precisa nada! Se quiser conversar me procura. Ela levantou os olhos secos e perguntou: por que, Papai? Ele respondeu com tristeza, muita tristeza: não tem resposta pra isto, meu bem. Mas tem sua vida que continua. Agora não dá pra você pensar assim. Mas vai acontecer. Garanto. Ela não entendeu nada. Apenas percebeu que ele sabia, como sempre, o que ela estava sentindo.

Não o procurou para conversar como sempre fazia. Pra que? Pois se ele havia dito “não tem resposta”. Foi a primeira vez que a resposta não veio, amparando confortando.  Até aquele dia ele sempre havia dado uma. E ela ficou ali, sem chorar, sentindo que a vida havia mudado. Em quê? Isto ela não sabia, não. Só iria saber muito mais tarde quando a lembrança voltasse nítida, clara, como cenas de um filme antigo do qual se gostou muito e se gostaria rever. E quando isto acontecesse, percebia agora, daquele filme não existiriam cópias.

2011

quinta-feira, novembro 14, 2013

DELÍCIAS BAIANAS

Não estou, como pode parecer, me referindo aos prazeres da mesa baiana, embora a palavra “delícia” os descreva com justiça. Delícia aqui se refere aos seis anos de moradia naquela bendita terra. Não foram seis anos ininterruptos. Quis a Força Aérea Brasileira por lá aportássemos duas vezes: por dois anos na primeira estadia e por quatro na segunda.

Meu primeiro contato com esta santa terra deu-se em Paulo Afonso. No que era uma aventura em 1953, meu marido e eu, decidimos ir de carro em demanda ao novo posto. De Natal a Salvador era um estirão daqueles. Em estradas não pavimentadas e mais das vezes desertas. Postos de gasolina e restaurantes eram raros no percurso. Transitando mesmo só caminhões e foi um deles que nos introduziu no tão gostoso modo de ser baiano.

Quase chegando a Paulo Afonso nossa possante caminhonete Renault Juvaquatre morreu. Assim de repente e sem aviso. Minutos depois aparece um caminhão e dele desce um negro com um dos mais belos sorrisos que já vi e do qual até hoje me recordo. Por obra e graça de Januário, assim chamava-se o salvador, fomos rebocados até a cidade onde ele nos indicou um mecânico para o reparo necessário.

Na boleia, até Paulo Afonso a conversa corria solta. E foi assim que recebemos o convite para um arrasta-pé que ocorreria naquela noite organizado por caminhoneiros. Além de tentador, o inusitado convite foi acrescido de argumento mais do que razoável para justificar nossa presença: “o amigo aqui vai ter que ceder a dama. Lá carece muito da presença delas. Mas tudo com respeito”. E foi assim que a dama (eu) bailou sem cessar. Nunca fui tão requisitada em minha vida. Januário, tomando-me nos braços numa distância que atestava o “tudo com respeito” declarou-me que eu era a mulher mais “perfumosa” do mundo acrescentando que se sua mulher tivesse este perfume ele enlouqueceria. O mínimo que poderia fazer, e fiz, foi agraciá-lo com o que restava do vidro de água de colônia Vetiver, quando nos levou ao hotel, findo o baile. Disse-nos que jamais nos esqueceria. Espero que isto tenha ocorrido porque daqui me lembro dele com encanto.

De novo na estrada fomos surpreendidos por encontrar meio ao deserto agreste um hotel faraônico em Caldas de Cipó. Soubemos que havia sido inaugurado um ano antes por Getúlio Vargas. Um espanto arquitetônico que nos recebeu com a maior gentileza apesar da poeira que cobria nossas roupas nada adequadas ao local. Foi uma benção o banho e o jantar que compensaram, e muito, o olhar de espanto dos demais hospede paramentados como era exigido pelo luxo e pompa do local. Dali até Salvador seriam cerca de 200 quilômetros o que naquela estrada tão precária era muito. Mas restaurados pelo luxo, resolvemos percorrê-los num só dia.

Chegamos a Salvador, mais precisamente à Ondina, onde se situava a casa a nós cedida pela Aeronáutica, à noite e exaustos. No dia seguinte meu marido deveria apresentar-se à Base e coube a mim ir à cidade para comprar uma bateria já que a de nossa caminhonete estava agonizante. Não tendo a mínima ideia de onde poderia encontrá-la sigo, bastante desorientada, pela orla e no Farol da Barra me deparo com um guarda de trânsito. Pergunto onde poderia comprar uma bateria. Outro sorriso baiano da maior simpatia me saúda. E como resposta veio uma extraordinária instrução: a dona vai por ali até chegar no Campo Grande e de lá pela a Avenida Sete de Setembro vai até onde tá um cruzeiro que tem uma escadinha. Sobe nela e grita assim: que é do Milton? Daí que o Milton vem e ”le" arranja a bateria na horinha mesmo.

