domingo, outubro 20, 2013

POR QUE EU GOSTO DE ABIU?

Em pleno século 21, leio na Folha de São Paulo, numa pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, que 58% dos brasileiros consideram homossexualidade um pecado e 29% a consideram uma doença! Eu tinha dez anos e ainda me lembro do espanto que fiquei diante da pergunta feita por papai a mim: por que você gosta de abiu? Ele sempre pronto a me esclarecer sobre qualquer dúvida estava respondendo a uma pergunta minha com outra, sem pé nem cabeça.

Eu adorava acompanhar a conversa dos adultos durante as refeições. Era tudo incrivelmente fascinante e eu ansiava pelo dia em que também seria capaz falar como eles. Nem sempre entendia o que diziam e isto me obrigava a pedir esclarecimentos a Papai. Em segredo, é claro, para que não se dessem conta de minha ignorância. Naquele dia não foi diferente. Falavam sobre um homem que eu não conhecia quando um tio referiu-se a esta pessoa como “efeminado”. Eu nunca havia escutado a palavra muito menos sabia o sentido.

Terminado o almoço corri para papai: o que é efeminado? E foi ai que, absurdamente, ele me perguntou: por que você gosta de abiu? Lembro-me que apenas disse um sei lá. Porque gosto, ora! Mas o que eu quero saber é... E ele me cortou: eu sei o que você quer saber e o seu gostar tanto de abiu tem tudo a ver com isto. Não existe outro jeito de contar esta história sem reproduzir o diálogo, ainda intacto em minha memória:

-      Você nasceu com alguma coisa dentro que faz você gostar de abiu. Outras pessoas não. Diga lá: todo mundo gosta de abiu? 
-      Tem gente que não. Lá no Rio (estávamos no sítio, em Miguel Pereira) tem gente que nem sabe que existe. Você mesmo não gosta!
-  Pois é. Não são todas as pessoas que conhecem e gostam de abiu. Será que isso é errado ou faz você uma pessoa diferente porque gosta? 
-  Que maluquice é essa, Papai! Mas tem uma amiga me acha diferente porque eu não gosto de maçã. A Gerusa!
-   E você se acha diferente?
-  Sei não! Todo mundo gosta de maçã. Vai ver eu sou diferente, né? 
-  E é mesmo, mas não errada. Efeminado é um homem diferente que nasce gostando de namorar homens ao invés de mulheres. Existem também mulheres que nascem gostando de mulheres ao invés de gostar de homens. Do mesmo modo que você gosta de abiu e não gosta de maçã.    
-  Mas isto é mais esquisito que não gostar de maçã, Papai!
- Aprenda a usar as palavras certas, mocinha! Já expliquei a você que o sentido das palavras é muito importante. Não é esquisito, coisa nenhuma. Só não é comum a todos. 
-  E por que eu nunca vi um homem assim? Nem mulher.  
-  Pensa você. Claro que já viu. Mas eles ou elas não gostam muito de mostrar isto porque tem gente que acha esquisito, como você mesma falou agora, viu? Ninguém gosta que os outros digam que são esquisitos, mesmo quando não são, você não acha?  
-  Não acho, não. Eu tô pouco ligando se a Gerusa achar que eu sou esquisita porque não gosto de maçã.  
-  Ah! Ai é que está o problema. Maçã não é ligada a sexo, minha filha. Lembra que já expliquei isto a você? A maioria das pessoas mete os pés pelas mãos quando falam de sexo. Acham um assunto complicado, proibido, mas você já sabe que não é.   
-  Ah, sei! Você já falou que sexo é sério, bonito e importante pra gente. Não é pra fazer gracinhas. Você disse que eu conheço gente efeminado. Quem é?   
- Conhece e gosta muito: Oscar Wilde. Você adorou ler O Príncipe Feliz. É lindo não é? E tem aquela amiga de Papai que deu a você a sela francesa que ela usava quando montava. Ela é casada com aquela moça que vem sempre aqui com ela. E são muito felizes há anos. E muitos outros, mas não importa. O importante é se um dia você souber que alguma pessoa é assim, trata de não fazer gracinhas, como você disse, tá? Acho que “gracinha” não deve ter sido a palavra que eu usei quando conversamos. Mas o sentido é este mesmo. Mas nós vamos conversar ainda muito sobre estas pessoas. E tem uma coisa, filha, mais importante ainda: todo mundo é diferente! Se fossemos todos iguais esta vida seria um horror.


Isto se passou há exatamente há mais de 70 anos! Pelas conversas esclarecedoras que se seguiram, aspectos históricos, científicos, morais, culturais, éticos e religiosos foram adaptados aos meus ouvidos de criança. E me vi livre do preconceito. Mas não do preconceito dirigido a mim. Fui na infância e adolescência várias vezes marginalizada por “saber e falar o que não devia”. Com tristeza, percebo que a pergunta que por vezes me fazem (como é que uma senhora de sua idade pode pensar assim?) poderia ser formulada por 58% dos brasileiros! É espantoso e triste perceber que o extraordinário avanço da filosofia, da ciência e da tecnologia que ocorreu nestes mais de 70 anos, em nada contribuiu para tornar o homem mais esclarecido, não é? Caramba!

sábado, outubro 19, 2013

REFLEXÃO SURGIDA DA INTERMAÇÃO


Dou-me conta de que, no meu em torno, existem vários seres humanos tipo “um de cada”. Uma única filha, um único filho, um único irmão, uma única cunhada, uma única sobrinha e um único sobrinho. Esta unicidade tem lá suas vantagens: podem ser todos meus preferidos já que não há concorrência de similar. Mas será que são só eles os únicos? Dou uma revisada nas netas, estas sim, plurais. São três. Mas não é que são únicas! Impossível compará-las. Completamente diferentes uma da outra.

Volto um olhar crítico para os amigos, estes em maior número, embora para coleção de uma vida inteira possa parecer pouco já que do tipo incondicional são treze ao todo. Número cabalístico, né? Analiso um por um. É.. são únicos também. Uma salada de personalidades. Nenhuma coincidência no modo de ser e de pensar, no comportamento, na crença e sei eu lá o que mais. Diferentes entre si e totalmente diferentes de mim.

Amplio o campo de observação e percebo que todas as pessoas que conheço são únicas! Não estou me referindo aos aspectos físicos. Estes nunca me pareceram importantes. Que mentira, Anna Maria! Na adolescência isto era importantíssimo. Qual é a explicação para ter namorado aquele colega do científico deslumbrantemente lindo e extraordinariamente chato? Ora, foi uma única escorregadela e ele era lindo demais!

Esta lembrança do Apolo de antanho, me faz analisar a categoria dos chatos. Será que também são únicos? Pelo efeito que causam inegavelmente são similares. Mas a similitude é só no efeito, não neles próprios. Aqueles a quem conheço são portadores de uma chatice única lá deles. Vai do erudito citador que memoriza e cita incessantes frases ditas por personalidades que vão de Confúcio a MV Bill até o que só consegue contar uma história, seja qual for, iniciando por um prólogo monumental e daí perde o rumo fazendo com que ambos (ele que conta e você que desgraçadamente escuta) esqueçam completamente do que tratava a narrativa original.

 Volto-me para um nível mais sério e percebo que “o duplo” de que fala Freud, e que todos temos, é completamente diferente de cada um de nós. O duplo sempre se apresenta totalmente diverso do original que o esconde. Não tive o prazer (ou quem sabe o desprazer) de conhecer meu duplo. Confesso que tenho uma enorme curiosidade em conhecê-lo. Se isto um dia ocorrer sei que vamos nos desentender já que, mesmo sem duplo, discordo de mim mesma com certa freqüência. Com maior intensidade e quem sabe até com violência, pois é certo que este – cruel - vai evidenciar traços de personalidade que eu gostaria de esconder.

