quarta-feira, setembro 18, 2013

COMO VENCER A MORTE

Debaixo da porta o folheto: “A morte é aquilo que causa maior medo ao ser humano. Se você está nessa situação, alegre-se porque há uma saída. Para isso, leia a orientação que vem escrita abaixo”. Não – penso - não estou nessa situação, isto é, não tenho medo da morte. Vez por outra a vida me mete medo, mas a morte (ainda) não. De qualquer modo resolvo proceder à leitura. Afinal, sabe-se lá, este medo pode se instalar de repente e sempre é bom estar prevenida.
Leio com atenção e verifico que não se trata de uma “saída”, mas sim de uma “entrada”. A “orientação” trata de como ingressar no Reino dos Céus, desta forma “vencendo” a morte. Mas será que se trata de uma vitória sobre ela? Parece-me mais uma troca: trocar a vida por um ingresso no Paraíso, mais que garantido, se seguir à risca a orientação. O folheto é um pequeno manual de como agir para realizar esta troca. Agnóstica que sou não consigo me identificar com aquelas palavras. Não que as instruções sejam impossíveis de ser seguidas ou que ofereçam dificuldades intransponíveis.
Sinto até uma pontinha de inveja daqueles que, seguindo à risca, adquirem uma certeza de que serão recompensados com tantas e maravilhosas promessas. Mas cá comigo as coisas são diferentes. Não vejo como vencer a morte! O que posso fazer é vencer a vida. Não escrevi errado, não. Não quis dizer na vida. É a vida mesmo. Por que esta faz da suas! Tem que se brigar pra viver. E como! Não falo das grandes catástrofes ou sofrimentos. Estes vêm como um terremoto e não há como vencer. É deixar o tempo passar – porque passa – e depois cuidar do ferimento inevitável para que se torne cicatriz. E cicatriz um belo dia pára de doer. Vai ficar lá pra sempre, lembrando, lembrando... mas a dor, aquela terrível, se dissolve em lembranças.
Falo das pequenas lutas. Daquelas de que não são percebidas por outros se saímos vencedores. A gente nem mesmo faz a contabilização do quanto custou ou custa. E tome livro de auto-ajuda, Paulo Coelho, o escambáu. Acredito até que façam efeito para algumas pessoas. Nunca fizeram para mim. Uma pena! Teria talvez sido legal! 
Minha auto-ajuda me foi legada por meu pai que nunca me disse que se fosse uma boa menina, depois uma boa mulher, teria reconhecido meus esforços, nada de mal ou desagradável me aconteceria e eu viveria feliz para sempre. Não é assim. O andar correto é só um bem estar interno. E põe interno nisto! Não é objeto de reconhecimento ou elogio de outros nem impede que aconteça o que tem que acontecer. Ao contrário acontece de tudo e quanto a elogios já ouvi coisas espantosas como “você tem síndrome de vestal! Todo mundo faz isto!” Ou seja, fui chamada de boba, ingênua.
Mas já lá estou eu divagando por outras paragens. Falava era do medo da morte. A gente sabe que ela vem. Para todos. Por que o medo? Não é alguma coisa que pode acontecer. É o que vai acontecer. Ter medo da vida é outra praia. Ela teima em acontecer todos os dias, muito diferente do que planejamos. De certo modo é difícil para todos. Mais para alguns, é verdade, o que é profundamente injusto. Mas paradoxalmente a vida é também pra lá de boa. Gostosa de ser vivida se, além de percebermos as vitórias que conquistamos e que ninguém vê, formos capazes de nos dar conta de que coisas boas até acontecem. Quem sabe a morte será assim também?
No momento em que escrevo a mangueira está agitada pelo vento. Mas não me parece aflita. Balança de acordo sem que os galhos se quebrem. Ela tem a intuição de que se for se meter nessa luta inglória contra o vento vai se machucar. Não é que ceda a qualquer coisa. Não! Tanto que está em pé, sabe-se lá há quantos anos. Tenho aprendido muito com ela. Afinal, centenária como é, parece bem mais moça do que eu. E olha que deve ter passado por poucas e boas, permanecendo viva entre dois prédios, coberta da poluição dos carros, podada sem dó nem piedade quando alcança um fio ou uma janela e que mais sei eu.  E o que é mais espantoso, apesar dos pesares, reveste-se de novas folhas sempre. São de um verde mais claro que vai escurecendo à medida que o tempo passa. As coisas boas – as novas folhas – durante algum tempo são destaque. Depois se incorporam às antigas e eu não consigo mais identificá-las. A mangueira absorve o novo, o bom. Guarda lá dentro dela. Só pra ela. Sabida, né?  Se vai morrer um dia? É mais que provável. Bem depois de mim, acredito. Mas não vejo qualquer preocupação com isto por parte dela. Vive produzindo vida. Nunca vi nela um movimento autodestrutivo, embora a destruição esteja à sua volta. E oferece mangas em profusão para delícia dos micos e dos passarinhos que delas se apoderam antes de mim.
É isto: a mangueira sabe conviver com a cobiça de seus não iguais. A gente às vezes dá nó em pingo d’água para conseguir isto. De coração agradeço o folheto. Sei que a intenção foi boa. Mas não me serve de muito. Nem de pouco. Quero, sempre quis, vencer a vida. E nisto, no todo dia, a mangueira me ajuda mais. Quanto à morte, a minha, creio que será mais impactante para quem me gosta do que para mim. De qualquer modo não é coisa que eu possa treinar ou aprender. Vai ter que ser de improviso na horinha dela.
2006


terça-feira, setembro 17, 2013

O BELO NA DESTRUIÇÃO

Choro pouco sei eu lá por que. Tristezas e emoções existiram e existem, como para todo mundo, mas raramente me fazem chorar. Acho que são resquícios da educação espartana da Fraulein com seu enérgico “ich gebe zu weinen!” tão logo o meu rosto armava uma expressão de choro. É verdade que esta expressão era esboçada com freqüência e hipocritamente na tentativa de comovê-la a ponto de me liberar das tarefas e obrigações que me impunha. 
Não importa: o fato é que não choro e até invejo os soluços sentidos de vários amigos meus que escuto no escurinho do cinema. Mas existe em mim, quem sabe também causado por Fraulein,  um sentimento recorrente que me ataca nos momentos mais estapafúrdios criando sempre um enorme mal estar: a culpa. Sou sempre culpada! Todas as vezes que desembarco numa alfândega morro de medo achando que vão me pegar ainda que nunca, mas nunca mesmo, tenha ousado escamotear o que quer que seja. Se no volante de um carro escuto um apito, tenho certeza de que é para mim. “Alguma eu devo ter feito”, penso. Se um amigo ou amiga some por uns tempos e não consigo entrar em contato, imagino logo: “aprontei alguma!” 
Mas a maior, a mais monumental das culpas me vem do belo que consigo ver, por vezes, em uma enorme destruição. Volta e meia isto ocorre e a estética, descolando-se da ética, me faz ver maravilhas no que, na verdade, é um horror. Hoje acordo com um mail a mim enviado por um grande amigo mexicano com fotos da destruição causada pela erupção do vulcão Chaitén, no Chile. Deslumbrantes! Diante de cada uma delas, dentro de mim, uma seqüência absurda de pensamentos se encadeou: lindo! Que horror. Não posso estar achando isto bonito! Ai, que beleza! Olha só esta cidade coberta de cinzas! Coisa mais linda. Como é que eu posso pensar isto? Meu Deus do Céu! Olha só a beleza das cores desta lava que escorre sobre a plantação! Cruz, credo vou parar de ver isto. Vou mandar para o Tosta (um amigo e talentoso pintor) ele vai adorar. É um quadro informal! Tão belo! Belo?! E isto durou um longo tempo sem que eu conseguisse parar de ver. Guardo, não guardo; arquivo não arquivo... arquivei! 
E, sem aviso, me vem à memória o mais triste, muito triste. A imagem tenho dentro de mim perfeita, com cores e cheiros como se acontecendo agora. Tinha eu dezoito anos e a vida era mais que gostosa. Noiva, prestes a casar e a me mandar para a Base Aérea de Natal que prometia ser um lugar onde coisas maravilhosas aconteceriam. Estava eu no sítio, em Miguel Pereira, passando minhas últimas férias de solteira. Sou acordada na madrugada por umas batidas na janela. Era Landico, um dos filhos mais velhos do Zinho e da Luiza, ele empregado do sítio; ela a cozinheira. Landico era (eu em segredo o intitulava assim por achar chiquérrimo) meu cavalariço. Ninguém sabia disto e muito menos ele, mas mesmo assim agia como se fosse. Sua voz alarmada me diz: “é melhor você ir até as cocheiras. Dream piorou”.
Saltei pela janela do jeito que estava e corri desabalada. Dream estava deitado no chão da cocheira, arfando. Sentei-me no chão e ajeitei sua cabeça no colo: levanta, Dream. Levanta. E ele tentou. Sei que tentou, mas não conseguiu. Imploro a Landico: Vai! Corre lá na remonta e traz o veterinário. Já! Landico desaparece e eu sossego Dream: vai passar, meu bem, vai passar. Acho que fiquei ali muito tempo. Não sei quanto. Ouço a voz do veterinário: deixa eu examinar, menina. Recuso-me a largar a cabeça: examina comigo aqui mesmo. Ele precisa de mim. Não está vendo?
O exame dura pouco e ele se afasta dizendo o que eu já sabia: tem que sacrificar. Ele não vai levantar. Em pânico digo a Landico: busca seu Teófilo. Já!  Seu Teófilo, o sábio que já o havia salvado uma vez com uma garrafada. E Seu Teófilo chega e rodeia aquele corpo abandonado no chão. Apalpa dali, apalpa daqui, chega à cabeça e me olha com tristeza: vai arribar não, fia. Deixa o moço aqui cuidar disso. O veterinário já está preparando a seringa. Dream olha para mim e eu entendo o que quer. Estendo a mão para pegar aquela horrível seringa e peço que saiam. Ninguém discute.
 Eles saem e um raio de sol entra iluminando a cabeça de Dream, no meu colo. Linda, tão linda. Está tudo tão bonito, eu penso enquanto enfio a agulha couro tão duro, sentindo o cheiro da serragem. O sol inunda a baia. Manchinha, a égua crioula, na baia ao lado observa. Tá olhando o quê? – pergunto – você nunca, nunca vai chegar aos pés dele. O veterinário entra e ausculta. Acabou, diz ele. A palavra não faz o menor sentido. Como acabou?! Fico ali ainda algum tempo. Penso: o pelo está brilhando tanto! Hoje não vai ser preciso escovar. Levanto-me e apago a luz.
Entro em casa e vejo todos na mesa do café. Os tios e a avó me olham esquisito. Preciso dizer alguma coisa antes que falem o que eu não suportaria ouvir. E eles se aquietam e sei que me entendem quando digo: o dia está lindo! O mais bonito deste verão. E, bendita família, ninguém estranha nem comenta eu estar tomando café de pijama.  