Apesar do absurdo que me propunha havia pelo menos indicação de itinerário e por ai segui. Vai ver o Milton trabalhava em um comércio de baterias vizinho ao tal cruzeiro, com o qual me deparo enorme, plantado em cima de alguns degraus (a escadinha citada). Olho ao redor e nada vejo que se pareça com comercio de baterias. Alguns homens estavam sentados nos degraus. Sem deixar morrer o carro e recusando-me a bradar aos céus pelo Milton, pergunto certa de que seria tomada por maluca: vocês sabem onde posso encontrar o Milton? E o milagre se deu! Um dos homens sobe os degraus e grita: Milton! Tem freguês aqui. Alguns segundos depois surge outro sorriso baiano exibido por Milton, que emerge por trás do Cruzeiro. Um espanto: “o que é do Milton?” teria funcionado!

E mais um anjo negro vem a meu socorro resolvendo em minutos a compra da bateria, de quebra indicando a melhor baiana de acarajé da praça e ainda a cunhada – Cícera - para nos servir como cozinheira. Ela, filha de santo, nos alimentou maravilhosamente bem durante dois anos, levou-nos a conhecer as maravilhas do candomblé fazendo ainda um “trabalho” para que meu marido saísse ileso de qualquer acidente. E, acreditem ou não, pouco depois isto ocorreu quando o B-25 em que ele instruía um aluno espatifou-se na cabeceira da pista e ele saiu sem um arranhão!

Milton continuou a fazer parte de nossa vida nos anos que por lá aportei por que era também um faz-tudo. Por estas e outras escolhi aquela bela cidade para dar luz a meu filho mais moço, anos depois. Ainda hoje, quando as coisas não vão bem me fica a sensação que se eu estivesse na Bahia haveria um cruzeiro onde eu poderia subir e gritar: que é do Milton e tudo se resolveria! 

E, juro, no primeiro sorriso de meu filho baiano reconheci os de Milton, Januário e Cícera!

2012

quarta-feira, novembro 13, 2013

UM INCRÍVEL ÍNDICE

Drauzio Varella publica na Folha de São Paulo uma espantosa revelação: existe, calculado, um índice de felicidade tipo IDH medido por instituições sérias! Foi assim que fiquei sabendo que na faixa dos 62 anos os ucranianos são os indivíduos mais infelizes do mundo! Caramba! Nossa Presidente (ou Presidenta, como prefere) encontra-se perigosamente nesta faixa e, filha de pai búlgaro, tem avô ucraniano. Espero, para nosso bem, que a infelicidade avoenga não seja transmissível geneticamente ou que os búlgaros (não mencionados por Dráuzio Varella) sejam extremamente felizes anulando a perigosa ascendência ucraniana.

Afirma também o estudo que os suíços são portadores de uma infelicidade máxima aos 35 anos! Coitados! Uma idade tão simpática com toda esta desesperança. Mas como a esta altura de minha vida é pouco provável que me veja cercada de ucranianos de 62 anos ou de suíços de 35, que me levariam ao desespero e à tristeza, esta informação de pouco me serve. O espanto me vem das conclusões de análises feitas a partir dos índices encontrados, mundo afora.

Ao que parece na maioria dos países o bem estar emocional é excepcional até os dezoito anos. A partir daí começa a decrescer acentuando-se a queda depois dos trinta chegando a um nível catastrófico aos 46 quando volta a subir. Entre os 65 e 70 os níveis passam a se igualar aos da juventude. Quem sou eu para discordar da America’s General Social Survey ou do Instituto Gallup! Mas o fato é que não é este quadro que percebo aqui por nossas paragens brasileiras. Afirma também a pesquisa que os mais velhos são mais hábeis para resolver conflitos. Será? Que me perdoem meus pares, mas conheço um grande número de idosos que são verdadeiros especialistas em criá-los. Será que os brasileiros fogem à regra?