Pensando bem o duplo até que poderia resolver alguns problemas: quem sabe pessoas desagradáveis, chatas e inviáveis seriam mais palatáveis se o duplo assumisse o dia-a-dia? Será que os terapeutas, que tentam fazer vir à tona os duplos para depois eliminá-los, poderiam realizar esta proeza às avessas? Ou seja, implantar o duplo eliminando o original. Surpresas agradáveis poderiam ocorrer, gerando comentários: depois que o duplo dele assumiu tornou-se interessantíssimo, ou ainda, você já esteve com o duplo dela? Incrível! Irreconhecível! É... nem pela existência do duplo se escapa de ser único.

Crio um neologismo para substantivar a descoberta da unicidade: ”serúnico”. Não tem um som bonito, é verdade, mas descreve perfeitamente esta condição dos seres humanos. Somos todos, efetivamente, “serúnicos”! Alguns mais serúnicos que outros, é verdade, apresentando personalidades para lá de interessantes; outros mais modestos, até um tanto sem graça. Mas um sem graça único! A consciência de ser “serúnico” pode envaidecer a todos. Afinal cada um é raridade. Esta constatação poderá jogar a auto-estima na estratosfera, quem sabe? Um “serúnico”, justificadamente, pode orgulhar-se de ser quem é, já que ninguém a si mesmo se igualaria.

Releio o que escrevi até aqui e me assusto: será que o calor absurdo a que estou sendo submetida neste dia escaldante está me levando ao delírio? É bem possível. Mas não deixa de ser um sonho. Mal conformado, mas ainda assim um sonho. E sonhar é indispensável à vida.

Tranquilizada pela quase certeza de não estar enlouquecendo procuro aplicações práticas para minha tese e volto o olhar para o cenário político administrativo deste País, povoado de inúmeros “serúnicos” de péssimo nível. E eis que se apresenta uma solução passível de ser adotada para melhorar a qualidade. Associações de terapeutas poderiam promover um mutirão gigantesco destinado a fazer vir à tona o duplo de “serúnicos” nos Três Poderes, promovendo o desaparecimento dos originais quando estes, avaliado por parâmetros éticos e morais, fossem de má qualidade, substituindo-os pelos ditos duplos.

A revelação do duplo seria então uma obrigatoriedade para candidatura ou indicação para qualquer cargo público. Um procedimento tipo Ficha Limpa da Personalidade. Mesmo que através de alguma liminar ou decisão do STF os originais obtivessem o direito de sobreviver (tudo é possível no Egrégio), seus duplos, uma vez revelados publicamente, seriam atuantes conjuntos. Como conseqüência, nos dias aprazados para votações, a urna eletrônica nos ofereceria a opção de votar num ou noutro.
2011

sexta-feira, outubro 18, 2013

PRAZERES

Tinha eu doze anos e o “frequentar” da biblioteca de meu pai, que era enorme, havia repentinamente sofrido um “upgrade”. O ingresso no Colégio Bennett, havia dois anos, possibilitava agora o acesso aos livros editados em inglês. Em minha primeira garimpagem encontrei um livrinho cujo título me chamou a atenção: Memoirs of a woman of pleasure. Embora possivelmente eu já soubesse a qual “pleasure” a “woman” se entregava, lembro-me perfeitamente que não foi este o motivo de minha seleção. A dificuldade que poderia se apresentar pela novidade do idioma exigia um livro de poucas páginas.

E foi assim que mergulhei nas aventuras de Fanny Hill, de quem nunca mais esqueci. Minha família fora de esquadro, sobretudo meu pai, era muito econômica em proibições e leituras nunca me foram censuradas. Uma das raras proibições era dormir tarde em dias de semana já que o acordar se dava às seis horas para estar no colégio às oito. Vai daí que na noite em que me apoderei do livrinho tive que construir a tenda destinada a impossibilitar a percepção de luz em meu quarto. O abajur era transportado para baixo da cama que era cercada de cobertas até o chão. Munida de travesseiros eu me espremia naquela caverna para ler até altas horas. Foi assim que devorei as memórias da prostituta londrina. Um mundo novo se abriu.

No dia seguinte comentei com meu pai a descoberta. Ele sorriu: é seu primeiro contato com erotismo. Pode ser emocionante, sim. Mas existem livros melhores. Pegou-me pela mão e levou-me à biblioteca tirando de uma das estantes O Amante de Lady Chatterley que me entregou num convite: leia!

Estas duas leituras foram motivo para longas conversas com Papai em que aprendi a grande distância entre erotismo e pornografia. Foram também responsáveis por meu primeiro contato com preconceito. Pais de amigas minhas ficaram horrorizados de me saber leitora de tais “porcarias”. Isto mesmo: esta palavra foi verbalizada, escandalizando-me. Até hoje me felicito por ter não ter sido filha daqueles pais. Muito mais ainda agradeço por ter sido filha dos meus porque entre muitas outras coisas me ensinaram a ter prazer, a buscá-lo. A leitura de Fanny Hill foi um dos maiores. Mas inúmeros outros a ela se somaram.

Detesto “não gostar” de alguma coisa. Sinto-me lesada, quando impossibilitada da fruição de prazeres que vejo em outras pessoas. Um dos prazeres que foi me negado, sei lá eu por que, é cerveja. Morro de inveja quando numa mesa vejo todos se regalando e eu sem gostar. Como é bom ter tanto pra gostar. Cavalos, minha grande paixão; futebol minha torcida até hoje pelo Fluminense; um barco ao cair da tarde descendo o Rio Jaguaribe em João Pessoa, com um homem proa com um sax tocando (mal) o Bolero de Ravel; Tambor de Criola batendo num São Luis histórico; trabalhar e muito numa vida profissional com sentido, tendo feito alguma diferença e sendo reconhecida; subir o Rio Amazonas; a Belém Brasília em construção, num jeep; hospedar-me num bordel numa pequena cidade por ausência de pensão ou hotel; roda de samba em casa de Candeia (que saudade); grupo de analistas de sistemas enlouquecidos, num quarto de hotel de Fortaleza, tentando ver quem resolvia primeiro um teste de lógica, madrugada adentro, ao invés de dormir para enfrentar a loucura do trabalho no dia seguinte; este mesmo grupo decidindo que era melhor eu acompanhá-los ao La Licorne (!!!), na Major Sertório, do que ficar sozinha no hotel em São Paulo; conhecer e muito todo este Brasil tão lindo; conversa, muita conversa com brasileiros tão especiais; teatro, música, cinema, comidas; morar numa cidade pequena como Pirassununga; passeios a cavalo ao luar com um bando de adolescentes que se conheciam desde sempre sendo instados a cantar aos berros pelo adulto que os chaperoneava (anos depois soubemos que isto era comandando para impedir beijos de longa duração); ser levada escondida num avião caça de treinamento por um marido sem juízo e quase adolescente para brincar de pular coqueiros em voo rasante nas lindas praias do litoral nordestino; violão e Caymmi na Lagoa do Abaeté; é impossível enumerar tudo que têm um único rótulo: prazeres. Fui estimulada a tê-los na infância e adolescência.

Depois por auto estimulação, por curiosidade, o experimentar constante de coisas novas. Aprendi assim que o belo é para ser visto e que o interessante é para ser vivido. Ambos dando muito prazer. E concordo com Nelson Rodrigues quando diz: Na mulher interessante a beleza é secundária, irrelevante e até mesmo desnecessária. A beleza morre nos primeiros quinze dias, num insuportável tédio visual. Era preciso que alguém fosse de mulher em mulher anunciando: ser bonita não interessa, seja interessante!" Só que isto vale para homens também. Gosto de ver homens e mulheres bonitos  Assim como cavalos, cachorros, quadros, flores e paisagens. Mas para convívio só os interessantes dão prazer.

