sexta-feira, dezembro 13, 2013

MINHAS HUN ESTÃO EM FUGA

Respeito demais a Milenar Medicina Chinesa, portanto não posso duvidar que as HUN estejam prestes a abandonar meu fígado. Terrível desastre, este! Eu que nem as sabia existentes e muito menos que habitavam minha cavidade abdominal! Um amigo, daqueles que nos invadem com exibições em Power Point, destilando açucarados ensinamentos de auto-ajuda, enviou-me uma sobre o fígado. Desgraçadamente não tive o procedimento habitual: catapultar a lengalenga de volta para o espaço virtual, sem ler. E o fígado, que nunca me incomodou, tornou-se meu algoz! Informa-me o texto que o dito jamais nos avisa que está sendo agredido ou mesmo que está agonizando. Sofre em silêncio, o desgraçado, mesmo quando vítima das mais graves agressões.

Fiquei em pânico e resolvi ler toda a apresentação para descobrir por que razão age com tanta deslealdade e incompetência. Afinal tem uma enorme responsabilidade gerindo mais de 5.000 funções que me são indispensáveis!  Como é que um ... Eu ia dizendo órgão, mas depois que li o que li não posso relegá-lo a esta banal condição em igualdade com, por exemplo, o tão sem graça intestino. Isto porque o fígado, pasmem, é habitado pelas HUN, seres espirituais  responsáveis por sentirmos felicidade, alegria, bem estar e saúde. Anjos biliares, creio. 

Ocorre que no momento em que somos possuídos por sentimentos menores, sobretudo por raiva, toxinas são criadas invadindo o fígado e expulsando as HUN. Estas ao invés de enfrentá-las como faz com outras toxinas criadas por agentes físicos covardemente batem em retirada nos abandonando a nossa própria sorte, melhor dizendo, às nossas próprias e virulentas toxinas, indo pousar sabe-se lá onde. Quem sabe no fígado saudável de algum santo homem (ou mulher) capaz de um estado de beatitude de 24 horas por dia.  A vida sem HUN é terrível.

Desprovido das HUN o fígado endurece e nos transforma em seres violentos, desagradáveis, grosseiros, incapazes de qualquer tipo de relacionamento. Casamentos até então perfeitos se desfazem da noite para o dia, amizades de anos são rompidas, perde-se o emprego e os vizinhos não mais nos cumprimentam. Até os animais de estimação se afastam desgostosos. Um horror! Para que as HUN retornem (e isto é possível) é necessário que passemos a aceitar sem raiva ou animosidade todas as circunstâncias de vida e todos os seres humanos! Caramba! Todos?!

Como é que eu vou conseguir sorrir diante das enchentes acontecidas em Friburgo, Teresópolis e pelo Brasil afora sabendo que milhares de famílias perderam filhos, pais, seres que amavam; perderam suas casas com tudo que dentro havia por incompetência e descaso de administradores, ao longo dos anos? Como “aceitar” estes assassinos? Como não sentir raiva quando vejo educação e saúde relegadas a uma não importância neste País? Como ficar indiferente ao ler a nova versão proposta para o Código Florestal e aceitar sorrindo o parecer de Aldo Rabelo? Isto seria bater palma para palhaço dançar, atitude que depois que não mais frequento circos me recuso adotar.

Num âmbito muito menor, mas diário, como sorrir para aquela mulher bruxa, que certamente já nasceu sem HUN, e que transforma as reuniões de condomínio num pugilato profundamente desagradável? E as torneiras que pingam? Tenho raiva, sim. Várias vezes por dia! E agora sei que em razão disto estou prestes a ficar sem HUN. Digo prestes porque – creio – ainda disponho de algumas que me fazem feliz quando estou com minhas netas, meus filhos, meu irmão, meus amigos; quando olho para a mangueira tão linda, imune às agressões que a urbanização lhe faz; quando os gatos Pandareco e Marta me acordam passando muito de leve a patinha em meu rosto, miando carinhosamente; quando leio um bom livro, quando escuto Satie; quando conheço alguém interessante; quando penso que dentro de três meses serei bisavó; quando ligo meu celular e leio, encantada, a mensagem permanente colocada por minha neta adolescente: te amo Vovó Anna! Quando o porteiro sorri e mente carinhoso: a senhora está muito bonita hoje, D. Anna. Quando a amiga telefona só pra dizer que está com saudade.