2008


segunda-feira, setembro 16, 2013

AMOR DE PERDIÇÃO

O título é de um livro de Camilo Castelo Branco, escrito lá pela segunda metade do século 19. Havia um subtítulo – Historia de uma família. Eu o havia acabado de ler por imposição da Tia Escritora. O ano era o de 1944 e o mês, janeiro. Benditas e desejadas férias. E eis que estava para ocorrer comigo uma história de amor e perdição em pleno século 20! A família chegava em vários carros. Nesta época já havíamos abandonado o trem. Os outros sitiantes também aportavam, senão no mesmo dia, com poucos dias de diferença.
Naquele janeiro quando paramos em Vera Cruz para café e sorvetes encontramos, também subindo a serra, o General Amaral e seus dois filhos. Meu coração bateu forte quando Hugo, o mais velho, lindo de morrer e de minha idade, falou baixinho: amanhã, 10 horas. Na parede do paiol. Quero ver você. A forma telegráfica e a boca lambuzada de sorvete estavam longe de sugerir um romance, mas o falar baixinho e o olhar não deixavam dúvidas.
No ano anterior ele não murmurava. Gritava de longe para que todos escutassem: na parede do paiol Vou descer às dez!  O descer significava que demandaria nosso sítio pelo morrinho cujo cimo dividia as duas propriedades. Dali íamos cavalgando até a estação para encontrar a turma. Éramos ambos apaixonados por cavalos. Eu, iniciada na arte equestre por meu Tio Cavaleiro e ele pelo pai, General de Cavalaria. 
Naquela À noite, em meio à cortina de fumaça dos cigarros da família, não consegui me ligar na conversa animada depois do jantar. Nem mesmo um dos costumeiros ataques de fúria do Tio Pediatra prendeu minha atenção: só pensava no “encontro” do dia seguinte. O murmúrio havia despertado paixão e emoção pela antecipação do que certamente iria acontecer. Custei a dormir, preocupada: tinha que acordar cedo para lavar os cabelos e me empenhar na luta inglória de deixá-los lisos como os de Verônica Lake.
Mal tomei café. Deixei de lado o pão com manteiga já que naquele dia não podia engordar nem um grama. Pouco antes das dez corro para a parede do paiol e começo a ensaiar a pose que seria vista lá de cima por meu cavaleiro andante. Decidi por me colar em pé ao longo da parede com uma das pernas ligeiramente flexionada sobre a outra. Ela, a Verônica, havia feito isto num filme. Vesga, pela impossibilidade de mover o rosto, que deveria ser visto de perfil contra a parede, o vejo surgir no alto do morro, despencando num emocionante galope. E eu lá imóvel.
Enlouquecido por minha imagem ele salta chegando-se a mim. Coloca os dois braços estendidos com as mãos contra a parede, emoldurando meu rosto. Meu coração dispara: ele vai me beijar! E ia, sim, mas antes disse: você enlouquece um homem! Deu-se aí a primeira tragédia! Espantada eu pergunto: que homem?! Felizmente ele desconsiderou minha infeliz pergunta ou não ouviu. Seu rosto se aproxima lentamente do meu. Quase desmaiando vejo com horror, por cima de seu ombro, o sorriso maroto do Tio Cavaleiro que profere um Oh lá! Oh lá! Interjeição usada para acalmar cavalos nervosos. Dou um grito e toda a cena se desmancha. Corremos ambos para nossos cavalos e saindo dali, apavorados.
Volto para casa, imaginando que o mundo iria desabar sobre minha cabeça. Um espanto: nada acontece. Fazia um calor terrível e depois do almoço, já tranquila e evitando olhar para o Tio Cavaleiro me acomodo no banquinho da Avó colocando a cabeça em seu colo. O amor desabrochava e eu estava feliz. Para minha desgraça começa a desabrochar também a perdição! 
Num tom doce escuto a voz marota do Tio Cavaleiro: acabou meu cigarro. Anna, meu bem, vá à cidade comprar. Indignada, respondo: era só o que faltava! Eu não... Estarrecida não acabo a frase ao ver que ele estende os dois braços para frente na mímica do meu primeiro momento de amor. Minha avó intervém: ora, meu filho, está um calor terrível. Esta menina acabou de almoçar. Pede um cigarro a um dos outros. Cínico ele sorri: ela vai, mamãe. Está morta de vontade de dar um galope neste sol, não é, linda? Humilhada, concordo: é...  Deixo a sala revoltada. A caminho das cocheiras escuto o pandemônio que se estabeleceu pela fúria do Tio Pediatra que viu no diálogo um bom motivo. A perdição havia vindo pra ficar: virei escrava.
Embora o namoro tivesse seguido seu curso eu não conseguia me livrar do jugo do tio que usava e abusava da mímica da cena de amor para me explorar. Nunca escovei tanto cavalo! Até que o dia em que me insurgi durante o jantar: ele queria comer a codorna que me cabia! Foi demais! Em desespero me levantei e despejei um discurso inflamado, emudecendo a família: dane-se. Conta tudo se quiser. Olha ai todo mundo! Eu estou namorando o Hugo Amaral e ele ia me dar um beijo e Virgílio viu e ficou ameaçando contar. E vocês todos fiquem sabendo que eu vou continuar a namorar o Hugo mesmo que me matem. E ele já me deu beijo, sim. Uma porção. Viu? Viu? Pronto! Para meu espanto, no silêncio, a Avó decreta: Ela está namorando e não se fala mais nisto. E você, mocinha, não me passe dos limites. E, sorrindo terna para o filho preferido: Chantagista!  O Tio Pediatra murmura entre os dentes: vergonha! A que ponto chegamos! O Tio Jogador vê a possibilidade de mais um parceiro: ele joga bridge? A Tia Madrinha me olha com ternura. O Tio Cavaleiro me faz uma careta malcriada e o Pai apenas sorri piscando o olho para mim. E a paz inunda meu coração. 