E ai entraram maridos e amigos. Coincidentemente alguns foram ou são bonitos mas o que me encantou e encanta neles é o interessante de que fala Nelson. John Cleland escreveu a história de Fanny Hill em 1748; mal sabia ele que quase duzentos anos depois uma adolescente dos trópicos ira se encantar com a descoberta do erotismo. A palavra prazer tornou-se plural ao longo da vida. E, todas as vezes em minhas estantes bato os olhos em Pablo Neruda afirmando Confesso que Vivi, pisco pra ele e digo: eu também!
2011


quinta-feira, outubro 17, 2013

CONFUSÕES HOTELEIRAS

Hoje em dia não são telefonemas que marcam a data.  A tripa de e-mails de amigos distantes e nem tanto me informam: dormi com uma idade e acordo com outra! Percorro os nomes sem abrir as mensagens que sei carregadas de verdadeiros e gostosos bons desejos. Como em todos os anos (e desde sei lá eu quando) uma me faz sorrir: a do pequeno hotel de Brasília onde, por mais de vinte anos, pairei em minhas constantes idas àquela cidade. Não me lembro quando por lá aportei a primeira vez e nem mesmo por que o escolhi. Provavelmente foi no desespero de encontrar vaga nos grandes hotéis, coisa quase impossível quando ocorre algum evento naquela cidade atraindo milhares de pessoas de outros estados. Mas o fato é que passou a ser o meu hotel. Mínimo, sem quaisquer mordomias tinha, no entanto, (e o mail me assegura que ainda tem) um staff extremamente simpático e acolhedor. 

Abro o mail sorrindo e o sorriso morre ao ler, em meio aos parabéns e bons votos, a terrível constatação de que por lá também serei sempre lembrada como “serial clumsy”:  ...saudades da hospede mais divertida que já passou por este hotel. E a dolorosa memória acorda: manhã de sexta feira os hóspedes se acotovelam no balcão tentando pagar a conta. Uma profusão de malas cobre o vestíbulo. Todos estão com pressa. Peço que guardem minha mala que será apanhada na ida para o aeroporto ao final da tarde. O mesmo faz o senhor ao meu lado. Finalmente consigo que me atendam e saio correndo para apanhar um táxi quando, já na porta uma mão segura meu braço. Com uma voz insegura e constrangida o senhor que estava ao meu lado no balcão declara: a senhora, por engano, pegou minha carteira. Indignada respondo: claro que não!  Do balcão vem a voz do gerente: D. Anna, eu acho que a senhora pegou, sim. Olha dentro da bolsa. Apavorada faço isto e lá está a carteira que eu jogo nas mãos do homem e sem pedir desculpas entro num táxi que já estava saindo com uma pessoa dentro. De novo sem me desculpar berro para o motorista, apavorando o freguês que já estava instalado: sai daqui, depressa! Como sempre acontece, quando apronto, passo dia entre horrorizada com o que fiz e aliviada de ter sido somente um incidente já que geralmente estes vêm em cadeia.

Ao final da tarde passo no hotel para pegar a mala. Da janela do táxi indico ao empregado do hotel: aquela ali e ele a coloca no banco da frente. Ao chegar ao aeroporto vou retirar a mala e horrorizada verifico não ser a minha. Peço ao motorista que volte ao hotel em disparada, levando aquela e trocando pela minha enquanto eu faço o “chek in”. Isto feito volto à entrada para esperar o raio da mala. Minutos depois lá vem o táxi com um passageiro: o homem de quem eu roubei a carteira e ao que tudo indica também a mala. Desmancho-me em desculpas diante do homem que sem falar me dirige olhares furiosos. Pego a minha mala e pago a dupla corrida. O motorista me informa: o homem tava que nem doido atrás da mala! 

Fico sabendo que o avião tem um atraso de 40 minutos e resolvo ir à livraria da UNB, sempre frequentada por mim. Pego um carrinho onde ponho a mala; melhor que ficar puxando aquela trolha. Passados em revista os novos lançamentos, resolvo ir fumar um cigarro lá fora. Encaminho-me para rampa e quando já ia descer encontro um ex-colega do SERPRO e paro para conversar soltando o carrinho que, com as duas rodas dianteiras já na rampa, despenca-se acelerando até atingir um senhor que sobe.  Este senhor é, como não poderia deixar de ser, a minha vítima do dia. Meu colega recupera o carrinho enquanto o senhor passa por mim dizendo em alto e bom som e furiosamente: inacreditável!

Na minha seguinte ida a Brasília todos no hotel já estavam cientes do ocorrido; Dr. Cristóvão – agora me informavam o nome – havia contado em prosa e em verso a desventurosa seqüência de infortúnios. Cruzei com ele todos os dias na mesa do café e nem tive meu “bom dia” respondido. Na sexta feira estamos os dois no vestíbulo para pagar a conta. Prudentemente ele espera que outras pessoas se coloquem atrás de mim para ingressar na fila. Na minha frente um hóspede portava um saquinho de plástico com um peixe vermelho nadando dentro. Que coisa esquisita, pensei. O que faz uma criatura às 7:30 na manhã, num hotel, com um peixinho? Não consigo atinar o motivo.

E chega a minha vez de ser atendida: confiro a nota e preencho o cheque. O atendente olha o cheque e começa a rir, passando o dito para a outra atendente que solta uma sonora gargalhada. A esta altura todos os que estão na fila, inclusive eu, curiosos observam. O Gerente olha por cima do ombro dos dois atendentes e apossa-se do cheque dizendo: D. Anna, por favor, faça outro cheque. A senhora escreveu: duzentos e cinqüenta reais e trinta e nove peixinhos! Sorrisos divertidos dos filantes e um ar de imensa incredulidade no meu senhor vítima. Evito fazer qualquer comentário e desconcertada, querendo desaparecer dali num passe de mágica, apressada, preencho outro cheque que provoca risos mais escandalosos. O Gerente engasgado declara: a senhora trocou os trinta e nove peixinhos por trinta e nove minutos!

2008

quarta-feira, outubro 16, 2013

O PERIGO É OUTRO

É grande a quantidade de pessoas que faz desmedidos esforços para não envelhecer. Verdade que por algum tempo conseguem obter algum resultado. Mas as intervenções plásticas que se multiplicam, ainda que por vezes possam retirar do rosto e do corpo as marcas do tempo, evidenciam que foi necessário fazê-las e isto sem dúvida atesta que o sujeito ou sujeita esta envelhecendo.

Não sou contra plásticas. Longe de mim qualquer crítica a quem a faz. Acho que se alguém se sente bem ao fazê-las deve ir à luta.  O que me espanta é que pensem que o com isto não estão envelhecendo. Creio que estas pessoas tenham medo de que o envelhecimento destrua o encanto ou o charme que têm. Ledo engano! O que realmente causa esta perda, provocando uma morte em vida é outro mal, devastador, sobre o qual pouco se fala. E é triste que raramente sejam empreendidas ações efetivas para combatê-lo: este mal é a sua exclusão do catálogo.

São muitos os sinais que denunciam que esta exclusão vai se dar e, pasmem, os sintomas começam a ocorrer muito cedo, muito antes que os sinais físicos de envelhecimento fiquem evidentes. Um dos primeiros é o olhar de censura com que observam os mais jovens reprovando seus gostos, tendências e procedimentos. Esquecem os que assim procedem que quando jovens eram também precursores de novos comportamentos, de novos hábitos. A reprovação que demonstram faz com que os jovens deles se afastem o que é péssimo porque estes são antídotos poderosos contra a desfenestração do catálogo.
Depois surgem as terríveis declarações que iniciam sempre por “no meu tempo” ou “no nosso tempo”. Neste (tempo) filmes, peças de teatro, atores, musicas, livros e que mais sei eu, eram melhores. Pode?! Até estatisticamente é impossível que isto ocorra. Tanto no passado, quanto hoje, as coisas podem ser boas ou ruins, agradando ou desagradando de acordo com gosto pessoal, cultura e vivência. “Ay there’s the rub”! Ou como melhor diria um Hamlet tupiniquim: ai é que está o buzilis! Quando a “vivência” deixa de ser um processo que muda pontos de vista, trazendo o novo, o diferente, e estaciona no passado, o indivíduo torna-se um chatíssimo saudosista. Um ser com quem é impossível conversar ou trocar idéias sobre a vida que está em curso. Nada de interessante ou original deles virá. Vai daí que vão se afastando, ou melhor, vão sendo afastados, até que sejam retirados totalmente do catálogo público ficando disponíveis somente para um catálogo familiar onde são aceitos, até carinhosamente, mas sempre com a palavra “coitado” precedendo ao nome.