São tantas as benesses! Mas, ao que parece, insuficientes para que as HUN permaneçam. Isto só aconteceria se eu jamais fosse possuída de sentimentos menores. Não tem jeito, não! Portanto não se espantem se gradativamente, correspondendo ao desaparecimento progressivo das HUN, estas crônicas se tornarem amargas, agressivas e desagradáveis. Isto será resultante de um fígado desabitado e endurecido. Mas não terão que me aturar por muito tempo: desprovida de HUN vou ser demitida do Montbläat e, o que é pior, perdendo meus queridos editores e grandes amigos Fritz e Liége.

Assim vaticina a Milenar Medicina Chinesa. Entre as pessoas contra as quais sinto raiva está agora o amigo que me enviou esta desgraça. Vai ver ele o fez na pior das intenções porque também está sendo abandonado pelas HUN e, impiedoso, se vinga destruindo meu bem estar. Juro que não é o que estou querendo fazer a vocês que me lêem. Amparada pelas poucas HUN que ainda habitam meu já parcialmente desprecatado fígado, desejo de coração (órgão que para mim agora decresceu em importância) que consigam conservar para sempre a higidez e saúde de suas HUN.
2011


quinta-feira, dezembro 12, 2013

QUANTOS SOMOS?

Pergunto no plural, mas o sujeito a quem dirijo a pergunta é singular. Singular porque um só, singular porque único. Pergunto a cada um de nós. O extraordinário sociólogo Zygmunt Bauman que, há muitos anos, me proporciona deliciosas e esclarecedoras leituras, afirma que ao longo da vida somos muitos ou deveríamos ser. Eu já sabia disto: ao longo dos tempos fui sendo várias sem ter muita consciência de que isto acontecia. Felizmente, porque realizar esta metamorfose interna, me redefinindo a cada episódio que a vida apresentava deu bons frutos. Não conseguir dar estas cambalhotas é danoso.

Eu teria sucumbindo caso não me tornasse outra aos cinco anos quando Babá foi substituída por Fraulein Grete, a governanta alemã. Tive que me adaptar de estalo percebendo que o que valia para o convívio com Babá não valia para o que, daquele momento em diante, ocorreria com Fraulein. Tudo havia mudado e outras seriam as manhas e artimanhas de que eu teria que me valer. E assim foi a cada novo episódio: casas, colégios, amigos, cidades, casamentos, nascimentos, separações, mortes e trabalhos mudavam a vida da noite para o dia, sem aviso prévio. Tivesse eu teimado em continuar sempre a mesma em todas estas mudanças de cenário e de roteiro tudo teria dado errado. O que era ruim ou bom para o novo não valia para os anteriores. Por vezes era mesmo um avesso espantoso. À medida que coisas novas aconteciam “nova eu“ tinha que surgir para se adaptar à novidade, imprimindo um novo rumo.

É com tristeza que vejo pessoas que não mudam e até se orgulham disto afirmando “eu sou assim”, agarradas a um passado que não mais existe, adotando os mesmos procedimentos, as mesmas posturas de sempre, numa luta inglória em que são derrotados. Agarram-se ao que já era, ao que não mais existe, ao que não tem mais valor no presente embora tenha verdadeiramente tido, e muito, no passado. Não que se trate de esquecer esse passado ou negar o valor de tudo que nele existiu e do muito que nos construiu. Longe disto.

Se há uma coisa gostosa é lembrar o que “foi“ e “como foi“. A lembrança é emocionante, mesmo quando triste, porque o valor do passado não desaparece. Permanece... no passado. Não deve, nem pode ser esquecido. Mas viver como se ainda existisse no presente é perigoso. Causa miopia. E nela tudo parece desfocado. É um tal de não dar certo que nem sei! E se vai mantendo o mesmo rumo para um projeto de vida que não se pode abandonar, aconteça o que acontecer.