Diz Drauzio Varella que as conclusões estranhamente são as mesmas, seja para os Estados Unidos, seja para o Zimbábue e não fornece qualquer dado específico sobre o Brasil. Vai ver não foram colhidos sobre nossa terra. Quem sabe as instituições responsáveis pelo estudo, informadas que foram sobre a “alegria do povo brasileiro”, internacionalmente louvada a partir de imagens do carnaval, julgaram que por aqui haveria um enorme desvio e nos eliminaram da amostra. De qualquer modo o estudo, pelo menos do meu ponto de observação, não bate com o que vejo.

Acho mesmo impossível estratificar bem estar e felicidade por faixa etária. Com ou sem razão as pessoas são felizes ou infelizes em todas as idades. Ou melhor, as pessoas são capazes de momentos ou épocas de felicidades ou infelicidades em todas estas idades. O tempo todo ninguém é uma coisa ou outra embora alguns consigam manter uma infelicidade crônica que fabricam e carinhosamente cultivam a partir de qualquer ou nenhum motivo.

Conheci um homem talentoso, inteligente e bonito que era sempre muito infeliz. Quando, já aos cinqüenta anos esta infelicidade era contestada por nós, seus amigos, vinha a invariável e absurda resposta desolada: mas eu sou órfão! Órfão aos 50?! A verdade é que no todo-dia felicidade pode ser disparada por vários gatilhos e infelicidade idem. E, em qualquer idade, na maioria das vezes os gatilhos são acionados por acontecimentos comuns, corriqueiros.

Lembro-me da declaração radiante de meu filho mais velho, aos nove anos, ao chegar do colégio e ser derrubado e lambido efusivamente por seu cão boxer: isso é a coisa melhor do mundo! Ou de uma cozinheira que aqui trabalhou cujo sonho era ir a um shopping (comércio recém criado) e ter um vestido longo. E foram estes meus presentes naquele Natal. Na volta para casa repetia sem cessar: nunca fui tão feliz em minha vida. E olha que estava na idade de chegar ao fundo do poço segundo os índices mundiais. Muitos anos depois veio me visitar e declarou: foi o dia mais feliz de minha vida! Nunca vou esquecer!

Os ditados populares procuram inutilmente ensinar a receita do bem estar e da felicidade: o copo meio cheio meio vazio, os limões com os quais se pode fazer uma limonada, não há mal que sempre dure e por ai vai. Digo inútil porque tenho a impressão que algumas pessoas já nascem com a capacidade de aplicá-los as suas vidas mesmo sem ter deles conhecimento e outras não. É como ver beleza. Existem pessoas que não conseguem ver beleza no que quer que seja. Desviam os olhos de enormes brilhantes voltando a atenção para minúsculas jaças.

Há muitos anos atrás reunimos-nos, vários casais, na casa daquele que havia feito uma viagem lá pros lados da Polinésia. A reunião destinava-se a assistir a um filme da viagem. Preparamo-nos para os costumeiros comentários que ilustrariam a exibição: “nós em frente à...; nós em cima do...; nosso hotel. Nosso quarto era ali...”.  Mas, ao contrário, nos foi mostrada uma explosão de cores e formas dignas do pincel de Van Gogh. Impossível descrever. Assistíamos calados e maravilhados a uma avant première do Paraíso. E eis que quebra o silêncio, soturna, uma das mulheres presentes conhecida pelo negativismo e pelo português nem sempre correto: ai deve de ter muito mosquito. Imediatamente uma nuvem destes desagradáveis insetos nos invadiu. Ela conseguiu tirar de nós a felicidade da beleza.  E olha que nem estava na faixa etária da total ausência de bem estar!

Tenho pra mim que em todas as idades existem pessoas especializadas em alertar para a presença de mosquitos, tirando-nos o prazer de bons momentos. Para elas não existe inseticida que os elimine. E, infelizes como um suíço de 35 anos, têm como destino cruel passar uma vida coçando-se das picadas.
2011


terça-feira, novembro 12, 2013

PARTIDA DE UM AMIGO

Voltando da padaria vejo Ricardinho no pilotis. Ele parece me esperar. O rosto reflete uma seriedade diferente da que demonstra habitualmente. Há um quê de tristeza. O tom é de recriminação:

-  Você não tava em casa. Bati muito a campainha.
-  Fui à padaria. Mas agora já estou aqui. O que é que  você quer falar comigo de tão urgente?
-  Vamo na sua casa. Lá eu falo.