Convenho que à medida que os anos passam manter-se no catálogo pode exigir um esforço considerável, sobretudo se a pessoa pertence ao mundo dos aposentados do INSS que dificulta, e muito, a atualização nos assuntos. Livros, discos, espetáculos, assinaturas de jornais e revistas são objetos caros. A televisão nunca vai fundo e os filmes que nela passam já foram vistos e discutidos há algum tempo pelos seres mais abonados.

Aliás, aqui vale um parêntese: já repararam como na televisão não existem pausas? Estas que enriquecem e têm um papel importantíssimo na música, nos textos dramáticos e até na vida do todo dia, não tem vez nesta mídia. Ao contrário há uma preocupação em evitar que ocorram. Por que será? Vai ver que é porque pausa é um tempo de reflexão que se dá ouvinte e tudo que não se quer na televisão é que este reflita sobre o que quer que seja. Caso isto ocorra haverá o perigo do espectador se perder em pensamentos deixando de olhar a tela, como ocorre quando se pára a leitura para pensar no que se leu.

Mas voltando ao catálogo, ou melhor, à dificuldade de nele se manter com pouco numerário. É difícil, mas não impossível: existem os “de grátis” (como diz uma de minhas netas), as pessoas pra lá de interessantes, as conversas que se escutam sem querer nas ruas, nos restaurantes, e até aquelas frases deliciosas, sem princípio ou fim, que escutamos em elevadores. Mas, sobretudo, existe a observação da vida que está ocorrendo hoje.

Adorei os filmes que vi na mocidade. Tenho certeza que muitos ainda veria com prazer hoje em dia. Mas existiram outros que foram ultrapassados pelo tempo, este Deus esquisito que transmuda as coisas, porque não mais se está na época que respaldava o encanto que provocaram. Hoje, bem mais velha, posso avaliar os destinados a qualquer idade o que é uma enorme vantagem e, sobretudo, posso perceber a transformação que descrevem nos usos, nos costumes, na vida enfim.

Outra coisa que muito me impressiona é a força com que preconceitos pululam nos “fora de catálogo”. Preconceito envelhece! E como! E triste perceber como as pessoas tornam-se velhas pela não aceitação do outro diferente de si, na cor, na preferência sexual, na origem, na classificação social e sei eu lá mais o quê.  E tome “no meu tempo”! E eis que de repente o futuro célere só lhes oferecerá a saudade do que existiu e não mais existe.

O sentir que a lembrança nos traz é coisa pra lá de boa, mas impossível de ser compartilhado com os que não viveram os momentos que as provocam. É coisa particular. Viver dele ou nele e é morrer em vida. E, quando ocorre a morte real ouve-se em todas as bocas o terrível comentário: Morreu?! Pensei que já houvesse morrido há anos!

2011

terça-feira, outubro 15, 2013

BIOGRAFIA

Papai tinha apenas 23 anos quando nasci. Para a época, muito moço. Sua formatura como engenheiro civil, pela então Escola Politécnica, só se daria no final do ano de 1930, meses depois de meu nascimento. Vai daí que fui à cerimônia no colo de Babá. Anos, muitos anos depois, recebi dele um cartão: “fui o primeiro de minha turma a ter filho. Como se explica esta absurda tardança em ser avô”?  E eu pensei: para ele fui um presente. Não que não soubesse. Sempre me fez sentir assim. Mas o reafirmar por escrito trazia aquela gostosa sensação de proteção que, agora tão velha, por vezes careço.

Era bonito, meu pai. Falei em Babá, não foi? Outra fabulosa proteção. Ela, papai e minha avó formavam um escudo indestrutível: nada poderia me atingir. Minvó, como a chamávamos. Nós, os netos. Não conheci meu avô. Havia morrido quando Mamãe tinha 12 anos. Mas era como se o houvesse conhecido. Raro o dia em que Minvó não se referia a ele como Doutor Miguel. Pelas histórias era muito presente em nossas vidas. Ele, para nós os netos, era O QUARTO que havia sido mantido no sítio, em Miguel Pereira, exatamente como no dia de sua morte. Quando chegávamos ao sítio para as férias de verão, éramos levados lá por Minvó. Permanecíamos em silêncio, ali parados, um pouco amedrontados. Depois saíamos. Pronto. Era só isto. No dia da partida repetia-se a cerimônia. No mais O QUARTO permanecia fechado, único território proibido naquele paraíso. Havia uma exceção. No carnaval lá ingressávamos para escolher fantasias que estranhamente eram guardadas em uma cômoda, no santuário! Neste dia a antecipação da festa espantava o medo e podíamos até falar e rir.

Papai era o genro preferido de Minvó. Único a ser tratado pelo nome. Os outros eram indicados com um Dr. á frente do nome.  As noras eram “você” mesmo. Zenaira e Tia Lili. E eu as adorava. Tia Lili havia surgido primeiro. Era uma bonita figura quando montava seu Bandoleiro. Muitas e muitas vezes fui escolhida para ir com ela buscar o jornal que chegava no trem das 11. Enganchada na sela à sua frente, lembro-me que ria muito quando Bandoleiro passarinhava assustado com as cobras que se moviam dentro do bambual que formava um túnel na entrada do sítio. Isto se juntava aos cheiros de água de colônia e do couro da sela. Um grandor! Zenaira foi meu modelo na pré adolescência. Eu passava horas em frente ao espelho imitando seus gestos e expressões. Era linda esta minha tia. Tive muito ciúme dela quando apareceu enamorada de meu tio mais moço: minha primeira paixão. Virgílio – Ijo como o chamávamos - era deslumbrante e tudo que sei sobre cavalos com ele aprendi.

O aparecimento de Zenaira destruiu meu sonho de com ele um dia me casar. Mas durou pouco a desventura. Ela me conquistou. Sobre tudo isto reinava Minvó. Aristocrata, sempre vestida de negro pelo luto do marido adorado – o Doutor Miguel – que a havia deixado aos trinta e nove anos com seis filhos, um ainda muito pequeno – o Ijo. Um dia não pôde mais usar o negro. Uma irritação na pele causada pelos muitos anos no escuro a obrigaram a adoçar a cor. E o cinza e branco passaram a adornar seu porte de rainha. Havia nela um porto seguro para mim: o banquinho em que apoiava os pés. Nele eu me sentava colocando a cabeça em seu colo, mesmo depois de casada. E a cabeça esvaziava de tudo que podia estar atormentando, no embalo das mãos que percorriam meus cabelos enquanto dizia: “Namaria... Namaria...  quem ama não tem sossego!¨ Sei lá de onde e por que esta frase me era repetida. Mas estranhamente funcionava. Trazia paz, aconchego. Ela ainda me dizia que quando morresse eu deveria colocar o ouvido em seu coração que estaria repetindo: Namaria... Namaria.  Fiz isto anos mais tarde quando partiu num desastre de automóvel e, em desespero, nada ouvi. Foi a única vez em que ela me falhou.