Ora, ligar-se a um projeto imutável numa vida mais que mutável é colecionar ferramentas obsoletas e ineficazes para a realidade do momento. Quem sabe, a arte de envelhecer sem se tornar “velho“ no sentido de não atual, é conseguir uma constante redefinição de si mesmo. Uma simples mudança de casa pode trazer uma extraordinária alteração em nossas vidas obrigando-nos a novos procedimentos, novas formas de viver, novos contatos. Mesmo para aqueles que nunca mudaram de casa, as mudanças no entorno provocam o novo, queiram ou não. E quando se estabelece o não, é sofrimento na certa. E lá vem o “era tão bom“ impedindo a visão do que “é bom“. E vem mais aquela horrível sensação de que com outras pessoas não é assim. Numa avaliação absurda se declara que estas outras pessoas têm “sorte”. E o tempo passa no desejar o impossível desejar... impossibilitando o desejável.

Uma das figuras lendárias de minha família é uma longínqua prima de minha bisavó materna - Dona Inezinha - que nos legou uma extraordinária frase, repetida por gerações: não gosto das coisas que nunca provei!  Absurdamente vejo existirem muitas D. Inezinha. Pessoas que não provam, não experimentam, não arriscam e resistem às mudanças numa saudosa lamentação do que era e não é mais. Eu já tinha filhos quando vi pela primeira vez o fenômeno da televisão! Dai a ter me ligado a informática ocorreram tantas “eu” que nem sei!

 Lembro-me do encantamento que me provocou o manejo da régua de cálculo ensinado por meu Pai. Tinha eu doze anos. Hoje vejo minha neta com a mesma idade usando o Excel com o mesmo encantamento. Não teria muito sentido eu continuar usando régua de cálculo, não é? Afinal estou vivendo na mesma época que ela. Era um belo instrumento, a régua De marfim! Mas “era”. Um instrumento pra lá de útil que se tornou um adorno. Tive que mudar muito para não mais usá-lo.

Estas mudanças de comportamento, de hábitos, de novas formas de agir, provocam enormes alterações internas nos pontos de vista, no pensar, no ser. E num vice versa contínuo estes também alteram o comportamento, os hábitos e as formas de agir. E assim vamos pulando de ponto em ponto garantindo que estes formem uma bela espiral ascendente, ao invés de um círculo que se fecha em si mesmo. E é em cada volta desta espiral que surgimos muitos e diversos.
2011







quarta-feira, dezembro 11, 2013

HOJE NÃO!

Há uma semana viajávamos! O Colega e eu. Já nem me lembro mais do motivo que fizera com que ficássemos pulando de uma capital para outra, na direção sul-norte. Mas o fato é que estava exausta. Disto lembro-me muito bem. Não só pelo trabalho e pelos horários disparatados das partidas e chegadas, mas, sobretudo, porque odiava (e ainda odeio) aeroportos. Pode lugar mais desagradável? E, neste circuito, os aeroportos se faziam presentes a cada dois dias. Meu mau humor crescia numa razão exponencial também pelo comportamento do Colega.

É necessária aqui uma explicação: o Colega era (e é até hoje, passados mais de 20 anos, e para todo sempre) uma das pessoas de quem muito gosto. Além de gostar, eu o admirava (admiro e vou admirar para sempre) como a poucos. Mas tem um defeito: um bom humor inesgotável e uma capacidade de arquitetar gracinhas que, dirigidas a alguém que se encontra destituído de qualquer senso deste humor, podendo levar a pessoa (no caso, eu) à loucura. A bem da verdade e para que se faça justiça, é necessário que se diga que não posso culpá-lo, ou a qualquer outro, por acontecimentos absurdos que me ocorrem. Eu os coleciono às minhas próprias custas!

Mas sempre existe um fato gerador causado por alguém ou por alguma circunstância. Neste caso foi o Colega com seu inesgotável bom humor. Entre outras, no aeroporto de Curitiba, na madrugada abaixo de zero, me vi rodando no estacionamento procurando uma pessoa que me havia chamado no auto-falante do aeroporto, com urgência. Era mais uma brincadeirinha do dito Colega. E este é o prólogo da desgraça que rememoro: em Fortaleza, já no quase no término da maratona, um funcionário do órgão-cliente, pediu-me que levasse uma documentação para outro funcionário do mesmo órgão, em São Luiz. Este iria ser hospedado no mesmo hotel em que o Colega e eu ficaríamos. Acondicionei a tal documentação no fundo da mala para que não amassasse e dela esqueci.