2010

domingo, setembro 15, 2013

TECNOLOGIA JAPONESA

Naquela época tecnologia ainda não era assunto que, como hoje, até crianças dominam. Lembro-me que nos maravilhávamos com o radar e o sonar, surgidos na guerra que nos pareciam o mágico invisível varando céus e mares. Estávamos no final dos anos quarenta. Recém admitida no grupo dos adultos, prestes a casar, já considerada um membro opinante, tomei parte ativa na séria decisão que se pousava naquele verão: importar uma família japonesa para plantar, de meia, tomates no sítio.
Até hoje não sei por que razão isto se deu: se era apenas mais uma novidade ou se era necessário garantir um aporte financeiro para a manutenção do sítio. Esta última – creio - jamais seria confessada. Dinheiro sempre foi considerado assunto de profundo mau gosto, jamais verbalizado no fórum presidido por minha Avó. Outras tentativas de produção haviam precedido a esta sem o menor sucesso. Uma delas, a criação de coelhos - funesta iniciativa minha - sucumbiu face à espantosa proliferação dos mesmos e a minha recusa em vendê-los ao açougue. Quando chegou ao ponto de “ou coelhos ou nós” tive que me livrar deles, aos prantos.
Mas voltando à família japonesa e aos tomates. Eles chegaram, creio que direto da Ilha das Flores, e sem falar uma palavra de português. Saito e Kani - o casal – traziam consigo os filhos Tetuo, Namiko, Tioko, Euxico e Eukiko. Aqui vale um parêntese: um ano depois da chegada, Kani apareceu grávida e, ainda não dominando bem o português, nos consultou sobre o nome a ser dado ao novo rebento que sucederia, na ordem, à bela menina Eukiko. Meu irmão sugeriu Tu Quicas e acho até que seria aceito não fosse a intervenção indignada da família que impediu este absurdo.
A instalação dos imigrantes e a negociação para o início da plantação foi complicadíssima. Tínhamos como interprete, um japonês de uma fazenda ficava bem distante do sítio, que passou dois dias intermediando as parlamentações que resultaram numa lista quilométrica de apetrechos e instalações necessárias à plantação dos tomateiros. Lembro-me que o “indispensável” rotulava alguns itens sendo, um deles, a construção de um galpão para armazenar as caixas dos tomates colhidos que iriam aguardar o transporte. Este, entre outras especificações, deveria ser dotado de um teto de telhas de alumínio.
E foi ai que entrou a tecnologia. Durante meses louvamos e admiramos o conhecimento japonês contrapondo-o a ignorância de nossos trabalhadores rurais tupiniquins. Impossibilitados de obter esclarecimentos pela barreira da língua, desenvolvemos diversas teorias a respeito do efeito de telhas de alumínio sobre tomates recém-colhidos. Discussões intermináveis respaldavam a tese de cada um: temperatura, luminosidade, grau da umidade e que mais sei eu.
A competência de Kani e Saito foi atestada pela horta que surgiu como num passe de mágica, em tempo recorde, garantindo o “da horta para o prato” a cada refeição. E lá vai outro parêntese para que eu relate um fato que era profundamente divertido: diariamente minha mãe ou uma de minhas tias ia buscar as verduras que seriam servidas no almoço e no jantar. No momento em que chegavam à horta, acompanhadas de uma Kani sorridente, iniciava-se um discurso estranhíssimo. Ajudadas por mímica expressiva, num tom de voz muito agudo e falando sincopado, sem o uso de qualquer conectivo, eliminando ainda algumas letras, elas formulavam frases como estas: alface... vedinha... .folha gaaande... muito. O “gaaande” era ilustrado com um gesto de amplitude espantosa que indicava folhas de alface monumentais. A palavra pimentão era dividida em sílabas que tomavam um tom de crescente intensidade terminando sempre numa exclamação entusiasmada de vitória: pi – men- TOM! E inexplicavelmente chuchu se transformava em “sussu” sempre pronunciado duas vezes, sabe-se lá por que. Abóbora era sempre “vemelinha”. E para coroar, as frases sempre terminavam por uma negativa interrogativa: no?
Mas o problema da tecnologia foi outro. A plantação já frutificava com espantoso sucesso dando a nós e ao casal lucros nunca imaginados quando Saito começou a dominar a língua portuguesa com total maestria ao contrário de Kani que havia sido para todo sempre prejudicada pelo estranho dialeto criado por minha mãe e minhas tias. E eis que chega o dia em que finalmente iríamos elucidar o extraordinário efeito das caríssimas telhas de alumínio.
Convoca-se Saito à casa e solene meu tio cavaleiro faz a pergunta: Saito, qual a influência das telhas de alumínio nos tomates colhidos? É a temperatura, não é? E, já se sentido vitorioso, ele olha para os demais esperando ver atestado o acerto da hipótese que havia formulado, contrapondo-se às demais. Saito abre um radiante sorriso, fornecendo a explicação que nos deixa a todos furiosos, face ao preço que havía sido pago elas malditas telha: Efeito nada! Tomate nem liga! Tomate fica qualquer lugar qualquer jeito. E prossegue encantado: Mas telha alumínio manhã quando o sol bate “bilha, bilha”! Muito lindo, no? 


2008

sábado, setembro 14, 2013

BELA, BELA VIDA

Ver um desfile de escolas de samba?!!! Nem morto! Além do espanto que me provocou a enfática declaração do amigo, fiquei triste. Chegando em casa ainda não havia atinado o porquê da tristeza. Foi só depois de passar algumas horas escutando Satie e comendo torradas com “sauce aïoli” num absurdo musical-gastronômico, que me dei conta.
Ouvi, pela voz da memória, a voz de meu pai dizendo o que eu deveria ter repassado a este amigo: experimenta. Se você não gostar não faz mais. Mas se gostar é mais um prazer que vai ter na vida. Foi primeira vez que a escutei, mas não seria a última: eu estava olhando com emoção o enorme cavalo branco de crina e cauda “platinum blonde”. É um campolino e chama-se Coringa”, disse meu pai, e é seu. Meu?! Daquele tamanhão todo! Era evidente que esperava meu pai que eu me dispusesse a montá-lo. Tudo bem, pensei. Papai vai comigo. Até os quatro anos era assim que eu montava, enganchada frente a um adulto. E vai daí que sorri encantada dizendo: vamos, papai. Tremi ao me dar conta de que ele não viria. Ficou evidente que do ponto vista dele minha avançada idade não mais justificava a dupla montaria! Eu teria que ir sozinha. Recuei, mas tive que encarar levada pelo sorriso que acompanhou a voz firme: “experimenta...“
E foi assim que Coringa entrou em minha vida pra ficar. Um companheirão. Amigo de fé e incondicional até que se foi, bem velho, depois de gozar durante anos uma aposentadoria mais que merecida pelo muito de prazer que me deu. E pela vida afora foi um desfilar de desafios Coringa. Primeiro vinha o medo, a insegurança e depois aos poucos o prazer da coisa nova, diferente, gostosa, instigante. O “experimenta” passou a ser uma voz interior que me impulsionou e ainda me impulsiona. Algumas vezes não gosto do resultado e sigo o conselho até o fim: não faço mais. Mas quando gosto, e isto acontece na maioria dos casos, vou acumulando novos prazeres.
Detestei jogar buraco (que me dava sono), mas me apaixonei por bridge e pôquer. Voar de planador foi um dos maiores prazeres que já tive na vida. Futebol passou a ser um programão. Detestei caçar onça na Serra da Mantiqueira e dormir no acampamento no meio da mata com a barraca invadida por lesmas vindas depois de um temporal. Mas foi nesta mesma mata que me maravilhei com a cadela onceira que só faltava falar. Achei divertidíssimo participar de um rali Brasília-Goiás Velho como navegadora e perceber que tinha jeito pra coisa.
Fiquei em pânico ao ver o Circo Voador lotado e eu tendo que cantar e dizer textos sobre Noel Rosa, encarando aquela multidão. E, de repente, comecei a achar que havia nascido praquilo que me valeu um episódio divertido: o gerente de minha divisão chamou-me para atender uma autoridade do Governo do Rio de Janeiro. No que entrei o homem me olhou com estranheza e à horas tantas não se conteve e declarou: tem uma cantora no Circo Voador que é muito parecida com a senhora. Engoli em seco e informei que já me haviam dito isto. Uma analista de sistemas cantora poderia ser de confiabilidade duvidosa, quem sabe.
Encarei num jipe a Belém-Brasilia quando apenas começava a dar passagem. Tremi e depois relaxei e até gostei de enfrentar uma platéia de fazendeiros enfurecidos e armados, em Ponte Alta do Norte em Goiás (hoje no Tocantins) que vociferavam contra o Estatuto da Terra, sobretudo no que tocava ao Cadastramento Rural. Ensandecidos eles gritavam: isto é comunismo! Sei lá eu como consegui sair desta entaladela, mas saí, embora tenha certeza de que não os convenci da inexistência de minha estreita ligação com Moscou.
Consegui me divertir imensamente quando indígenas Tapirapés que nunca tendo visto uma mulher branca resolveram conferir - por apalpação!!! - se eu era mesmo uma mulher enquanto um padre francês me dizia numa voz doce: haja naturalmente. São como crianças. Foram muitas as experiências e todas válidas mesmo que não deseje repetir algumas como, por exemplo, comer macaco: juro que nunca mais o farei.
Foi tudo isto que me levou ao espanto ao ouvir a declaração do amigo: nunca viu escolas desfilarem e não gostou! Como é que pode? Como é que alguém pode saber se não gosta se não fizer? Por que se negar à possibilidade de mais um prazer na vida? Coisa esquisita esta. Esquisita, mas comum. Quem sabe por isto a velhice pesa tanto para alguns. Por que inexoravelmente ela vem e quando se instala não dá mais tempo para experimentar algumas coisas. E aí surge aquele pensamento cruel e sem saída: ah! Se eu tivesse...
 Aproveitar o tempo no tempo é indispensável. “Time” não é “money” não, é vida! Aqui um parêntese: no que me toca quanto mais “time” menos “money”.  Pode ser até que este meu amigo fosse detestar assistir ao desfile. Mas ele poderia sair antes de acabar se definitivamente não gostasse, não poderia? Adquirindo assim o direito de dar uma opinião lógica: vi e não gostei. Restringir prazeres não é uma coisa sensata. Não é mesmo. Fizesse eu isto não saberia que tanajura frita tem gosto de amendoim. Convenho que isto não é de importância vital.  Mas o gosto da tanajura frita somado a mil outros prazeres faz com que esta tenha sido e continue a ser uma bela, bela vida.
2006

sexta-feira, setembro 13, 2013

SUBSTANTIVO ABSTRATO?! IMAGINA!