Entre Minvó, aristocrata, Papai socialista e Babá incondicional protetora, fui me preparando para a vida, escolhendo o que de melhor havia em cada um deles, por que sempre me permitiram isto. Jamais tentaram torcer o pepino. Lembro-me que rimos muito, papai e eu quando um dia eu voltava da missa, em Miguel Pereira (onde ia para namorar) comentei que a filha do farmacêutico Seu Portela, estava uma linda moça. Minvó deslizou os óculos nariz abaixo como sempre fazia quando uma declaração importante estava por vir e, severa, pontificou: não se esqueça, minha nêga, bonito só nós! Isto era um dos ditos cultivados pela família originado, sei lá eu, de qual dos antepassados.

Eram muitos os ditos. Mas um deles marcou minha vida e volta e meia retorna pensado de mim para mim. Deste sei a origem: um empregado do sitio era um exímio cavaleiro e foi convencido por todos nós que deveria se dedicar a domar animais bravios. Falamos tanto que ele se convenceu e um dia resolveu dominar Ventania, cavalo mais que bravio que jamais havia aceitado sela. Reunímo-nos todos no picadeiro aberto para assistir. E Labé – era este seu nome – foi arremessado violentamente contra a cerca na primeira tentativa. Muito machucado urrou indignado para platéia numa fúria incontida: quem foi o desgraçado que disse que eu era pião?

Hoje, vez por outra, diante de tombos que a vida me dá pela imprudência e onipotência de por vezes sou acometida, sinto vontade de gritar como ele: Quem foi o desgraçado que disse que eu era pião?

2008

segunda-feira, outubro 14, 2013

NA NOITE O MELHOR AMIGO

As lágrimas correm mansas e pingam no vestido da moça.  Ela olha bem dentro dos olhos do amigo num pedido de socorro. A medo, avança a mão e o toca de leve.  Que olhos lindos ele tem. Parece que os vê pela primeira vez. Ele não entende a mensagem. Sente o gesto, percebe o olhar, mas não entende. Nunca a viu chorar e está se sentindo desconfortável.  Alguma coisa mudou e mudou muito. E ela pensa: será que ele me entende? Gostaria tanto de poder falar. Dizer tudo. Jogar pra fora esta dor. Mas acho que ele não entenderia. Nem está se dando conta. Não percebeu que Mauro se foi. Pra sempre! Foi horrível aquele olhar e o grito respondendo ao grito dela: pra sempre, sim! Não volto. Nunca mais.

O amigo se afasta um pouco sem deixar de olhar pra ela. O que está havendo? É tudo muito estranho. O sorriso com que sempre é recebido não se vê no rosto dela. Mauro não está por ali, é evidente. Não chegou? Que coisa! Ela está sozinha e ele não sabe como se comportar. Nunca a viu assim.

Ela ainda chora. E dá pra não chorar? Cinco anos perdidos. Jogados no lixo. Volta a olhar para o amigo. Bem nos olhos. Você não sabe o que fazer, não é? Pudera... nunca me viu chorar. Eu poderia explicar, mas você é tão amigo dele. Será que vai entender? E, no entanto, você, e só você, poderia me valer. Foi testemunha destes cinco anos. Viu tudo. Participou de tudo. Tudo o que era bom, bonito, alegre. Você via como ele me amava!  Meu Deus! Estou falando no passado! Amava!!! Num gesto instintivo ela põe as mãos na boca para impedir que as palavras saiam. Ainda bem que não falei, pensa. Quando se fala, alto, parece que as coisas se tornam verdade.

Sem saber o que fazer ele se aproxima. Agora perto. Bem perto dela. Sempre fez isto, mas desta vez é diferente. Toca de leve em suas mãos. Com certo medo, é verdade. Sabe-se lá se é isto que ela quer. Ela é sempre tão falante. E hoje está muda. A voz, tão carinhosa e amiga, não se faz ouvir. Mas assim mesmo chega-se a ela. Ai o susto! Ela o agarra com força. Olha, preciso de um contato carinhoso, amigo. Quem sabe, com você em meus braços a dor passa. Nunca te agarrei assim. Mas também nunca precisei sentir outro calor que não o dele. Agora eu preciso. Te agarrar, sabe? Ele se assusta e liberta-se do abraço. Ela quase o machucou. Será que isto está certo?

E Mauro que não chega. Se ele estivesse aqui, tem certeza, ela não faria isto. Nesta hora, os três costumam ficar juntos, divertindo-se, brincando mesmo. E mesmo quando Mauro não está, não é assim que ela se comporta. Se há uma coisa que ele detesta é mudança de comportamento. Desnorteia, dá esta sensação de coisa errada.

Você se assustou, não foi? Mas eu também estou assustada. Nunca agi assim. É verdade que nunca fiquei só. Mesmo quando Mauro não estava havia certeza de que a qualquer momento ele iria chegar. Agora... Mas você ainda não sabe. É impressionante como não percebe. Éramos tão unidos os três. E Mauro não está. Não está mais. Agora só restamos eu e você. Então vem. Vem pra mim. Me conforta. Me esquenta. Estou com frio. Você não vê?

E ela o agarra de novo e desta vez fala. Mas num tom nunca usado: vem. Deita aqui na cama a meu lado. Ela falou! Aflita, urgente. Então ele se rende e cai nos braços dela. Fazer o quê? Vai ver que agora vai ser assim, sempre... Ainda chorando, ela se atira na cama com ele nos braços.

Mesmo sem entender nada - Romão - o gato, chega-se mais a ela, ronronando e aceitando este comportamento tão estranho. E assim ficam, até que ela dorme. Romão está com fome. Mas não ousa miar pedindo, como sempre faz. Amanhã, quem sabe, tudo volta ao normal.

2008

domingo, outubro 13, 2013

PALPITE INFELIZ

A jovem analista respirou fundo e disparou, num tom professoral e pretensioso: manda a melhor técnica... Ela precisava se agarrar em alguma coisa e técnica até que fornece um bom respaldo, quando outros não estão à mão. E, era evidente, não dispunha de outro socorro: arrogante e insegura precisava marcar o território.

Sempre que escuto esta frase, faço uma tradução para: “manda o melhor martelo, manda o melhor serrote ou manda o melhor abridor de latas”. Porque como o martelo, o serrote e o abridor, técnica é um instrumento. Pra lá de útil, é claro. Deve-se conhecê-la e muito... até para poder desrespeitá-la criando soluções adequadas, não escritas em um manual, para atender ao que há de humano nos sistemas. E, acreditem, o humano está lá, sempre presente, e é aí que a técnica às vezes resvala. O humano é, por vezes, imprevisível e (deliciosamente) fora de esquadro.

Era o ano de 2005 e eu estava me despedindo após sete anos de consultoria ao projeto. Havia resolvido ”pedir as contas” e me mandar, entre outras razões por não concordar com a admissão da jovem, reprovada que havia sido pelos critérios estabelecidos, mas respaldada por razões políticas aliadas, infelizmente a outras de alcova! Trabalhar com jovens sempre havia sido um prazer. Mas a arrogância, naquele caso, anulava esta condição tão bem vinda e necessária em qualquer instituição. A moça, entrada pela janela (e pela cama), estava assumindo, a coordenação dos sistemas. Os primeiros contatos revelaram a pessoa mal educada e, sobretudo e muito mais grave, mal aprendida.

Vai daí que saiu-se com a maldita frase: manda a melhor técnica... Maldita, porque perigosa, pela presença do verbo “mandar” e pelo sujeito que pretende ser responsável por esta ação. Técnica é um belo instrumento, como o é um bisturi utilizado por cirurgiões que sabem (ou deveriam saber) que não existem doenças e sim, doentes. Não existem sistemas, projetos ou planos prontos. São criados para usuários, pessoas humanas, ou para uma instituição que é gerida e habitada por pessoas humanas. Cada um é um. E, desgraçadamente, a técnica nunca diz exatamente – e muito menos manda – tudo o que se deve fazer ou como fazer. Quase sempre, minha gente, sistemas, planos e projetos são peças artesanais.