Durante a viagem para São Luiz, o animadíssimo Colega fazia planos para jantar, naquela mesma noite na Base do Germano onde se comia uma caldeirada de camarões maravilhosa. Sabe-se lá porque explodi e, entre imprecações e recriminações, informei que iria me trancar no quarto assim que chegasse e que qualquer manifestação dele, a qualquer título, teria resultados funestos... e emburrei pelo resto da viagem. O hotel era antigo, muito antigo mesmo. Nem telefone no quarto tinha. Ao nos registrarmos, o Colega ainda tentou persuadi-me, acenando com camarões imensos. Lancei-lhe um olhar furibundo e dirigiu-me para o quarto com um feroz: nem pense em aprontar alguma hoje! Nem pense!

Dentro do quarto o cansaço bateu. Deitei-me na cama como estava, olhando para o teto, exausta, tomando coragem para abrir a mala e tomar um banho. Acho que cochilei e subitamente sentei-me na cama assustada por vigorosas batidas na porta. Uma raiva desmedida tomou conta de todo meu ser e eu urrei: HOJE NÃO! ACABOU VIU! As batidas cessaram e eu me espantei. Ele não é de desistir assim tão fácil. Vai ver está na porta aprontando alguma. Pé-ante-pé fui até a porta e olhei pelo imenso buraco da fechadura. Aparentemente não estava mais lá. A medo entreabri a porta. Inspecionei o corredor vazio. Nossa, pensei: acho que exagerei no grito. Ele escafedeu-se. Feliz com meu feito dormi como um anjo. No dia seguinte, quando desci para o café encontrei o Colega já em meio ao seu. Sorrindo, saboreando a vitória, interpelei: ficou com medo de minha reação, heim? O Colega olhou para mim verdadeiramente surpreso: que reação? Insegura, expliquei: Ora... o berro que dei quando ontem você fez a gracinha de ir bater no meu quarto. E ele tranqüilo: Ontem eu fui direto comer camarão. Nem passei pela porta de seu quarto. Mistério! Então quem?

Neste momento entra pela sala um homem que se dirige para a nossa mesa e apresenta-se como funcionário do órgão-cliente. Engraçado, pensei, ele parece estar cheio de dedos. Gaguejando o homem me pergunta se, por acaso, não era eu portadora de uma documentação enviada por alguém de Fortaleza.  A pergunta me atinge como um raio. Foi ele! Foi ele o batedor da porta! Meu Deus! Eu gritei “hoje não”! Pode?! Sob o olhar carregado entendimento do homem, que pelo desconserto, denunciava a conclusão a que havia chegado, levantei-me para ir buscar o raio dos papeis.

Ao voltar encontra o Colega sozinho na mesa: ele pediu para você deixar na portaria. Homenzinho esquisito: convidei-o para jantar conosco hoje e ele, cheio de mesuras, disse que não queria importunar.  E, mudando de assunto, curioso: mas o que história de berro é esta? E eu: Nada! Absolutamente, nada! Durante toda a reunião do dia tive que aguentar os olhares carregados de malévolo entendimento que o homem dirigia a mim e ao Colega. Não só ele, mas todos os demais. Era evidente que minha enfática negativa, havia sido repassada a todos. Anos depois, num jantar, sentou-me ao lado de um dos que estavam presentes naquela ocasião. À horas tantas, ele pergunta: aquele caso de vocês, terminou?


2005

terça-feira, dezembro 10, 2013

A TRÁGICA CURA DA TIMIDEZ

A história se passa por volta de 1941. Para alguns dos leitores, acredito, esta é uma data jurássica. Não para a hoje provecta senhora que, naqueles idos, recém havia completado onze anos. Na passagem dos dez para estes onze anos uma monumental mudança havia ocorrido: a timidez que a atormentara desde que se entendia por gente escafedeu-se graças ao tratamento de choque empreendido pelos extraordinários educadores do colégio americano para o qual a haviam transferido os pais na esperança de vê-la curada.