Raro dia em que não me chega uma apresentação em Power Point, escorrendo mel pela tela. E raramente as leio, mesmo por que quase sempre são correntes que me fazem ameaças terríveis caso não as envie a, no mínimo, doze pessoas. O por que deste número cabalístico nunca entendi. Mas eis que outro dia o título de uma me chamou atenção e resolvi ler: falava de saudade. E terminava me informando que saudade é o amor que fica. Bonito, né? Mais que isto verdadeiro. É quase sempre amor e vem pra ficar, sim. Me dou conta de que saudade está longe de ser um substantivo abstrato.
Saudade é pra lá de sólida. Os cinco sentidos são por ela estimulados o que não aconteceria se fosse abstrata. Saudade existe em minha vida. E me transporta para um mundo mágico, para um lugar deliciosamente bom. Uma das mais antigas é a de meu cavalo Dream Boy comendo cenoura. Sentada em cima da baia eu me fazia conviva daquele banquete tão colorido. Era incrível. Vinha-me a vontade de comer também e eu morria de inveja porque não conseguia sentir igual prazer ao mastigar uma cenoura. Conduzidos pelo incrível som da mastigação prazerosa os demais sentidos acordavam: minha mão deslizando por sua crina, meu olhar maravilhado pelo seu porte majestoso, o cheiro de serragem tomando conta da cocheira. Ficava faltando o gosto. Cenoura nunca foi para mim o que era para ele. Pena!
Dream Boy é responsável por muitas saudades. Do vento, por exemplo. Sei lá eu por que, nós (ele e eu) gostávamos de galopar no cocuruto do morro, contra a ventania que precedia a chuva. Sólido o vento, sólida nossa luta. Por que era uma luta. O vento era o inimigo e contra ele nos jogávamos intrépidos. Da casa vinham gritos: sai daí menina maluca! Os raios vão começar a cair. Ao som do primeiro raio desabalávamos morro abaixo, chegando às cocheiras encharcados e rindo muito. É... Dream ria... Sei que é difícil acreditar, mas ria. Dream era um cavalo ser humano.
E a saudade do barulho quase imperceptível das cobras no túnel de bambu, à noite? Quase sempre cabia a nós dois buscar os pães que saiam na primeira fornada da noite na padaria do então vilarejo de Estiva, hoje uma cidade: Miguel Pereira. O túnel de bambu, que hoje ainda dá acesso à casa, mesmo em noite de luar era muito, muito escuro. Dream escutava o mover das cobras bem antes de mim. Então diminuía o trote e orelhas esticavam-se para frente. Aí ele soltava o ar num resfolegar discreto para chamar minha atenção para o perigo. E eu dizia: tô escutando. É cobra, sim. Mas tudo bem!  Ciente de que eu havia percebido seu alerta, sossegava e voltava ao trote. Ele sabia que juntos éramos imbatíveis.
Nesta saudade engata outra do que acontecia na seqüência da busca dos pães: a ceia das dez horas. Família reunida na mesa, o chocolate quente, às vezes gemada com vinho do porto e as conversas. Ah! As conversas! Outro engate: o sono que vinha manso como hoje não vem. E coroando tudo o cheiro da água da colônia inglesa de meu pai me dando boa noite Eu já na cama; eu já quase dormindo. No escuro, através da porta, abafadas, as vozes da sala vinham fabricando segurança. Tanta que o sentido do que diziam não importava. O som de todas elas, tão queridas, tão especiais, tão denunciadoras de seus emitentes me assegurava que o mundo era perfeito e que entre cavalos, pais, avó, tios e primos a vida era bela.
E Babá? A voz dizendo minha nega mesmo quando já “babasando” meus filhos. E eu voltava a ser aquela de então na vontade irresistível de pular para aquele colo tão confortável e protetor. Quando ela se foi eu já tinha uma neta e a vontade de pular para o colo era a mesma.
E por fim, e definitiva, a voz de meu filho mais velho, aos quatro anos, na incredulidade do que seria a morte: mas eu não posso ir agarrado na sua perninha? Não posso guardar sua cabecinha? Naquele tempo eu não soube dizer a ele que de certo modo eu ficaria presente na saudade. E como é eu podia saber que seria ele, e não eu, a ficar como saudade? Naquele tempo eu havia vivido tão pouco que saudade não tinha vez. Depois passou a ter. Não fiquei com a cabecinha dele, nem agarrei a perninha. Mas não é que ele ficou? Na voz, no cheiro, na imagem tão nítida de ter se tornado, estranhamente, meu filho mais moço. Numa saudade tão grande que tornou impossível competir com as outras.

E foi aí que tudo se juntou numa saudade só. Única. Como pode ser abstrata? Se tem tamanho, cheiro, imagem, cor, voz e presença? Se me acompanha no todo dia formada pela voz de meu filho, por Babá que me põe no colo, pelo perfume de água de colônia inglesa que traz meu pai para perto, pelo som de Dream mastigando cenouras? E desta imensidão de saudade me vem uma certeza: ainda que cobras se escondam entre os bambus da vida eu consigo ouvir Gonzaguinha se juntando a vida, Ele que sabia das coisas e da beleza de ser um eterno aprendiz. Com ele, tão sábio, aprendi que a vida devia ser bem melhor. E será? Mas isto não impede que eu repita. É bonita, é bonita, é bonita.

quinta-feira, setembro 12, 2013

A ATUALIDADE DA LIÇÃO DE MONTGOMERY

A senhora está autorizada? A pergunta da mocinha sorridente, mal sabe ela, dá um novo colorido à vida.  Esqueço-me do que ali vim fazer e me espanto! É isto! Havia me esquecido de que, como cidadã, sou “autorizada”. E que sentimento bom é este. Digna de reconhecimento e respeito podendo e devendo cobrar o que me é devido. O mal estar causado pelos últimos acontecimentos parece diminuir. Como Luther King eu tenho um sonho: imagino os passantes, povo como eu, portando, cada um deles, um cartaz colorido que os identifica: “eu sou autorizado”. Autorizado a falar, a cobrar, a exigir o que nos é devido.
Creio que, também como eu, de há muito ninguém se dá conta de que esta autorização existe. Impotentes nos vemos frente à tela ouvindo o tom raivoso de autoridades que execram a conduta de policiais que exorbitam como se nada disto lhes dissesse respeito. Colocam-se absurdamente como um de nós, estarrecidos e surpresos com a ferocidade dos atos, como se estes não houvessem sido gerados por sua administração, pela política de “enfretamento” que, orgulhosos, divulgam em prosa e em verso no inicio de seus governos. Bandido bom é bandido morto! Só que  esqueceram de treinar esta catastrófica tropa na abordagem destes bandidos. Vai daí que “enfrentam” atirando a torto e a direito. E podia ser diferente? Se nem o Governador foi treinado para exercer o cargo, o que esperar do preparo de um soldado da PM?
A incompetência, gerada por nomeações políticas, desconsiderando a capacidade técnica exigida pelos cargos, que já vinha trazendo imensos prejuízos, agora produz vítimas. Por muito menos ministros e até presidentes em priscas eras deixavam o cargo, envergonhados por sabedores que eram da responsabilidade que lhes cabia. Conheciam eles um dos princípios básicos que rege a ocupação de um cargo de direção: responsabilidade não é delegável. Se esta falha ocorre se impõe resignar, envergonhado, pedindo desculpas.
O pior é que além da incompetência, me parece, existe também a burrice. A palavra é grosseira, eu sei, mas o primarismo das explicações e declarações feitas a denunciam e impossibilitam o uso de outra mais leve. E, como já disse ao início, hoje estou me sentindo autorizada. A declaração dos dirigentes de que muito têm feito, muito tem trabalhado, muito tem produzido, me remete a um “causo” ocorrido há muitos anos, na Inglaterra.
Corria a segunda grande guerra e Montgomery enfrenta com maestria a campanha da África contra forças muito mais poderosas do que as que dispunha, saindo vencedor. Embasbacada a imprensa aliada o entrevista buscando descobrir qual o segredo. Convicto ele declara: “o desempenho de meus oficiais”. Ai outro mistério se apresentava: como em meio aquela terrível guerra, que gerava uma enorme quantidade de baixas, ele conseguia obter, a tempo, os substitutos que garantiriam a manutenção de um corpo de oficiais de notável desempenho?
E, para pasmo de todos, veio a explicação, de uma simplicidade meridiana, mas de imensa sabedoria: sempre baixas ocorriam e exigiam substituição imediata ele solicitava ao Comando Central que lhe enviasse os possíveis substitutos acompanhados de sua folha de serviço. Esta, como de costume em todos os exércitos, era extremamente detalhada mostrando todas as realizações e trabalhos feitos ao longo da vida militar. A simples leitura permitia a Montgomery classificar os candidatos em dois grupos, assim nomeados: trabalhadores e vadios.
Após esta leitura e classificação, Montgomery fazia com que cada pretendente passasse 24 horas colado a ele conversando sobre assuntos os mais diversos. Isto levava a uma segunda classificação: inteligentes e burros. Isto feito encontrava-se ele munido de quatro binômios que atribuídos de acordo suas observações permitiam encontrar o lugar perfeitamente adequado para cada candidato visando o melhor desempenho.
O Inteligente Vadio era talhado para agregar-se ao Estado Maior da Tropa onde certamente teria brilhantes idéias que permitiram conseguir a melhor estratégia de ação... e muito pouco trabalho. O Inteligente Trabalhador mostrava-se o mais adequado para exercer funções de comando de tropa onde o trabalho era insano, além de exigir decisões acertadas que deveriam ser tomadas tempestivamente. O Burro Vadio era perfeito para fornecer a massa mínima de oficiais necessária para repassar ordens superiores sem discuti-las. Mas o Burro Trabalhador era imediatamente devolvido, banido, rejeitado.
É inimaginável a quantidade de absurdos que é capaz de cometer em tempo recorde e antes que se possa impedir - disse Montgomery - é a classificação mais danosa que pode ocorrer em uma instituição. É um elemento de extrema periculosidade.
Munida desta “autorização” que hoje me confiro gostaria de exigir a adoção de um sistema similar para o preenchimento dos quadros governamentais em todas as esferas. Infelizmente me deparo com uma enorme impossibilidade: quem faria o papel de Montgomery já que os que poderiam selecionar os demais parecem estar incluídos na pior classificação?!