Lembro-me que levei anos até descobrir a pergunta milionária que provocaria a resposta correta, na fase de levantamento. Eu dava com os burros n’água orientada pela técnica de entrevistas: qual o objetivo deste sistema que você quer e outros que tais, sempre provocavam um relato “técnico” onde a pessoa partia para uma solução já imaginada, sem me dar pistas do real problema.  Um dia, sabe-se lá porque, perguntei: o que foi que aconteceu que fez você perceber que precisava deste novo sistema? Fascinada, ouvi o relato claro do problema. Nele os fatos “técnicos” se misturavam aos sentimentos humanos: frustrações, impossibilidades, medo de errar, incertezas e que mais sei eu. O problema e suas causas me foram mostrados em carne viva. A solução e o tratamento, a mim caberiam e seriam possíveis a partir dali. Para diagnóstico me haviam sido dados todos os elementos. A técnica poderia entrar em cena e nela eu iria garimpar o que me serviria e, sobretudo serviria a quem me pedia solução.

Pouco depois desta descoberta um estagiário procurou-me para relatar a uma entrevista sua com um cliente. Às folhas tantas deixou escapar a “melhor técnica”, embora mais atilado não tenha utilizado o verbo mandar. Isto foi o início de uma conversa de horas em que relatei, e discutimos, a “não técnica”. Aquele rapaz, bem diferente daquela outra jovem, sabia ouvir e, porque ouvia, elaborava em cima para então falar. Pela ousadia da juventude, sempre bem vinda e reveladora de outros caminhos, ao se dar conta do que eu dizia, acrescentou ao que eu havia aprendido e eu passei a aprender com ele. Lembro-me que fui rindo para casa com a frase que me disse, quando já se fazia noite e nós nem havíamos percebido: foi bom pra você também? Tenho saudades dele, hoje um brilhante analista sênior. Dele e de uma centena de outros dos quais me ficaram gravados os olhos brilhantes, a alegria, o entusiasmo, a inteligência, o valor.
 
Sinto-me um tanto culpada. Eu deveria ter dedicado algum tempo àquela esta moça. Não o fiz e, ao invés disto, peço emprestado a Noel Rosa, o título desta crônica. Pareceu-me inútil tentar esclarecê-la. A arrogância impedia a assimilação do que quer que fosse. Era o “rempli de soi même” total.

Não sei se entre os que me leem existem jovens profissionais iniciando uma carreira. Mas se existir pelo menos um, a este peço encarecidamente: faça com que a técnica fique a seu serviço; nunca se ponha a serviço dela. E, sobretudo, pense, reflita, discuta, duvide, mande, diga. Não deixe a técnica faça isto por você. Se forem suas, estas ações certamente vão resolver o que há de humano, embutido no plano, projeto ou sistema. Ao contrario do que a jovem analista me declarou “tecnicamente”, um banco de dados não armazena “registros”, mas sim pessoas. Uma parte da vida dessas pessoas está lá. E as pessoas e a vida lá delas merecem o respeito de sua inteligência e de sua cultura. 

2005

sábado, outubro 12, 2013

AMIGOS

Barney Kessel me emociona nesta mais uma tarde. Faz tempo, muito tempo mesmo que o ouvi pela primeira vez desde ai sempre no sonho impossível de tornar meu violão pelo menos parecido.  Todas as vezes que escuto, descubro algo novo, nuance antes não percebida. Hoje, em meio à extraordinária execução em ré de Love is Here to Stay, descubro uma nota “blue” que nunca havia percebido, enriquecendo a harmonia. Os apaixonados por jazz e blues sabem do que estou falando. Para os demais é importante que eu esclareça o que é esta nota.
 
A “blue note” surgiu de uma briga entre as escalas pentatônica africana e a diatônica européia. Os catadores de algodão de origem africana cantavam nos campos usavam a escala pentatônica. É claro que cantavam sem o acompanhamento de instrumentos. Mas eis que esta cantoria começa a chamar atenção de músicos profissionais que com os instrumentos fabricados na Europa e, portanto, apropriados para executar a escala diatônica, tentaram em vão reproduzi-las. Empacaram no conflito entre as duas escalas. Para superar o problema os músicos Afro-americanos introduziram na escala diatônica a “blue note” que, fora da escala, traz um inesperado colorido à musica.

E eu me pego pensando meus amigos são “blue notes”! Inesperadas pessoas que fora da escala me trazem o encanto e a harmonia da vida. Não são muitos, não. Nem poderiam ser por que são raros, especiais, caros. E o que é raro, especial e caro, é escasso. Não vou nomeá-los. Eles sabem quem são e vocês não teriam deles a mais pálida descrição só lhes conhecendo o nome. Impossível descrevê-los em grupo. São tão diferentes. Profissões, maneiras de ser, formas de encarar a vida as mais variadas e até discordantes. O que menos me chama atenção em cada um deles é o aspecto físico embora eu os veja belos. Das mais variadas idades distribuem-se nas dezenas que vão dos 50 aos 80. Existe um ponto fora da curva: Ricardinho de quem já falei a vocês. Deve estar agora com 12 anos.  Este nunca mais vi. Mas era amigo de fé.   

Do que mais me lembro quando ausentes, é da voz. O jeito que dizem meu nome na surpresa gostosa da frase: vou dar uma passadinha aí ou dá uma passadinha aqui. De passadinha em passadinha, lá e cá, construímos um mundo nosso onde conversas rolam, onde apoios são dados gratuitamente, onde discordâncias e alertas são feitos, onde dizer “não” é permitido a todos sem mágoas ou recriminações. Mas criticas existem. Por que não? 

O mais recente surgiu a cerca de quinze anos atrás. O mais antigo há mais de quarenta. E todos sabem de mim, como sei deles, mesmo quando distantes (para minha enorme saudade dois se bandearam para longe e lá ficaram). Saber da gente é muito importante: só assim o que dizemos, seja o que for, é entendido em seu real sentido. O subtexto é claro entre nós. Fica fácil conversar assim, não é? E o silêncio, quando existe, não é aflitivo nem desconcertante. Não há a menor necessidade de explicações, traduções, esclarecimentos. Como isto é confortável!

Mesmo quando discordamos, e isto é freqüente, a coisa fica gostosa.  E não são carpideiras, não, os meus amigos. Se a coisa vai bem se alegram comigo e se vai mal me tiram do buraco, até com violência. E, sobretudo me fazem rir. O que é ótimo. A vida me concedeu muitos privilégios. Sem dúvida ter estes amigos é um dos maiores. 

Morreram de rir do meu medo de fazer uma biópsia por causa da agulha (tenho medo delas) e nada fizeram para diminuí-lo. Ao contrario vaticinaram momentos terríveis. Incrivelmente isto ajudou a colocar a coisa em sua devida proporção. Este comportamento não é intencional ou proposital. É natural. E isto é que é bom. Como uma cascata de “blue notes” soam. Esquentam o coração e criando harmonia. Não agradeço, não. Mesmo porque sou assim para eles também. Transitamos numa rua duas mãos. Às vezes o transito é maior num sentido e todos corremos para lá. De repente inverte e, até hoje, ninguém se desorientou ou perdeu o rumo. Competentes que somos sempre chegamos a bom porto. Talvez nem sempre inteiramente sãos e salvos, já que arranhões da vida são de lei. Mas o estoque de band-aids de que dispomos é espantoso. Jamais faltaram. E assim vivendo encantados e protegidos pela harmonia que criamos. Ah! Barney Kessel, desta você teria inveja! 
2010

sexta-feira, outubro 11, 2013

AINDA UMA BABEL

Vez por outra ocorre um curto circuito no entender o que me falam. E me fica a sensação de que talvez isto também aconteça com meus interlocutores. Não deveria ser assim, mas é. Vai ver isto ocorre porque palavras, dependendo de como são ditas, por quem e em que circunstâncias, adquirem significados diferentes. Afinal, palavras são apenas símbolos, não é? Exemplo disto tive eu recentemente no espantoso relato a mim feito por uma jovem senhora.