Era um colégio “moderno” onde atividades extraclasses proliferavam. Entre estas um núcleo de teatro orientado por nada menos que Jaime Costa (ator cômico famoso da época) possibilitou que ela incorporasse a personagem de Strombolli (algoz de Pinóquio) escondida atrás de monumental barriga e enorme barba que lhe escondia o rosto. O anonimato, já que irreconhecível, permitiu que ela conseguisse mover-se no palco sem medo. Iniciava-se uma carreira. É verdade que só poderia aceitar papeis em que o disfarce tornasse impossível seu reconhecimento.

O início da tragédia se deu quando Madame (professora de francês) resolveu encenar uma adaptação infantil de Cyrano de Bergerac. A menina exultou. Já naquela idade ela falava francês. Quer dizer, a pronúncia era impecável. As palavras e o sentido nem sempre. Havia aprendido alguma coisa de muito ouvir pais e tios que, sabe-se lá por que causas, vez por outra se expressavam neste idioma não sendo franceses. Sobretudo quando não queriam se fazer entender pelas crianças. Isto fez com que estas (as crianças) se empenhassem em adquirir proficiência nesta língua para ficar por dentro de histórias escabrosas como a da gravidez da filha da prima Leontina antes do casamento.

Mas voltando ao Cyrano: o personagem além de homem tinha aquele enorme nariz e uma cabeleira. Perfeito para esconder físico e revelar talento. Ainda por cima Roxane seria interpretada por sua melhor amiga – apelidada 1300 por que as iniciais de seu nome completo eram MCCC.  Tinha certeza que levaria o público às lágrimas quando da morte do herói. Empenhou-se furiosamente nos ensaios (para os quais exigia a caracterização).

E eis que um belo dia percebe que não mais precisava do disfarce. Maravilhada consegue encarar a todos com o rosto limpo, falando alto, fazendo-se notar. Era o paraíso! E este falar alto fazendo-se notar começou a ser uma tônica. De excessivamente tímida passou a excessivamente se mostradora. Até hoje não entende por que este desvio também não sofreu correção por parte dos professores. Vai ver eles se maravilharam com a transmutação que havia ocorrido.

Exigiu seu nome no programa da peça em letras garrafais. Não foi atendida em toda extensão de seu desejo, mas conseguiu um destaque razoável. Isto provocou certo mal estar em Mil e Trezentos que queria ser objeto de igual destaque. Condescendente ela explicou à amiga que seu papel (dela) era secundário o que provocou recrudescimento do mal estar que se transformou em total beligerância para desespero de Jaime Costa e de Madame. Ela estava pouco se importando. Com Roxane ou sem Roxane, Cyrano iria brilhar na constelação dos grandes atores. E eis que chega o grande dia e o sucesso se revela.

Mil e Trezentos imbuída de um profissionalismo espantoso serviu perfeitamente de escada para um impecável Cyrano que, a bem da verdade, quase arranca as lágrimas que prometera conseguir. O sucesso foi tanto que Madame entusiasmada resolve promover um outro dia de espetáculo para o qual seria convidado o Cônsul francês, seu amigo. Era a glória! Interpretar Cyrano para um diplomata francês; era a garantia de um sucesso internacional e quem sabe a possibilidade de uma viagem à França para apresentar a obra. O fato de aquele País estar ocupado por tropas alemãs em nada prejudicava o sonho que, como todo sonho que se preza, se revestia de aspectos impossíveis. Deixaria a família e iria de navio e passaria a integrar o elenco da Comèdie.

Antes da apresentação Madame reúne o elenco e explica que certamente após o espetáculo o Cônsul as iria cumprimentar e seria conveniente que se empenhassem em responder em francês. Foi ai que a coisa pegou. Ela tinha apenas dois dias para encontrar uma frase de efeito que deixasse o Cônsul embasbacado, o que terminou por conseguir como veremos adiante. Corre à biblioteca do Pai e de lá tira vários volumes em francês que febrilmente consulta. Procurava diálogos em que houvesse uma pequena frase terminada por um ponto de exclamação. E eis que acha um tesouro: um personagem sobre o qual não tinha qualquer referência diz uma frase curta e exclamativa que provoca nos interlocutores um Ohhh que ela, desgraçadamente, atribuiu a uma inegável admiração diante da verve e do inusitado. É esta, decide ela!