2008

quarta-feira, setembro 11, 2013

SER MÃE...

Será que há algo de errado comigo-mãe? Jamais consegui me enquadrar em qualquer das manifestações de escritores, poetas e compositores infinitamente mais importantes e mais sábios do que eu, quando completam com belas frases as reticências do título. No meu “ser mãe” sou bem diferente do que descrevem. Isto me aflige. O que me embatuca é o “desdobrar fibra por fibra”. Nunca fui capaz deste desdobramento. Que tipo de mãe sou eu? Só mesmo meus filhos podem dizer e eles não disseram nada, até hoje. Vai ver até comentam isto com alguém ou mesmo entre eles. Mas não me informaram, não. Como são muito legais comigo acredito que não tenha sido catastrófica como mãe.
A memória acaba de fazer das suas: uma vez me foi dito, sim. E por escrito!! Tinha meu filho mais velho uns cindo anos e orgulhosamente chegou do colégio com o primeiro “dever de casa”. Não aceitou ajuda e trancou-se no quarto para responder, entre outras, uma importante questão: cite três objetos úteis. Aguardei ansiosa, o resultado. Afinal era um marco em sua vida. Sua primeira tarefa profissional. Radiante, ele veio me mostrar o caderno. E lá estavam, relacionados com a enorme letra redonda, os três objetos úteis: mãe – faca – pote. Passado o primeiro espanto me veio um monumental alívio: o medo de não estar à altura para conduzi-lo vida afora, que eu havia sentido no dia de seu nascimento e que ainda permanecia, não era justificado. Eu, num honroso primeiro lugar antecedendo a faca e o pote, era útil para ser acionada sempre que necessário. Disponível para pegar e usar! Era assim que ele sentia e era e é assim que eu me queria como mãe. Acho que a professora corrigiu com aquele X vermelho. Eu não o teria feito. Senti-me muito confortável e orgulhosa precedendo a faca e o pote.
Os outros dois filhos nunca me deram pistas como estas. Vai ver o mais velho avisou: usem e abusem que ela gosta. Mas voltando ao “desdobrar” que desemboca no “sofrer num paraíso”. Nunca estive lá nem cá: ou seja, nunca sofri ou me vi no céu por conta deles. Todas as vezes que estou lá ou cá - e acontece - é por minhas próprias artes. O que eles me dão é um enorme prazer.  Sinto-me como uma galinha que botou um ovo de pato. As criaturas suplantaram a criadora e não a devoraram. As fibras, se é que se desdobraram, o fizeram para gerar uma melhor forma e dar um melhor conteúdo ao que foi criado. Neste sentido concordo com a frase. Foi um senhor desdobramento.
Houve aflições é claro. Não por “causa” deles. Ou seja, eles não foram os “causadores”. Que culpa teriam de febres, cólicas, dor de ouvido, tombos, momentos difíceis que passaram e ainda passam, nos quais minha utilidade nem sempre foi ou é competente para socorrer na medida que precisam? Nenhuma. Sobressaltos também houve. Sobretudo com o mais moço. Fazer o quê? Lembro-me de um dia em que comprava peixe fresco na porta de casa em Salvador: aos dois anos, encarrapitado no muro, ele observava, sabe-se lá maquinando o quê. O peixeiro depois de olhá-lo com atenção disse: Dona, eu tenho um russinho desses lá em casa. Isto não vale nada!
O “russinho” é hoje um homem nos quase cinqüenta. Sobrevivemos às suas peripécias. Era como viver perigosamente entre duas facções inimigas em constante litígio: ele de um lado e os irmãos mais velhos do outro ameaçando escalpelá-lo. Convenho que tivessem certa razão. Hoje, até os sobressaltos me dão saudade. Mas não havia “padecimento”. Os espectadores de suas aventuras, na época, afirmavam que era eu a causadora de tantos episódios emocionantes: temporão é assim. Você está criando como um filho único. Que bobagem! Os três sempre foram únicos. O pescador tinha razão. Russinhos são assim mesmo: tornam qualquer início de dia uma expectativa emocionante do que vai ocorrer. Era lá o jeito dele e torcer pepino nunca foi minha especialidade.
Sempre achei que filhos têm personalidades bem marcadas desde que nascem e que me foram dados em consignação para cuidar, tratar, mostrar o que existe de bom neste mundo. Coisas para se fazer, curtir e aprender, até que pudessem se cuidar sozinhos. Ai eles mesmos escolheriam o que lhes serviria, o que lhes daria prazer. Não eram, nunca foram meus. Pertenciam a si mesmos e, até que pudessem entender isto para viver com um mínimo de perigo (porque perigo sempre haveria) e com um máximo de integridade, eu teria que me ocupar deles.
E um belo dia isto aconteceu com cada um deles. A hora de se mandar. Então foi deixar ir. E não é que foram voltando?! Bem diferentes no diálogo quando passam para um cafezinho ou vêem jantar, se eu me disponho a ir para cozinha e fazer o que gostavam no tempo em que comiam às minhas custas. Por vezes saio com eles e me comove o braço generoso que me dão em escadas, do mesmo modo que eu segurava as mãozinhas, às vezes geladas pela emoção, na saída de um cinema, de um teatro ou do parque. Ainda sou um objeto útil quando precisam dele. Mas hoje, acho, usam mais a faca e o pote. Que bom que é assim! 
2006