Tudo começou quando o marido tendo esquecido o celular em casa, chegou atrasado para o jantar. A frase que deslanchou a catástrofe parecia inofensiva: “Tive um imprevisto” A tradução da ouvinte, no entanto foi: ele não disse qual foi o imprevisto. Não disse por que pensou que eu poria logo o jantar na mesa e não se falaria mais nisto. Há, há... ele não esperava que eu perguntasse. Ainda assim perguntou: E qual foi?” A resposta dele, foi razoável: “Furou um pneu do carro. Estou morto de fome!” Ela me contou que sorriu com doçura e falou: “Que chato né?” Mas pensou: que desculpa mais absurda. Pneu de carro troca-se em dez minutos. E ele está atrasado uma hora e quarenta e cinco minutos! E o que significa essa fome que apareceu assim sem mais nem menos, logo no dia em que esqueceu o celular? Ele nunca tem fome! Aí tem coisa! Ah se tem! E doce, prosseguiu: “Tá com fome por que, bem?” Foi ai que ele se irritou e respondeu atravessado que fome independe de motivo. E ela já certa da mentira, disfarça: “Por que a irritação, bem?” Pergunta feita, ao que me disse, num tom pra lá de carinhoso. Mas não foi assim escutado por que ele partiu para o ataque, num tom pra lá de grosseiro:

-  Qual é?! Ta falando com esta voz irônica por quê? Ficou louca? Logo hoje!
-  Logo hoje?! O que aconteceu hoje?  Confessa. Vai!
-  Confessar o quê, sua doida?
- Ela existe. Sua amante! Pensa que eu não sei?! Mulher não é como homem, não. Eu não sou, nem vou ser a última a saber, ouviu?!
- Não é a última, nem a primeira, minha cara. Você simplesmente não sabe! 
- Ah! Então você confessa que há alguma coisa que não sei. Pode me fazer o favor de dizer o quê?
- Posso! Você não sabe receber um marido cansado e louco pra jantar. 
-  E ela sabe, não é?! Você agora se traiu!

E ela cai num pranto convulso na certeza da existência da “outra”. Pensa em arrumar as malas. Mas a frase “vou para a casa de meus pais” não seria possível: é órfã. Ao se lembrar disto o choro recrudesce. Está só no mundo. O comentário do marido não ajuda em nada embora feito num tom até carinhoso: “que coisa ridícula esta choradeira, meu bem. Pára com isto, vamos jantar”. E ela ferida, muito ferida, responde: é ridículo, ser órfã, é? É uma crueldade você me dizer isto Ridículo é você que corre para mamãe e papai sempre que as coisas vão mal. A cena me foi contada por ela, portanto não sei qual foi a expressão do marido ao responder, mas acredito que fosse de puro espanto: Órfã?! Mas quem falou nisto? Além do mais você não é órfã. E seus tios que te criaram. São como pais pra você, sei lá desde quando? Ai foi demais o “sei lá desde quando” era uma referência clara, inegável, indiscutível, ao fato dela ser dois anos mais velha. Como é que ele foi capaz de  tamanha maldade. Nunca escondeu a idade. Ele sempre soube e quis casar assim mesmo. Vai! Diz que além de órfã, enganada e ridícula, sou velha! E o que mais eu sou? Fala, vai! Diz tudo que você nunca teve coragem de dizer. Vamos jogar as cartas na mesa. Acabaram-se as mentiras, as dissimulações, os enganos. Cansei! Foi esta a deixa para que ele saísse batendo a porta: Cansei, digo eu! Chega! Fui! E ela ficou entregue ao desespero. Em minutos, o casamento havia terminado. Também pudera, saber assim, sem aviso que ele tinha arrumado uma amante porque a achava velha, ridícula, burra. Vai ver a “outra” é bem mais moça. Uma adolescente, é isto!! É muita humilhação. Melhor mesmo não saber detalhes. O sofrimento seria muito maior ao constatar a radiosa mocidade da “pneu furado”.

O jeito é ir para a casa dos tios a quem, na verdade, chama de papai e mamãe. Mas não pode sair assim, sem levar o que é dela. O apartamento é dele, mas ela espera que ele tenha a decência de dar um tempo para que se organize e volte a trabalhar. Antes do amargo fim existem detalhes que vão ter que ser acertados. Neste momento ela se dá conta de que ele vai ter que voltar ainda naquela noite, nem que seja para buscar o celular, de novo esquecido, e a carteira que jogou em cima da mesa quando chegou. Sem dinheiro, sem cartão de crédito e sem celular não irá longe.

Ainda chora quando o interfone toca. É o porteiro: o borracheiro do posto veio aqui entregar os óculos que o doutor esqueceu lá. E ela, achando a vida bela, vai em direção à cozinha, sorrindo: Sem óculos também! Ele já deve estar chegando. Vou esquentar o jantar. Tadinho! Deve estar faminto.

2007

quinta-feira, outubro 10, 2013

QUESTÃO DE FÉ

Volta e meia tenho provas de que o mal causado pela incompetência é tão ou mais danoso quanto o causado pela corrupção. A leitura da Folha de S. Paulo me surpreendeu relatando um monumental erro causado por incompetência! Monumental mesmo! Causou um considerável desconforto espiritual aos duzentos milhões de muçulmanos da Indonésia.

Tudo aconteceu porque o Conselho de Ulemás daquela região julgou-se competente em conhecimentos de cosmografia e astronomia e, ao invés de consultar um especialista, há décadas determinava aos fiéis que direcionassem suas orações na direção oeste. E os coitados munidos de seus tapetes assim o faziam certos de que estavam enviando as preces diretamente para a cidade sagrada de Meca como determina o Alcorão. Só que esta cidade, que se localiza na Arábia Saudita, encontra-se de fato a noroeste! As orações estavam então sendo catapultadas para África, mais precisamente para Quênia e para Somália!

Descoberto o erro o Conselho tranquilizou os fiéis informando que isto não havia impedido que suas preces fossem ouvidas. “Alá compreende que o homem cometa erros” afirmou um representante do Conselho. E isto, é claro, é o que se espera de qualquer deus. Mas me fica uma enorme dúvida: se as rezas necessariamente têm que ser lançadas em uma direção específica do planeta por alguma razão isto é determinado. Quem sabe um canal direto e virtual é automaticamente estabelecido entre qualquer região em que se encontre um muçulmano rezando e Meca, desde que este se coloque na direção correta.

As preces endereçadas a Quênia e a Somália, no mínimo devem ter sofrido interferências e atrasos. Concedo que as dirigidas à Somália possam ter sido automaticamente redirecionadas à Meca já que neste país a quantidade de muçulmanos é considerável e as erradamente para lá enviadas podem ter tomado carona nas corretamente endereçadas que de lá partem. Mas o mesmo não deve ter ocorrido no Quênia onde apenas dez por cento da população são muçulmanos. Este redirecionamento causou, no mínimo, um monumental congestionamento e, certamente, atrasos fatais de imprevisíveis conseqüências.

De qualquer modo foi um erro humano causado por incompetência. O que é impressionante é que durante todo este tempo ninguém tenha questionado a direção errada já que é estatisticamente impossível que entre duzentos milhões não exista na Indonésia um só muçulmano com noção de direção. Mas isto se explica: tratava-se de uma questão de fé e quando esta entra em cena tudo se torna indiscutível.