Intrigada, demando o elevador, seguida pelo menino. Sinto que será inútil qualquer pergunta. O assunto deve ser sério mesmo.  Mais uma surpresa ao entrar: Ricardinho se instala no sofá, coisa que nunca fez. Nossas conversas são sempre na mesa de jantar. Sento-me na poltrona em frente e aguardo. A declaração vem num tom agressivo. De ameaça, mesmo. 

-  ‘Tou indo embora, viu?
-  Para onde, Ricardinho?
- Meu pai vai trabalhar num trabalho em São Paulo.  Nunca mais eu volto. Você não vai me ver mais, viu?
-  Ah! Ricardinho, que pena!

Sinto que meti os pés pelas mãos: deveria dar o tom de “coisa boa”, mas não consigo. Não posso imaginar o pilotis, a vida mesmo, sem Ricardinho. Ele me olha ansioso.

- Você não quer que eu vá. Eu achei que você não ia querer mesmo.
- Não quero, não. Não quero mesmo. Vou sentir muita saudade de você.
-  Eu achava que ia. 

Esqueço da criança e me dirijo ao amigo.

-  Por que? Por que você achava?
-  Por que eu achava, ora!

Ricardinho abaixa a cabeça. Parece não querer me encarar e dispara:

-   Eu acho que você gosta de mim. 
- Muito. Gosto muito. Desde que você queria me  atropelar com velocípede. 

Um sorriso bonito aparece no rosto do menino.

-   Você lembra disso? Eu era muito pequeno.
-   Claro que me lembro. Lembro de tudo.
-   Tudo o quê?
-  De nossas conversas e de como você me explicou que Papai Noel existe e não existe. Foi muito legal aprender isto.
-   Você aprendeu coisa comigo?!
-   Muito. Aprendi muito com você.
-   É por isso que você gosta de mim?
-  Por isto e por muitas outras coisas. A gente nunca  sabe bem por que gosta das pessoas.
-  Você não tem vontade de morar em São Paulo?
-  Se eu não tivesse tanta gente por aqui de quem eu gosto acho que até me mudava para ficar perto de você.

Ricardinho ri. 

-   Você tá é pregando mentira.
-  Não estou não. Você é meu amigo. E um amigo é  coisa muito importante.
-   Você acha engraçado velho ser amigo de criança?
-   Não. Acho bonito. Você acha engraçado criança ser    amigo de uma velha?

Sério ele não responde. Depois de um enorme silêncio, diz:

-  Agora eu queria beber água de côco. Eu não vou mais beber com você quando eu “ir” para São Paulo. 

Em silêncio bebemos. Ricardinho se levanta solene e estende a mão.

-   Agora eu vou s’imbora.

Aperto a mão do menino. Nossa relação sempre se revestiu de certa formalidade. Acompanho a figurinha até o elevador. Já dentro, ele se volta para mim.

-   Eu acho bom ser amigo de velha.

A frase seguinte vem com algum esforço, a mão já apertando o botão para descer.

-   Eu nunca mais vou ter amiga velha.

E lá se vai pra sempre meu pequeno amigo. Vontade de rir e de chorar. Não me deu endereço, não me pediu o telefone, não disse que vai escrever. Sou uma página virada em sua vidinha. Sábio menino. Vai me fazer falta. Muita. Mas me resta o orgulho de ser a única amiga velha. 

2010



segunda-feira, novembro 11, 2013

SÉRIA DISCORDÂNCIA

Discordo muito de mim mesma. Mesmo sabendo que a relação eu/comigo será indissolúvel até o fim dos meus dias, não faço o menor esforço para ter um convívio mais tranqüilo. Algumas decisões são responsáveis por noites mal dormidas povoadas de discussões, por vezes acaloradas, nas quais meu comportamento é execrável. Culpo-me, sem dó nem piedade, por resultados funestos e meu eu, irônico e maldoso, não perdoa o insucesso. Cobro e cobro feio. Deselegante, mesmo. E sempre termino com a abjeta frase: se tivesse me ouvido... seguida do terrível eu não disse?!

E eis que agora chego a um impasse. Este “chego” não é figura de retórica, não. Aportei, ancorei, empaquei. Isto feito, aqui me encontro e para onde vou? Por que este “vou” é o motivo da séria discordância e está criando um clima bem desagradável. Dizem-me que é necessário adotar outro estilo de vida. Morar sozinha (parece) não é coisa prudente em minha idade. Pessoas insuspeitas começaram a alertar para o perigo que isto significa. Até o porteiro balançando a cabeça: a gente fica preocupada!  Quem é esta “gente”? A síndica, os outros moradores? Mas se mal os conheço!