terça-feira, setembro 10, 2013

DA MILIMÉTRICA SUPERIORIDADE ESTADUAL

Fui surpreendida num belo domingo do carnaval de 2007 por uma das manchetes do O Globo: “O Governo planeja comprar camisinhas maiores”.  O que me encantou foi o verbo “planejar”. Nos tempos que correm este verbo não está sendo exercido por nossos governantes. A notícia era alvissareira, sobretudo para os estados da Bahia, Pernambuco e Tocantins. Sabe-se lá porque, nestes estados tornava-se imperioso que dois milímetros fossem acrescidos à largura das camisinhas distribuídas pelo Ministério da Saúde. 
Encantou-me também o fato (relatado pela notícia) de que o Governo não iria sair, açodadamente, acrescentando os dois milímetros aos preservativos. Ao contrário da prática atual do simplismo e imediatismo, apagando incêndios sem qualquer lógica, profundidade ou cuidado, iria estudar seriamente o assunto. Uma pesquisa seria feita para determinar se realmente existia público para preservativos desta dimensão. Esta pesquisa iria mapear a demanda e serviria de base para um projeto piloto que atestaria (ou não) a necessidade deste milimétrico acréscimo.
Não me entendam mal. Não estou de forma alguma fazendo graça com a distribuição de camisinhas. Se há uma coisa que é bem feita neste País, e mais que necessária, é esta medida que salva milhares de vidas enfrentando a censura e o poder da Igreja que inexplicavelmente as põe em risco. É mais que louvável e o Brasil tornou-se mundialmente notável por sua acertada política na prevenção da AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis.
O que me espantou foi o fato de que estes dois milímetros a mais eram  necessários em apenas em três estados da Federação. O que explicari este fenômeno? Será que a pesquisa iria esclarecer? Como estariam se sentindo os homens dos demais estados? Humilhados? Literalmente diminuídos? Esta humilhação seria confessada no questionário da pesquisa?  Por que é claro que teria que existir um questionário. Imaginar uma mensuração “in loco” ainda que por amostragem seria um absurdo de muito difícil operacionalização.
Segundo o Secretário Geral da Sociedade Brasileira de Urologia os homens pernambucanos, baianos e tocantinenses poderiam estar se sentindo desconfortáveis nestes preservativos com dois milímetros a menos. Portanto impunha-se uma solução. Na minha santa ignorância nunca havia imaginado que dois milímetros fossem de real importância no aparelhamento deste atributo masculino para suas funções mais nobres e prazerosas. Mas pelo visto eram. Mas por que, só anos depois da implantação desta muito bem feita distribuição de preservativos, surge esta reivindicação?
Habituada a analisar todas as variáveis possíveis de um dado problema, me pergunto: ocorreu um crescimento de circunferência nestes estados? E se existiu foi devido a quê? Sequer são estados fronteiriços e sequer têm as mesmas características étnicas, alimentícias e outras que tais. Que raios estaria acontecendo por lá? Vocês que me leem talvez façam o julgamento de não ser muito edificante e próprio que uma senhora de minha idade dedique tanto tempo e interesse a tal assunto.  E ainda mais que escreva sobre isto! Pode até ser. Mas estou fascinada, fazer o quê? Nos tempos que correm raramente a leitura do jornal me leva à reflexões intrigantes como estas.
Comecei a imaginar as soluções técnicas necessárias à elaboração deste questionário para que as respostas não viessem carregadas de viés motivado pela impossibilidade de superar a humilhação de ser portador de dois milímetros a menos. São Paulo curvando-se à superioridade de Tocantins? Inimaginável! Creio que as perguntas seriam mais ou menos formuladas como: você se sente confortável com 53 milímetros? Aqui é necessário que seja explicado para quem não leu a notícias que o tamanho reivindicado pela Bahia, por Pernambuco e por Tocantins é de 55 milímetros. Dois acima dos atuais 53. Acudiu-me uma dúvida: confortável talvez não seja a palavra mais justa para descrever qualquer sensação que ocorra no momento em que o preservativo é um “must”. Não é muito provável que se pense em conforto numa hora destas. Bem aparelhado? Operacionalmente adequado?  Ou quem sabe partir para a negativa, o que nunca é aconselhável em questionários, mas já que este é um caso não muito ortodoxo: você não se sente bem equipado com 53 milímetros?
Confesso que gostaria que o mapeamento da pesquisa fosse divulgado. Deve ser interessantíssimo. Nascida no Rio de Janeiro sou uma apaixonada pelo Nordeste e tenho ótimas lembranças da região que hoje é o estado de Tocantins. Sempre me alegra quando vejo se fazer justiça a qualquer característica das regiões citadas na notícia. Mas nunca imaginei que fossem merecer destaque por uma superioridade de dois milímetros num atributo de qualificações tão traumáticas para a masculinidade. Portanto só me restaria esperar a comprovação de que o fenômeno só ocorre mesmo nestes estados para enviar a seus habitantes masculinos os meus mais sinceros parabéns esperando que conseguissem, num breve tempo, ter atendida a sua mais que justa reivindicação.
Agora passados mais de seis anos me dou conta de que nada mais foi noticiado sobre o caso. Estranho! Será que foi solicitado, pelos estados não favorecidos, que o projeto se desenvolvesse em segredo de justiça para não fossem expostos à humilhação de uma literal inferioridade milimétrica?   

segunda-feira, setembro 09, 2013

O ZUMBIDO E O PLANO

A expressão da recepcionista do laboratório é severa ao declarar: o Plano de Saúde não aprovou este exame para o zumbido!  Os olhares de todos os que estão sendo atendidos nas outras baias e também dos que aguardam a chamada para exames, voltam-se para mim.  Alguns com espanto, outros numa clara censura. Vai ver para estes últimos o assunto é familiar e de algum modo me julgam responsável pela não aprovação do zumbido ou quem sabe até culpada de ter este sintoma.

Para mim é um mistério totalmente desconhecido. Desconhecido, mas presente. De fato há dias um zumbido constante me atormenta. Minha médica resolveu pesquisar e entre as pesquisas a serem feitas solicitou um exame que responde pelo encantador nome de Dopler Colorido dando como justificativa o zumbido. E vinha disto a não aprovação pelo Plano de Saúde que, vai ver, julgou improcedente a realização de tal exame por motivo tão pouco nobre.

Perco-me em divagações sobre o assunto e a recepcionista repete mais alto: Senhora! O Plano de Saúde não aprovou este exame para o zumbido!  Contenho a única resposta que me parece razoável: eu não estou é aprovando o zumbido! Polidamente pergunto se há alguma outra providência que possa tomar. Existe, sim: uma consulta à auditoria médica do Plano, providência já solicitada por ela. É necessário aguardar a resposta.

Sento-me junto aos que esperam a chamada para exames, aguardando o veredicto. A senhora ao lado dirige-se a mim: a senhora esta zumbindo? Informo que existe um zumbido, mas que não sei se sou eu a emitente. E ela sai-se com um comentário espantoso: não se escuta nada daqui de fora!  E eu que não havia imaginado que este fato extraordinário pudesse estar acontecendo. Mas a afirmação de que não é escutado pelos presentes me tranquiliza. Seria profundamente desagradável ser confundida com esta cigarra anêmica que me habita.

Do outro lado um senhor, curioso, pergunta: existem outros casos de zumbido em sua família?  Antes que eu pudesse responder uma senhora sentada na fileira de traz, afirma severa: não é genético. É velhice. Minha avó morreu sem conseguir se livrar dele.  Contenho a pergunta: e morreu dele?!!! A moça a seu lado deve ter percebido meu pânico e adoça a pílula: a medicina tem progredido muito. Podem já ter descoberto a cura. Sorrio agradecendo. A senhora ao lado volta a falar: qual foi o exame que seu médico pediu? Informo dando ênfase no “colorido” que me encantou e percebo horror em todos os olhares. O senhor murmura: Deve ser grave.

Todos parecem familiarizados com o tal exame. E escuto a senhora que da fileira de trás, num firme diagnóstico: E é! Muito grave! Carótida entupida. Não há a menor dúvida. E severa: A senhora fuma? Sentindo-me um rato respondo murmurando que sim. E ela declara ainda mais severa: É nisto que dá! Entupiu!

Desconsolada e culpada me convenço de que zumbido é causado pelo entupimento ou vive-versa. Os olhares sobre mim agora são de franca comiseração. Escuta-se a campainha do telefone da recepcionista que me atendeu. Ela olha significativamente para mim e movimenta a boca sem emitir som: pode-se ler em seus lábios “é do plano. Instala-se o suspense na platéia que observa atenta o desenlace. A moça escuta o Plano com uma expressão indecifrável. É longa a explicação que, no entanto, torna-se bastante reduzida quando ao desligar ela comunica agora a toda platéia: a auditoria do Plano não aprova. Seu médico terá que dar outro motivo que não seja zumbido. Pergunto: o médico vai ter que mentir então? Não existe mais nada além do zumbido. A moça entendida me esclarece: é que tem que mencionar há suspeita de problema cardio vascular! Eles são muito exigentes.

E é como entupida que me despeço. Escuto palavras de ânimo até dos que ainda não tinham se manifestado: boa sorte, vai ver não é nada de maior, às vezes não precisa operar, tem que entregar a Deus e outros que tais. Já na rua fico em dúvida se devo passar em alguma igreja para pela primeira vez na vida fazer uma promessa desentupidora. O zumbido continua zumbindo furiosamente. Dúvidas me assaltam: a carótida passa pelo ouvido? E ainda que passe, existem duas? Por que os dois ouvidos escutam o zumbido. Já em casa telefono para minha neta que forma-se em medicina este ano. Ela está em Piraí fazendo um estágio em postos de saúde e se assusta com a chamada e mais ainda com a pergunta:

-   Quantas carótidas eu tenho?
-   Tá maluca, vó? Você está careca de saber que tem duas. Mas por que...
-   Elas costumam entupir ao mesmo tempo, provocando zumbido?
-  O que?!!
-  Está acontecendo um zumbido. Ou melhor, dois. Um em cada ouvido.
-   Vai ao médico.
-  Já fui. Mas depois a gente conversa. Na verdade eu só queria esclarecer a quantidade de carótidas. Ciau.  Gente se fala.

E penso: se eu sobreviver até lá. Desligo presa de uma imensa raiva me dando conta de que o maldito Plano de Saúde pode ser responsável por um ridículo diálogo quando ocorrer minha morte que parece iminente:

-      Não diga! Morreu de quê?
-      De zumbido!