O sucesso da apresentação se repete e o Cônsul sorridente se aproxima para felicitar o elenco. Dirige-se a ela, ainda caracterizada, e diz algo que ela não julga necessário entender já que fosse o que fosse teria como resposta a frase de efeito. No silêncio que se fez, com sua irrepreensível pronuncia, ela solta a declaração que julga digna de um Cyrano: ta gueule, connard!!*

*Numa tradução livre: fecha a matraca, babaca!

2010                 

segunda-feira, dezembro 09, 2013

COMPAIXÃO TEM LIMITES

Dois dos personagens desta história já não se encontram entre nós. Vai daí que sem a permissão deles é indelicado revelar suas identidade bastando informar que eram ambos pessoas de muito destaque no meio teatral. A origem nordestina era o único aspecto coincidente nestas duas personalidades. No mais eram diferentes em tudo: um irônico, mordaz, emérito contador de histórias e se tinha em alta conta; o outro triste, deprimido, muito calado e infeliz. O terceiro, não conheci. Dele sei apenas o que me foi contado: negro, pobre e cego de nascença. A amizade entre os três datava da infância passada no interior do nordeste.
Na infância cursavam o mesmo grupo escolar e jogavam futebol. É. O CEGUINHO (assim era apelidado) jogava futebol! Assim me contou um deles e estou apenas repetindo o que ouvi. Os dois videntes na adolescência e por motivos diversos, vieram morar no Rio de Janeiro onde se tornaram pessoas notórias e notáveis. CEGUINHO por lá ficou, na sua pobreza e na sua cegueira. Eis que um dia o personagem doravante denominado INFELIZ telefona para o também doravante denominado ALTA CONTA e desolado informa que Ceguinho estava no Rio, mais precisamente no Instituto Benjamim Constant.

Condoído com a sorte do desgraçado amigo cego INFELIZ convoca ALTA CONTA para uma imediata visita: pobre, desnutrido, triste e abandonado pela sorte Ceguinho devia estar se sentindo péssimo, sem conhecer ninguém, sem instrução, sem calor humano, sem dinheiro, sem saúde e a estas desgraças seguia-se uma ladainhas de “sem” para descrever o calvário pelo qual devia estar passando. E lá se foram os dois. No caminho e enquanto esperavam na sala de recepção INFELIZ continuava a descrever o horror a que devia estar sendo submetido CEGUINHO. Solidário fazia planos de vez por outra levá-lo a sua casa onde leria para ele. É isto. Ouvir uma leitura era tudo que ele poderia usufruir desta cidade maravilhosa e mesmo da vida.

E eis que com uma espantosa desenvoltura chega à recepção um atlético e lindo rapaz negro que ostentando um sorriso radioso gritava: onde vocês estão? Venha cá este abraço. ALTA CONTA e CEGUINHO caem nos braços um do outro enquanto INTELIZ, em estado de choque, não acredita no que vê. Compara sua triste figura com do atlético rapaz e sai perdendo: um Adonis negro. E, ainda por cima, transbordante de alegria. Sentam os três em torno de uma mesa no jardim para conversar. INFELIZ tenta encontrar respaldo para a compaixão que necessitava demonstrar ao amigo: você deve estar se sentindo muito só, não é?  O coração dá um pinote com a resposta entusiasmada: coisa nenhuma. Nunca conheci tanta gente legal. Hoje tive que desmarcar três compromissos para estar com vocês.

ALTA CONTA e CEGUINHO engatam numa conversa animada sobre amigos comuns no Piauí e novos amigos no Rio. INFELIZ permanece calado cada vez mais desolado. Afasta-se um pouco vagando pelo jardim, ensimesmado, mas não o bastante para deixar de escutar o diálogo dos dois outros. CEGUINHO preocupa-se: o que há com ele? Parece tão mal, coitado. ALTA CONTA dá uma resposta evasiva já que não achou bom alvitre informar que INFELIZ estava muito, muito decepcionado com a boa disposição de CEGUINHO. Havia se preparado para um drama no qual faria o papel de carpideira. Encontrar aquele entusiasmo era mortal. Ofendia mesmo.