Verdade que os vizinhos andam me olhando com estranheza. “Et pour cause! Vai ver estão preocupados com periódicos incidentes que ocorrem aqui em casa e para os quais não devem encontrar explicação. Ou melhor, certamente têm alguma que imagino terrível para minha reputação. São os ensaios para leituras de minhas peças teatrais, que ocorrem sempre à noite. A projetada voz dos atores atinge – creio - alguns apartamentos. E o teor dos diálogos certamente causa espanto e indignação, já que provavelmente os imaginam reais. Para piorar, no último ensaio, um dos personagens chamava-se Ana e demonstrava um comportamento pra lá de condenável que era evidenciado pelos termos nada elegantes com que se dirigiam a ela os demais. 

Mas voltando ao ponto de discordância a que cheguei: morar ou não morar sozinha? É preciso esclarecer que adoro esta condição. Dona e senhora de meus horários e de entradas e saídas, me regalo. Verdade que sempre monitorada via celular por filhos e até netas dotados de uma espantosa capacidade de descobrir que em casa não estou. Vozes severas e cobertas de censura repetem a frase de um texto ensaiado: onde é que você está?  Pelo tom percebe-se que me acham capaz de aportar a lugares proibidos e até mesmo inconfessáveis. 

 Provavelmente isto se deve ao fato de ter eu um dia comentado que gostaria de ir a um baile funk. Creio que é por lá que me imaginam, velha fogueteira, saracoteando adoidada! Pode?! Mas inquietações sobre meus paradeiros a parte, a discordância se estabeleceu furiosamente. Devo ou não morar sozinha? Várias pessoas já vaticinaram que se eu tiver um “treco” por aqui e sozinha não seria socorrida a tempo. Analisar prós e contras de nada vai me servir. Só consigo pensar nos contras! Parto para a discussão de alternativas como, por exemplo, tomar medidas que tornem o “morar sozinha” mais seguro: uma empregada e que durma no emprego, quem sabe? Imediatamente vem o “contra”: esta jamais acordaria se o “treco” se fizesse presente noite alta. Instalar uma campainha que soe direto na portaria para ser acionada em caso ocorrência de “treco”. Ouço a voz severa de amigos: e se o “treco” ocorrer fora do alcance da campainha? Colocar vários botões em espaços regulares em todos os cômodos e alturas. Perigosíssimo. Vou ficar conhecida como a Doida das Campainhas.

Mesmo por que o “treco” pode ser daqueles que impede qualquer movimento ou até mesmo lembrança de que campainha existe. Treinar os gatos para que se atirem pela janela em busca de socorro no momento em que seus desesperados miados solicitando carne moída não surtam o efeito desejado. Sei não! Acho que mais fácil seria convencê-los a procurar carne moída com o porteiro que também teria que ser treinado para partir em meu socorro tão logo alvo de miados desesperados e dramáticos. Mas esta é uma total impossibilidade. Gatos já nascem treinados para ações que só interessam a eles próprios e são impermeáveis a qualquer outro aprendizado. Agora mesmo Pandareco se encontra entre o teclado e a tela, inamovível, o que vai me valer mais um dos muitos torcicolos que causa.

Começo a entrar no delírio: imagino andar pela casa dia e noite portando à cintura uma pistola sinalizadora daquelas utilizadas pelos náufragos e que me permitirá sinalizar ao porteiro, à rua e ao bairro que um “treco” está em curso. Vai daí quem sabe? Tudo é válido para que retorne eu à paz sem culpa do morar sozinha. Por hoje, exausta, paro de discutir e preparo-me para gozar a liberdade de ir à Cobal para comprar o raio da carne moída de Pandareco e Marta.  

De repente, faz-se a luz ao me lembrar de uma declaração de minha mãe quando a exortei sobre a necessidade de contratar uma acompanhante que a atendesse, além do fiel staff há anos presente: Você está certa. Assim que eu ficar velha vou pensar nisto!  E ela tinha mais de noventa anos! Encantada, vejo dissolver-se a cruel discordância: ainda tenho algum tempo! E, com certeza, quem sai aos seus não degenera.
2008


domingo, novembro 10, 2013

REFORMA AGRÁRIA

Não vou entrar fundo no assunto que me é tão caro e ao qual dediquei uma vida de trabalho e dedico ainda meus anseios. Quero falar apenas de um aspecto que nunca vejo enfocado e que, a meu ver, é extremamente importante e, se resolvido poderia, quem sabe alavancar a tão falada, discutida e nunca bem entendida Reforma Agrária.