2007



domingo, setembro 08, 2013

DA INFLUÊNCIA DA CADEIRA DE ESTRADAS NO PRIMEIRO BAILE

No ano de 1943 deu-se o casamento da prima mais velha. Os sete anos que a separavam da noiva e os dez do noivo não evidenciavam diferenças. O que mais havia era uma igualdade provocada pelo amor aos cavalos, pela exploração da mata e pelos jogos de mímica. E eis que de repente tudo iria se desfazer! Pessoas casadas eram os tios, os pais! Um grupo a parte. Adorado, mas a parte.
Mas foi este casamento a agraciou com o “vestido comprido” no qual se transmudou em “dama de honra”. O vestido, tão sonhado, compensara em parte a perda do casal para o outro grupo. Mas o acontecimento que havia de mudar sua vida ainda estava por vir: o noivo, agora marido da prima, colava grau em engenharia e, como ainda hoje acontece, haveria um baile. Um amigão ele era! Tanto que convenceu a mãe a deixá-la ir a este baile que seria o primeiro de sua vida.
Metida no vestido de “dama de honra” o coração disparou à entrada da Galeria dos Empregados do Comércio. Cabelos soltos, libertos das abomináveis tranças que lhes eram impostas, estava se achando o máximo nos seus 13 anos. Quase 14, ela pensava em informar ao rapaz que a tiraria para dançar dali a minutos. Corrigiu-se: melhor quase 15. Pois se estava até de batom e cilion! Ou seja, escandalosamente maquilada. Mal se sentou à mesa aproxima-se um rapaz que respeitosamente pede licença, ao primo, para tirá-la para dançar. Mal acredita no que está acontecendo. Já?! Esperava ser notada – é claro - mas a rapidez com que isto ocorre está acima de todas as expectativas.
Rodando no salão fica sabendo que ele é do primeiro ano e da turma na qual o primo é assistente da cadeira de estradas.  Terminada a música – uma valsa – ele a conduz de volta á mesa e, para seu espanto, ao lado do primo já se encontra outro rapaz que se precipita em sua direção dizendo: “agora sou eu.” Não era na verdade uma frase das mais românticas, mas soou como tal e ela passa dos braços de um cavalheiro para os de outro que, fica sabendo, é também do primeiro ano e também da turma monitorada pelo primo. Ele dança bem e ela não fica atrás. O treinamento intensivo, no quarto, ao som da vitrola portátil que ganhara no último Natal estava surtindo efeito.
Ela desliza impecável ao som de Benny Goodman. Por que na verdade achava-se em Hollywood nos braços de Tyronne Powell. Ao regressar à mesa outro candidato já espera para transmudar-se em astro americano assim que a envolve nos braços. É extraordinário o que está acontecendo. Vai ver ela é ainda mais sedutora do que se acha. O único momento em que pára é o da valsa dos formandos. E, assim mesmo, o próximo par já aguarda em pé, ao lado da mesa com uma expressão ansiosa. Havia feito um sinal de “a próxima é minha”.  Teve mesmo um momento em que dois disputaram o favor de uma dança!!! E assim foi a noite inteira. Um desfilar de alunos do primeiro ano, todos da turma em que o primo é assistente!
Em casa custa a pegar no sono. Exausta e emocionada passa em revista os rostos. Impossível decidir-se por um. São todos maravilhosos. As espinhas, as vozes estridentes, os encontrões com outros pares, só ficaram nítidos anos depois. Tudo que conseguia ver era rostos e posturas de extrema beleza acondicionados em smokings e summer jackets com cheiro de água da colônia. Acordou diferente. Aquela sensação de ser feia e desajeitada que às vezes tomava conta dela nunca mais voltou.
Num passe de mágica na praia começou a ser notada e o primeiro namorado apresentou-se tão logo que completou os benditos 14 que permitiam, sem mentir, rotular de quase 15.  Muitas e muitas festas, muitos e muitos bailes vieram depois. Ótimos, é claro. Mas aquele, que lhe havia aberto as portas da beleza da vida, ficara em sua memória como dourado, encantado, mágico.
Anos depois, já com dezessete, rodava nos braços de um rapaz que havia conhecido na festa daquele sábado. Há tempos ele a rondava evidentemente interessado. Interesse não muito correspondido por ela. Mas, como nunca se sabe, ela resolveu lhe conceder alguma atenção. Cessada a dança, a Cuba Libre desata a conversa na varanda e ela fica sabendo que ele ira graduar-se em engenharia no final do ano. Comenta que tem um primo que é engenheiro e que foi assistente da cadeira de estradas na Nacional. O rapaz olha intrigado para ela e faz uma pergunta absurda: você foi ao baile de formatura dele? Com ele? E estava com um vestido que não tinha decote? A resposta afirmativa provoca uma gargalhada no rapaz e ele declara ainda rindo: dancei com você naquela noite. Incrível, ela pensa. Desde aquela época ele era encantado por mim! Sorrindo, sedutora, declara: fiquei exausta aquele noite. Não perdi uma única dança. Seus colegas faziam fila para dançar comigo. Acho que dancei com todos os alunos do primeiro ano. No que ele retorna com uma afirmação estranha: quase todos. Ela se espanta: quase todos por quê? É vem a espantosa a revelação: os que tinham ótimas notas na cadeira de estrada não dançaram com você. Seu primo prometeu mais um ponto na prova para todos que a tirassem para dançar. E sorrindo acrescenta: “você era muito desengonçada. Que idade tinha? Doze, treze?”   

2007

sábado, setembro 07, 2013

NORMALIDADE... SERÁ QUE EXISTE?

Tenho sérias dúvidas. Muito antes de Caetano Veloso declarar que de perto ninguém é normal eu já me havia dado conta disso. E nem é preciso chegar muito perto. De longe já dá pra perceber a não normalidade das gentes pela observação do comportamento, da personalidade e sei lá eu mais onde. Falando assim pode parecer que estou me excluindo das “gentes”, afirmando minha normalidade. Longe disto! Notórias manifestações da “serial clumsy” que sou atestam minha total inclusão no time da não normalidade.

Ontem, ao escutar, sem querer, o diálogo absurdo de um casal a memória deu uma cambalhota e me atirou num passado quando ocorreu um episódio extraordinário. Deixa no chinelo o não normal da conversa escutada se comparada. Dificilmente poderiam hoje ser identificados seus atores, também um casal. Nem eu mesma posso fazer isto já que nunca lhes soube nomes ou origem. Vai ver nem mais estão entre nós e é improvável que possíveis filhos ou netos sejam sabedores da espantosa característica que demonstravam nos momentos de avassaladora intimidade.        
Quis o acaso que desta intimidade fossem testemunhas bem próximas: meu marido, um amigo de infância e eu. Estávamos no verão de 1950. O sofrimento do amigo abandonado pelo grande amor de sua vida nos fez acompanhá-lo, de uma hora para outra, sem planejamento, a um fim de semana em Itatiaia destinado a promover o esquecimento. Naquela época as ligações telefônicas não funcionavam como hoje e não conseguimos fazer reservas. Contando com a sorte saímos do Rio, já muito tarde. Durante a viagem tetamos, meu marido e eu promover o exorcismo da triste paixão. Mas o sofrimento era tanto que não havia como animar nosso infeliz amigo com promessas de grandes amores futuros.

Chegamos ao hotel já tarde e... não havia cabana disponível! Depois de muita parlamentação o gerente nos conseguiu apenas um quarto numa cabana que já tinha o outro ocupado por um casal, com a promessa de que no dia seguinte disporíamos de uma cabana só para nós. Enquanto tentava obter autorização do casal que já se encontrava na cabana, para que nela pudéssemos pernoitar, conseguiu que a cozinha, já fechada, produzisse alguma coisa para comermos. Durante o jantar nosso amigo se lastimou: tinha que ser junto a um casal. Provavelmente recém casados! Nestas horas a felicidade dos outros dói. Dói muito.

Tristes e exaustos fomos levados à cabana com a recomendação de manter silêncio para não perturbar o casal que já se havia recolhido. Recomendação esta que seguimos à risca falando por murmúrios e nos preparando para dormir sem provocar o menor ruído. Esta recomendação, no entanto, não era seguida pelo casal. Através da parede escutávamos delicadas juras de amor que levaram nosso pobre amigo às lágrimas.

Quando já acomodados (meu marido e eu numa cama de casal e o soluçante amigo num colchão no chão), no quarto ao lado o diálogo começa a mudar de tom. Inequivocamente o casal estava iniciando preliminares de um embate amoroso. Nosso amigo parou de chorar. Era impossível conter o riso que tentávamos esconder tapando a boca. Um tanto culpados era impossível não ouvir. Impossível também era alertá-los de que esta escuta estava ocorrendo.

O áudio começa a tomar um ritmo alucinante. Palavras muito esquisitas e exclamações idem denunciavam um cada vez maior ímpeto. O clímax se aproximava e nós três, em cólicas, fazíamos malabarismos para conter o acesso de riso que nos acometia, sem emitir qualquer som E eis que de repente, e não mais que de repente, o rapaz solta um urro com todas as forças de seu ser: diz que seu pai é açougueiro! Diz que seu pai é açougueiro! Inebriada ela grita: Meu pai é açougueiro! Meu pai é açougueiro! E a explosão se dá. Um vulcão em erupção perderia para o casal. A esta altura nós já estávamos passando mal pela tentativa de sufocar o riso. Depois o silêncio.

Custei a dormir empenhada que fiquei na fabulação das possíveis explicações que pudessem justificar o espantoso pedido cujo atendimento, ao que parecia, era indispensável para que pudessem consumar o ato.

No dia seguinte, quando acordamos casal já havia se mandado. No caminho para o restaurante nosso amigo, um talentoso roteirista, desenvolvia uma teoria estranhíssima afirmando que um açougue pode, sim, esconder uma considerável carga de erotismo. Um pernil pendurado num gancho pode levar a fantasias inimagináveis. Como é que ele nunca havia pensado nisto? E um filé então?!