INFELIZ respira fundo e retorna à mesa atacando, já um tanto irritado, com: você está não está querendo nos preocupar, mas a verdade é que deve estar muito mal. A resposta de CEGUINHO foi terrível: preocupado estou eu com você, amigo. O que está havendo? Por que você está tão pra baixo? Aquilo era demais para INFELIZ. O papel da vítima sofredora era do CEGUINHO! Não dele. Raiva invade todo seu ser já não mais compassivo. CEGUINHO incauto, continua: que é isto? A vida é bela. INFELIZ dá um berro: Bela! Como é que é bela, imbecil! Você é cego!  Quando se recobra do espanto CEGUINHO abraça o amigo: você não está bem, irmão. Não está nada bem. INFELIZ descontrolado vocifera: você é cego, não ouviu? O outro retruca bem humorado: você só descobriu isto agora? Sou cego desde que nasci! Tá maluco?

ALTA CONTA divertido apenas observa, guardando todos os detalhes para depois poder divulgar a meio mundo este diálogo extraordinário. Não há papel para ele nesta cena incrível.  INFELIZ urra: maluco está você! Você não vê o mar! Já viu o mar? Sabe que cor é? Você sabe o que é cor? Você não vê o céu! Você não vê o Pão de Açúcar! Você não vê o Cristo! Você não vê nada! Você é um cego desgraçado! CEGUINHO fica consternado e confidencia a ALTA CONTA: pobre amigo. Está muito mal. Desde quando está assim? Ele tem que se tratar.  Foi a gota d’água: INFELIZ enfurecido avança contra CEGUINHO e é contido por ALTA CONTA que tem a maior dificuldade em levá-lo para casa onde ele se refugia em desespero.

ALTA CONTA telefona para CEGUINHO à noite e os dois lamentam a situação de INFELIZ. CEGUINHO promete que vai se ocupar do amigo tirando-o do inferno em que vive. ALTA CONTA maldosamente dá força: é. Faça isto, ele precisa de alguém que lhe dê ânimo. Você é a pessoa ideal. E diverte-se por antecipação ao imaginar a tragédia que iria ocorrer nos próximos encontros.
2010


domingo, dezembro 08, 2013

MINHA VÍTIMA: O CACHIMBO!

Existem na vida de todo mundo episódios que se gostaria ver esquecidos para sempre, não é? Assim como se nunca tivessem ocorrido. No meu caso é o conjunto da obra da “serial clumsy” que desgraçadamente sou. Mas alguma coisa conspira para que estes ressurjam, resgatados do passado, das formas mais inesperadas. Desta vez devo o ressurgimento a angustiada leitura de uma revista enquanto aguardava o atendimento do dentista!

Ao que parece dizem os chineses que por trás de um cachimbo existe sempre o rosto de uma pessoa sensível. A palavra cachimbo até hoje me dá um frio na espinha. Fui casada com um! E ao cenário e qualificações atribuídas ao fumante, descritas na revista, no meu caso, somavam-se: cachecol, cognac Remi Martin e um cão perdigueiro distraidamente afagado, deitado sobre o tapete em frente à lareira!!! A coleção destes artefatos merecia muito mais cuidados do que eu e era guardada numa estante própria. O uso de cada um deles obedecia a um rodízio, cuja lógica nunca consegui entender. Os fumos embora adquiridos prontos para uso eram submetidos a mixagem com requintes de procedimentos laboratoriais em que entravam, ocasionalmente, o já mencionado cognac Remi Martin e outras especiarias. Uma caixa de madeira requintadíssima guardava o material de limpeza realizada com gestos que seriam totalmente adequados a um culto religioso.

E o cheiro?! Algo me diz que, mesmo anos passados, eu deveria me referir a perfume e não a cheiro. Tudo bem, perfume, então. Este competia com uma enorme vantagem com os melhores franceses com os quais eu tentava neutralizar as emanações que infestavam toda casa. E eu dava nó em pingo d’água para comprar aqueles perfumes porque, não sendo eu a cachimbeira, nem era abastada e nem mesmo parecia ser.