Apenas como curiosidade cito Tito Lívio (Historiador romano, 59 AC – 17DC):
“Foi então, pela primeira vez, promulgada a lei agrária que, desde aquela época até hoje, nunca mais foi discutida sem provocar as mais violentas comoções”.            

Já naquela época! Mas se ainda hoje provoca emoções e comoções, estas não vêem aliadas a um conhecimento pleno do que é Reforma Agrária. Nem mesmo nossa Presidente sabe exatamente do que se trata confundindo a palavra Agrária com Agrícola, o que é o mesmo que confundir Geografia com Geometria, só porque têm a mesma raiz. Nos últimos dias, como elemento de uma prematura campanha eleitoral que se inicia, lembrou-se ela desta importante reforma esquecida nos mais de dez anos do Governo do PT. Salvo exceção feita a uma rápida menção às desapropriações (estas, sim, medidas de Reforma Agrária), todas as demais que disse pretender tomar são relativas a desenvolvimento agrícola e não á Reforma Agrária!  A mistura dos alhos com os bugalhos demonstrou seu desconhecimento do assunto.  

É lamentável que dentre seus assessores, tão bem remunerados, não exista um só que possa esclarecer a esta senhora o que é Reforma Agrária. Mas o mais grave é que se ela não sabe, muito menos o sabe a sociedade civil presa a mesma confusão entre Agrária e Agrícola.

          Reforma Agrária é, sobretudo, a redistribuição de renda de que nosso País tanto carece e da qual tanto se fala em discursos vazios e palavrórios empolados. Reforma Agrária promove esta redistribuição pela criação ampliação de mercado produtor e, o que é mais importante, de um mercado consumidor que quase inexiste no interior do País. Ou seja, promove o surgimento de uma classe média rural. É espantoso que o País (e neste conceito compreendidos todos os poderes, em todos os níveis, e sociedade civil) não se dê conta de que em todos os países em que se empreendeu a Reforma Agrária foi conseqüente e quase imediato um enorme desenvolvimento. Ganham todos.

Mas, infelizmente a sociedade urbana não se toca e é esta que mal ou bem exige e consegue a realização de reformas. Quando a sociedade urbana não se toca, qualquer mudança torna-se difícil. O meio rural não tem voz ou vez. Por sociedade urbana estou entendendo o conjunto de homens e mulheres que habitam e sempre habitaram as cidades e para as quais o campo é uma imagem bucólica de vaquinhas pastando. E, por “não se toca”, entendo o não perceber que é imperioso que empunhe esta bandeira que poderá lhes garantir fartura, segurança e prosperidade. Os homem e mulheres da cidade serão tão beneficiados ou até mais que os homens e mulheres do campo. Mas não sabem disto. Mesmo porque ninguém lhes diz com clareza.

Ninguém lhes conta, por exemplo, que não podemos resolver problemas nacionais cuidando apenas de algumas estruturas do Estado, pois urge uma solução orgânica para estes problemas. E Reforma Agrária mexe com todas as estruturas: estruturas industrial, agropecuária, de transportes, de comunicações, bancária, de transformação e distribuição de energia, comercial, de recursos humanos, de segurança, de recursos naturais, de reservas indígenas e que mais sei eu.

Dessas considerações vem outro aspecto que quero enfocar: Reforma Agrária é conjuntural e emergencial. Sua realização não pode e não deve ficar a cargo de organismo de linha que cuide dos assuntos da estrutura normal. Está muito acima disto e tem a ver com tudo e com todos. Como é que um ministério com a mesma hierarquia dos outros poderá promover a Reforma Agrária? Que força, que autoridade, que prioridade terá sobre outros ministérios que, obrigatoriamente (e é o único jeito), devem seguir diretrizes, obedecer a planos e ações, destinar verbas e que mais sei eu, para atingir o objetivo comum que é Reforma Agrária?

Reforma Agrária é excepcional e como tal tem que ser tratada. Realizada esta não mais é necessário um organismo que a empreenda. Caberá aos organismos da estrutura normal do Estado levar adiante, no cotidiano, os planos que garantam sua sobrevivência. Um organismo com poder político e, sobretudo, com uma “hierarquia de idéias” deveria existir acima dos ministérios para orquestrar esta tão necessária Reforma. E pasmem! Existiu! Era o IBRA, autarquia especial ligada diretamente à Presidência de República. Um quase natimorto. Tudo que pôde realizar foi o primeiro cadastro rural necessário para que se conhecesse a então inteiramente desconhecida estrutura agrária brasileira. Impossível fazer planos sem este conhecimento. O resultado deste cadastro foi uma enorme surpresa (mais isto já é outra e longa historia).