Somos no Brasil mais de cento e trinta e cinco milhões de eleitores e preocupa-me que grande parte destes possam ser induzidos a errar por uma questão de fé. Senão vejamos: destes milhões um quantidade considerável tem avaliado os governos do Presidente Lula e da Presidente Dilma como ótimo ou muito bom. Não sei qual é exatamente o conceito de ótimo adotado pelas pesquisas. As palavras quando isoladas têm um conceito um tanto subjetivo. Mas de qualquer modo “ótimo” e “muito bom” significam um grau de excelência. Ou seja, tudo vai bem, no melhor dos mundos.

Não estou entre os que só vêem erros nestes dois governos. Longe disto. A redução do nível de pobreza, por exemplo, foi de fato significativa e louvável. A Bolsa Família embora embora não acompanhada de medidas destinadas a resolver o problema de maneira definitiva, atuando somente na conjuntura, deu um excelente resultado imediato. E, como sabiamente dizia Betinho, que tem fome tem pressa. Bendito Cristóvão Buarque que deu origem a esta providência com a criação da Bolsa Estudo. 

Mas ótimo?! Estas pessoas que assim os classificaram acham ótima a total ausência de ações, planos e projetos para conduzir este País a um patamar no mínimo aceitável? A incompetência  flagrante na gestão da área econômica? A inexplicável manutenção de um pífio Ministro da Fazenda que adota o método de tentativa e erro e que consegue produzir um fenômeno estatístico mais do que improvável: erra sempre? O abandono da Educação? A proliferação espantosa de ministérios para atender a alianças políticas desconsiderando totalmente o fator competência? O espantoso e exponencial crescimento dos gastos públicos e da dívida na área federal? O extraordinário superfaturamento de obras públicas que além de caras são mal executadas? O estado de abandono em que se encontram as obras de transposição do São Francisco nas quais foi gasto uma fábula? O não cumprimento de uma só promessa contida nos planos de campanha? A proposta da criação de um trem bala entre o Rio de São Paulo quando a situação das estradas em todo País e catastrófica? A paralisação total de obras no setor ferroviário? Os gastos com os estádios da Copa que ultrapassaram de maneira espantosa todas as previsões? Esta enumeração poderia continuar por páginas e páginas, todas elas comprovadas não por notícias divulgadas pela mídia, mas por dados, informações e declarações do próprio Governo.  

A explicação só pode ser uma: é uma questão de fé. É dogma. Não se discute. Se aceita porque o “Papa” é infalível. É inegável o carisma do ex-presidente Lula. É também inegável sua esperteza e sua inteligência. Até desconfio que as “boutades” que comete são em sua maioria propositais para criar um personagem inédito e instigante. A escolha da candidata Dilma Rousseff para sucedê-lo foi compreensível: seria difícil conseguir outra figura que se submetesse, durante quatro anos, a obedecer cegamente suas ordens e diretrizes, mantendo-o como Guru. Haveria sempre o perigo da criatura devorar o criador e isto impediria o grito do “Vota Lula”. A obediência e subordinação da Presidente foi evidenciada diversas vezes. Para citar só uma: o seu deslocamento para São Paulo buscando instruções de como agir no caso das recentes manifestações populares. Por respeito à dignidade do cargo que ocupa deveria, pelo menos, tê-lo convocado ao palácio e não ir a seu encontro. Ela é ou não a maior autoridade?    


É espantoso que nada do que comprovada e inegavelmente ocorre seja avaliado com equilíbrio por mais de cento e quatro milhões de eleitores. Só pode ser mesmo questão de fé. Como ocorreu com os indonésios um enorme contingente de pessoas neste País está rezando em direção a uma não Meca. Mas se para os indonésios trata-se de uma questão do indiscutível divino, para os brasileiros o caso é terreno: constatado o erro, aqueles que acreditam com fé igualmente verdadeira não serão tranquilizados, como mereceriam, por um Conselho de Ulemás que lhes garantirá terem sido escutados e atendidos em seus mais que legítimos anseios e esperanças.

quarta-feira, outubro 09, 2013

OUTRO MENINO E A FINITUDE

A campainha toca às oito da manhã. O ar descomposto que eu apresentava me impediu de ir logo abrindo, habito perigoso nos tempos que correm, mas do qual não me livro. O olho mágico me revela um hall deserto! Foi Deus, penso: é um assaltante que acocorado espera por jóias e dólares que não tenho! Como é mesmo aquele número da polícia? Antes que a memória retorne ouço uma batida enérgica. Olho de novo e vejo um bracinho tentando alcançar a campainha que soa em seguida. Resolvo abrir já que é provável que eu consiga enfrentar um assaltante mirim. A porta aberta revela Ricardinho com uma expressão irritada:

-      Você tava dormindo!
-      Ricardinho! Que boa surpresa! Entra, vai!
-      Eu já ando sozinho de elevador.

Uma preocupação me assalta:

-      Sua mãe sabe que você veio aqui?
-      Não sei.
-      Ela está lá em baixo?
-      Pra que você quer saber? Você não conhece minha mãe. 
-      Conheço, sim, Ricardinho.
-      Você não fala com minha mãe! 

Embatuco. De fato nunca falo com “minha mãe” que sempre me olha com desconfiança, sei lá eu por quê. Resolvo mudar a conversa que está deslizando para um campo perigoso como sempre acontece nos meus encontros com Ricardinho:

-      Mas conta, o que é que você veio fazer aqui?
-      Eu vim ver se você não morreu mesmo. Eu perguntei ao Célio       (porteiro) e ele me disse que você não tinha morrido.

Antes que eu pudesse me recobrar do espanto ou mesmo dar graças por não ser uma verdade a dúvida de Ricardinho, ele continua sério. Solene mesmo:

-      Minha avó morreu.
-      Ah! Ricardinho! Que pena. Você está triste. É ruim, não é?
 
Pergunta não respondida, a expressão de Ricardinho nada esclarece. Ele apenas olha direto em meus olhos com aquela franqueza de que só as crianças e os gatos são capazes. Não sei o que dizer. A gente apenas se olha. Ele rompe o silêncio e desde que nos conhecemos é a primeira vez que sinto insegurança em sua voz:

-      Você vai morrer agora?
-      Acho que não, Ricardinho.

Percebo que a resposta não é a esperada e desavergonhada, afirmo:

-      Não vou morrer não. Não vou mesmo. Agora vou conversar         com você.
-      Tá bom! Você sabe jogar Mico Preto?
-      Sei sim. Jogo muito bem Mico Preto.
-      Você vai parar de não ir lá em baixo? Se você não for lá em           baixo não pode jogar comigo.
-      É verdade. Acho que vou ter que deixar de não ir lá em baixo. 
-      Pra jogar Mico Preto.
-      É. Para jogar, sim.
-      Amanhã você vai. Eu levo o Mico Preto.
-      Estamos combinados. Amanhã eu vou descer e a gente joga           Mico Preto.
-      Você não vai jogar com o Alvinho.
-      Mas, Ricardinho, quanto mais gente melhor, você não acha?
-      O Alvinho não conhece você.
-      Você me mostra quem ele é e a gente joga.
-      Não!!! Ele nem sabe que você não morreu!

A lógica é irrefutável. Alvinho, creio eu, nem sabe que eu estou viva!

-        Tá certo. Ricardinho. Jogamos só nós dois.
-        A gente vai jogar todo dia.
-         Todo dia eu não sei, Ricardinho. Às vezes não vai dar. Mas         sempre que der  gente joga.  
-        Tá. Por que você não vai morrer mesmo, não é?

Promessa difícil de cumprir esta. Mas e expressão do menino exige resposta e, sobretudo exige uma que garanta o sossego daquele coraçãozinho aflito e eu minto descaradamente:

-        Não vou morrer de jeito nenhum.

Acompanho Ricardinho ao elevador. Já dentro ele me lança um de seus raros e encantadores sorrisos:

-        Amanhã eu vou ganhar de você!

O elevador parte levando meu grande amigo e a deliciosa promessa de vida eterna a que me levou Ricardinho. Sem a presença do Alvinho, é claro!
2008