Ao entrarmos no restaurante o gerente nos indica um casal jovem, gordinho e rosado como sendo o gentil hospedeiro daquela noite. Mais normal não podiam ser. Provavelmente a indicação da dupla destinava-se a possibilitar um nosso agradecimento pela hospedagem. Deve ter ficado muito mal impressionado quando não o fizemos e mais ainda quando fomos, meu marido e eu, acometidos de mais um acesso de riso quando nosso amigo o interpela com a maior seriedade: o senhor sabe me dizer se ele ou ela vem de uma família de açougueiros?

2011

sexta-feira, setembro 06, 2013

ENVELHECER

      Medo de envelhecer é comum. Em homens e mulheres. Em alguns o sentimento beira o pânico. Vai daí que ao sofrimento causado pela aproximação da velhice se junta à busca desenfreada de meios que possam impedir o que é inevitável. Mas o que me espanta não é o medo ou mesmo o pânico. O que me faz pensar é um sentimento de vitória que existe em ser ou parecer jovem! Isto lá é coisa para se orgulhar? Todos nós o fomos um dia sem que para isto tivéssemos lutado ou que isto fosse o resultado de alguma ação nossa.
      Toda esta elucubração me vem de uma conversa maluca que tive com uma senhora bem mais jovem que eu, beirando os sessenta. De há muito já a sabia pertencendo à classe dos empanicados pela proximidade da velhice. Sei agora que também se agrega a este pânico o orgulho da parecença mais jovem (que, justiça seja feita, de fato existe). Era visível, em seu discurso entusiasmado, o orgulho de ter tido sua idade avaliada, por já não me lembro quem, em sete anos menos. Fiquei pasma! Era orgulho mesmo como de um feito memorável em sua biografia! Falava disto como de um mérito pessoal obtido sabe-se lá por que artes.
      Foi aí que me lembrei do Budismo. Desta fé pouco sei e este pouco sempre me pareceu simpático. Entre o pouco que sei um dia me informaram que Buda rotula de absurdo o orgulho motivado pela saúde, pela juventude e pela vida já que inexoravelmente todos, irremediavelmente todos, perderão estas qualificações em algum momento. Será a Radical Chic budista? Ela também acha isto quando diz: "O que adianta fazer plástica se você se lembra do governo Jango?"
      Por favor, me entendam: nada tenho contra plástica. Se não a fiz é porque não tive vontade. Acho legal que se queira estar com uma melhor aparência. Só não entendo que se queira escamotear anos de vida. Ao fazer isto mães e pais terão passar a ser pais adotivos de seus próprios filhos já que não poderiam ter deles nascido. A menos que estes também tenham suas idades diminuídas.
      Esta prática de se dar fim em anos vividos obriga a cálculos complicadíssimos cada vez que tem que ser informado o ano da formatura, o ano do casamento, a idade que se tinha na copa de 50 e por aí vai. E o pior é que muitas vezes um erro no cálculo mental torna o passado inviável. Como alguém que conheço que obteve o diploma de um curso superior com a espantosa idade de 12 anos!     Este despreparo para ter a idade que de fato se tem é incentivado por todos os meios e modos pela propaganda de produtos milagrosos que prometem o desaparecer, não apenas da marca dos anos passados, mas espantosamente, os próprios anos. Não consigo imaginar qualquer ano que eu tenha vivido sendo objeto de um sumiço. Todos foram recheados de coisas boas e nem tão boas, construindo o que sou hoje. O desaparecimento de um só deles seria catastrófico. Tenho certeza que provocaria um buraco por onde se escoariam pequenos e grandes acontecimentos que tiveram sua importância e deram novos cursos em minha vida.
      Faço uma mea culpa: não preparei meus filhos para velhice. Falei de muitas e muitas coisas que certamente viriam com o decorrer dos tempos. Mas da velhice e de suas marcas, não. Talvez porque só agora que a experimento saberia o que falar. Eu não sabia antes. São tantas estas marcas... Para mim, as menos importantes são as aparentes. Estas, tão evidentes, pouco incomodam. Pelo menos a mim. As outras, invisíveis aos olhos e à percepção alheias são mais complicadas de serem assimiladas e aceitas com galhardia. Começa pelas dores. Os ossos que me sustentam e que me dão a condição de bípede não doíam antes. Agora doem! Não muito e nem sempre os mesmos, o que é um mistério. É uma dorzinha ambulante e misteriosa que passeia dos pés à cabeça. Sinto que internamente, embora não doente as coisas já não funcionam como antes. Nada que se possa identificar com clareza, mas positivamente o funcionar já não é mais o mesmo. Espantosamente minha médica declara: uma saúde perfeita. Mas lá vem a ressalva marota... para sua idade
      As escadas passam a ser um local ameaçador. Mesmo as que têm corrimão (as que não têm são um caso de polícia!). A rua já não parece tão segura e não estou me referindo aos assaltos e outros que tais. Descer rua em ladeira, por exemplo: não é muito seguro! E como me recuso a deixar de por ela andar o jeito é conviver com esta sensação de ligeira insegurança aceitando e até agradecendo, o braço amigo do agenciador dos táxis de minha rua, para descer com dignidade. Positivamente não fui preparada para esta cena: eu sendo amparada por um desconhecido para descer uma ladeira!  E, no entanto, ocorreu. E o mais espantoso é que com maior tranqüilidade assumo esta personagem que, há pouco tempo era uma ficção!


2006

quinta-feira, setembro 05, 2013

UM DAQUELES RAROS DIAS

Era um daqueles raros dias: ao olhar-se no espelho achou-se ótima. O “tailleur” novo - corrige o pensamento, a partir de uma informação das netas – o “terninho” novo está caindo bem demais. Afinal havia encontrado um daqueles sapatos de bico fino que não lhe massacrassem os pés o que a tornavam igual a ... igual a ... ora, a todas. O cabelo, depois de descoberto o xampu que tira o amarelo do branco, e que sempre se descontrolava no vento de Brasília, estava impecável, brilhante. Inacreditável! O contorno dos olhos se fez sem os borrões que sempre a obrigam a passar um lenço, borrando mais ainda e dando a impressão de haver sido socada nos dois olhos. E a mala! Ah! A mala. Era nova, linda!
 Na fila do check-in (da classe executiva e do cartão Smiles ouro) ela era a quarta pessoa e sentia-se executivamente perfeita. Não que fosse muito vaidosa. Até que nem. Mas naquele dia estava mesmo nos trinques e a sensação era pra lá de boa. Pra coroar tudo, a perna não doía (ciática – é uma droga né?). Mas naquele dia não doía nem um pouco mesmo. E ela sorriu de pura felicidade.
 Foi aí que... um funcionário da companhia aproximou-se, solícito: me acompanhe, por favor. Não entendeu bem por que, mas nem perguntou, e seguiu o rapaz num andar que lhe pareceu lépido e fagueiro. Foi conduzida até outro guichê. Ainda lhe passou pela cabeça: por que será que passei na frente dos outros? Estranho. De qualquer modo tudo estava dando tão certo que vai ver iam lhe dar um assento na primeira classe. Um premio por viajar tanto. Já me reconhecem. É isto!
 Estende o cartão Smiles, a carteira de identidade e declara o número do vôo. As palavras da moça vêm com as sílabas destacadas, num tom bem mais alto do que seria necessário. Daquele jeito que se fala com surdos e velhos: a se-nho-ra ne-ce-ssi-ta de al-guém que a a-com-pa-nhe a-té o em-bar-que? Po-de-mos lhe o-fe-re-cer o com-for-to de u-ma ca-dei-ra de ro-das. A voz trêmula de espanto com que consegue responder reforça e justifica  o raio da cadeira: não. Eu posso embarcar sozinha. Ao que a moça entusiasmada declara: Que bom, não é?!  Arrasada ela concorda: É... é bom.
 Uma raiva crescente toma conta de tudo. Furiosa, sobe aquela infernal rampa do aeroporto de Brasília. A mala é muito mais pesada do que a outra e as rodinhas parecem estar emperradas. O sapato começa a massacrar os pés e ela mal consegue pisar, mancando nas duas pernas. A ciática resolve atacar.
 Pensamentos terríveis passam por sua cabeça: da próxima vez que isto acontecer vou querer a cadeira de rodas e tornar a vida do empurrador um inferno. Vou gritar, agarrar a roupa dos passantes, fazer caretas, buzinar e o que mais me vier à cabeça. Pior: vou dizer palavrões. Muitos. Começa a pensar nos que não tem por hábito proferir, e num exercício de análise combinatória, grupa-os dois a dois, três a três. A coisa começa a ficar divertida e... a raiva passa.
 No microfone anunciam o embarque: passageiros com crianças, pessoas com dificuldade de locomoção e idosos. Levanta-se, e mancando assume a dianteira da fila privilegiada. Sorri informando para espanto do funcionário da companhia que destaca os cartões de embarque: me encaixo nas duas últimas categorias! 

2005