Mas esta surpresa veio acompanhada de outra: a extinção do órgão e sua transformação em INCRA (onde os ditos alhos juntaram-se aos bugalhos), uma simples autarquia subordinada ao Ministério da Agricultura e posteriormente ao Ministério de Desenvolvimento Agrário! Daí pra cá força política é coisa que Reforma Agrária não tem. Só como ilustração e para talvez espanto dos que, estranhamente, nos tempos atuais ainda vêem o comunismo atrás de todas as portas, cito abaixo o segundo artigo do Estatuto da Terra - tão desconhecido – uma das mais belas Leis que já teve este País ainda que muito mutilada desde o seu nascedouro e não adequada com propriedade às modificações ocorridas no meio rural desde sua promulgação. O negrito das palavras “condicionada” e “simultaneamente”, é meu. Incrível o que determina, não é? E, o que é mais interessante: está em vigor! 
                                                                                                                                                  
Art. 2º É assegurada a todos a oportunidade de acesso à propriedade da terra, condicionada pela sua função social, na forma prevista nesta Lei.
§ 1º A propriedade da terra desempenha integralmente a sua função social quando, simultaneamente:
a) favorece o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores que nela labutam, assim como de suas famílias;
b) mantém níveis satisfatórios de produtividade;
c)  assegura a conservação dos recursos naturais;
d) observa as disposições legais que regulam as justas relações de trabalho entre os que a possuem e a cultivem.

Tive oportunidade de conhecer de perto vários acampamentos de movimentos de sem terra (incluídos estes nos “todos” que têm direito terra no artigo citado) que em vão esperam que esta Lei seja cumprida. E ai outra desinformação: o MST não é o único movimento. Existe quase uma centena de outros tão atuantes quanto. Infelizmente só este merece destaque da mídia não por sua ação meritória mas por alguns excessos que comete. De fato eventualmente os comete como ocorre com todos os grupos organizados que precisam chamar atenção para si quando todos lhes viram o rosto. É claro e óbvio que excessos devem ser coibidos. Mas não a luta e as manifestações pelos direitos que tem. Não é assim com os estudantes? Com professores? Os sindicatos de qualquer categoria? Mas a memória que tenho é dos movimentos de sem terra é outra, não registrada pela mídia.


Outro dia, agradavelmente surpreendida, li no Facebook uma bela carta de uma estudante de direito da PUC-RJ – Blanca Moraes – postada pelo jurista Adriano Pilatti. Não conheço Blanca, nem Adriano Pilatti, mas se esta crônica chegar até eles gostaria que soubessem o quanto me foi grato ler o depoimento sobre um assentamento. E, sobretudo o quanto é importante que depoimentos como este sejam feitos. O que ela relata mais que merece ser divulgado. E muito mais ainda poderia ser dito: a plantação que se inicia no dia seguinte à instalação de um acampamento e que têm a mesma prioridade das barracas; as medidas de recuperação ambiental que tomam, até intuitivamente, para garantir para filhos e netos alguma coisa que não vão ver em vida; a instalação imediata da barraca-escola ou da matrícula das crianças na cidade mais perto; as aulas de preservação da natureza e por ai vai. Neste espaço não caberiam as ações mais que meritórias que desempenham. Fui privilegiada em conhecer de perto esta realidade como observadora envergonhada pela injustiça social neste País. 

sábado, novembro 09, 2013

COMO DAR FIM A UMA REUNIÃO DE DIRETORIA

É injusto! Profundamente injusto! O atribuir à avançada idade as peripécias em que me meto, sabe Deus por quê. É absurdo! Sempre foi assim. Desde que me entendo por gente, episódios similares, antecedentes e consequentes, à queda do Ministro, ocorrem com certa freqüência. Na mais tenra idade eram descartados com um sorriso complacente pelos adultos da família com a frase: coisa de criança. Deviam ter prestado mais atenção, os adultos. Quem sabe, atacado a tempo, o mal teria sido eliminado de minha vida, poupando-me, sobretudo, poupando a outros, o envolvimento em situações pra lá de constrangedoras.

O relato que fiz na crônica do episódio da queda do Ministro havia me dado certo alívio. O colocar no papel, isto é na tela, exorcizou, sublimou o fato. Veio-me a sensação de estar dele me livrando. Vai daí que pensei: vamos ver se funciona com outros e, quem sabe, é este o medicamento para este mal, nos últimos tempos atribuído à demência senil. Vai daí que resolvi contar, senão todos, pelo menos os mais significativos. Decido: por discrição vou eliminar os nomes reais. Afinal as pessoas objeto de meu descompasso no comportamento social já sofreram muito. Pra que acrescentar? Tenho sido perdoada, mas é bom não exagerar.

A empresa estatal era outra, diversa daquela do Ministro. Mas eu era, como naquela ocasião, relativamente graduada no ranking do corpo gerencial. Convocada para uma reunião de chefias com o novo Diretor da área sentei-me ao lado de meu grande amigo (inacreditavelmente ainda o é, depois do ocorrido). Era uma reunião pra lá de séria. Todas as divisões, na pessoa de seus chefes e substitutos, haviam sido convocadas para decidir estratégias de sobrevivência. O faturamento estava caindo! Cada chefia era conclamada a analisar a situação dos serviços que vinha prestando e a razão da não ampliação do mercado atendido.

Meu pai não admitia orelhas furadas. Não! Não se trata de uma radical mudança de assunto. Tem tudo a ver. Dizia ele – papai – que era coisa de índio. Nunca proibiu, mas eu, morrendo de vontade de furar, não furava (fui fazê-lo muito depois de sua morte, já com netas). Afinal ele sempre tivera razão. Devia estar certo. Mas o não furar causava certo desconforto. Os brincos de pressão, depois de algum tempo de uso contínuo, causavam a paralisação da circulação no lóbulo da orelha, e isto chegava a ser doloroso. E era o que estava acontecendo em plena reunião.

Discretamente, tirei o brinco esquerdo na intenção de massagear vigorosamente o lóbulo da orelha, restabelecendo a circulação, único remédio para o mal. Tão logo pousei o brinco sobre a mesa para levar a mão à orelha, o Diretor dirigiu-me uma pergunta direta. Deve ter sido este o fato gerador do que se seguiu. Comecei a responder ao mesmo tempo em que massageava o lóbulo da orelha. Uma sensação estranha se instalou: não estava melhorando. Para falar a verdade nem mesmo estava sentido a massagem. Desta vez está bravo, pensei, enquanto respondia. 

Mas alguma coisa muito esquisita estava acontecendo. Meu discurso provocava um estranho efeito: todos, incluindo o diretor, olhavam em minha direção como se estivessem presenciando algo de inacreditável. Surpreendi-me: havia me preparado para a reunião e até tinha argumentos válidos e – acreditava – inteligentes.  Mas não a ponto de provocar tanto espanto. O silêncio havia se instalado e nem uma só voz se levantava para refutar ou concordar com o que eu dizia, como havia acontecido nas manifestações que antecederam à minha. Alguma coisa está errada, pensei. Discretamente voltei-me para o amigo ao lado. Quem sabe através do olhar dele, tão meu conhecido e, portanto, revelador poderia ter uma dica do que estava ocorrendo. Ao fazer isto, ainda pensei: esta orelha vai cair! Está absolutamente insensível! Morreu!

O rosto do amigo estava rubro e ele olhava para frente, duro, imobilizado numa expressão de pânico! Que estranho! Volto mais a cabeça e... todo o horror se revelou! Minha mão estava massageando o lóbulo da orelha, dele!!! Isto explicava a insensibilidade de minha própria orelha, explicava o espanto dos circunstantes, explicava o constrangimento do amigo. Mas nada, nada no mundo, poderia explicar o descontrole direcional da massagem. Dei um grito que foi saudado por um ataque de riso generalizado. O Diretor, sufocado de riso, resolveu fazer um intervalo e pediu uma rodada de café. Impossível retomar o clima de seriedade naquele momento. Desculpei-me com o amigo que, baixinho, mandou-me um palavrão, seguido de um murmúrio raivoso: depois a gente conversa!

O café começa a ser servido e o colega da direita oferece-me uma caixinha com sacarina ou coisa equivalente: aquelas pílulas minúsculas que se usavam à época. Aceito agradecida e... coloco duas delas delicadamente sobre a língua e viro o café de um gole, engolindo-as e dando término à reunião que não mais conseguiu retornar ao rumo, porque foram todos acometidos de um “fou-rire” incontrolável.

2005