Pois bem, entre as preciosidades colecionadas encontrava-se um “pipe d’écume”. Para os não iniciados informo que se trata de uma coisa fabricada... (algo me diz que eu não deveria atribuir-lhe o "coisa" e muito menos "fabricada!). Pois então. o "objeto" era "esculpido" em magnesita e espuma do mar comprimida e, segundo me era explicado à exaustão, deveria ser manipulada com extrema delicadeza dada sua fragilidade. Não me lembro a nacionalidade. Vagamente atribuo à Turquia sua origem.  Havia sido presenteado a meu marido por um casal de franceses, também iniciados, em retribuição a um pacote de goiabada cascão e um queijo de minas com que os havíamos agraciado. Embora possa parecer uma retribuição desproporcional em valor, informo que o tal casal havia se deliciado com o presente e nos informou ter sido esta a sobremesa servida em um jantar formal para encanto dos convidados! Mas isto é outra história em que também ocorreu outro episódio serial. 

Voltando a “pipe d’écume”: eu a quebrei! O raio da coisa era frágil mesmo. Fui mostrá-la como raridade a uma visita e ele adquirindo vida própria, deu um pinote e suicidou-se por espatifamento no chão. Não tenho certeza se foi Araldite a cola que havia recém aparecido no mercado, capaz de colar o que quer que fosse. Mas era uma nova, com certeza. Parti em disparada para cidade (morávamos na Escola de Aeronáutica fora dos limites da cidade, em Pirassununga) e voltei com a bendita cola. A operação colagem provocou choros e ranger de dentes. Tudo colava, menos o raio do cachimbo: meus dedos no cigarro, o cabelo no cinzeiro, o pincel no pires, o pires na mesa e que mais sei eu. O tempo corria célere e dentro de algumas horas o dono estaria de volta e eu temia por minha vida. Finalmente consegui fazer a coisa retornar a sua forma original. Pensava eu...

Era uma quinta feira. No sábado deveria ocorrer a inspeção de alguns, a limpeza de outros, o admirar do tesouro como um todo. Eu estava salva. Até lá o negócio estaria mais que seco. No sábado eu prudentemente resolvi ir ao mercado no momento em que começou a cerimônia. Isto me permitiria esconder o ar de culpa que sempre se revela em meu rosto quando apronto alguma. Quando voltasse tudo já estaria bem. Ledo engano. Ao transportar os primeiros sacos de papel para cozinha (ainda não existiam sacolas) me deparo com um gigante de metros de altura, mudo, feroz e ameaçador com o “pipe d’écume” apontada acusadoramente em minha direção como uma arma letal.

Eu não havia me dado conta de uma verdade: amor é um negócio sério. Qualquer modificação, por mínima que seja no objeto amado é percebida a um simples e rápido passar de olhos. E ele amava aquele cachimbo à loucura. O silêncio, a expressão de dor e de horror eram mais contundentes do que imprecações. Num sussurro vindo do fundo da alma, o lamento e o reconhecimento de meu crime vieram em francês, como sempre ocorria nos momentos de grande tensão em que a língua materna era a única capaz de corresponder à emoção: cela a depassé les bornes!  Nunca fui perdoada! Por esta razão discordo dos chineses e afirmo que por trás de todo cachimbo existe um rosto de assassino em potencial. Sobretudo se este cachimbo for um “pipe d’écume”.

2007

sábado, dezembro 07, 2013

EXTRAORDINÁRIA LEMBRANÇA DO PRIMÁRIO

No científico do Andrews – pasmem – estudávamos filosofia. Daí me vem a máxima do mestre – David Perez - cuja verdade venho atestando vida afora: tudo tem a ver com tudo. A constatação desta verdade indiscutível se fez presente no surgir desta crônica. Desemprego X Reunião de Condomínio me proporcionaram momentos de real espanto.

Estas – as reuniões de condomínio - sempre me causaram urticária nervosa. Vai daí que covardemente eu não as frequentava escudada em razão pra lá de razoável: as constantes viagens a que me obrigavam as consultorias que sucederam à aposentadoria coincidiam com as ditas. Mas eis que não viajo mais! Resignada marcho para a garagem do Bloco B, às 20:30, hora da segunda convocação já que, segundo o porteiro, ninguém atende à primeira que se dá meia hora antes.

Percebo que minha presença causa certa estranheza, evidenciada por meu aflito vizinho de banco ao declarar: “se a senhora veio é porque tem algum assunto grave incluído nos Assuntos Gerais”. Asseguro que não tenho a menor ideia do que possa estar incluído neste item, que nem sabia existente. Uma vizinha do Bloco A me faz sinais desesperados para eu vá sentar-me a seu lado. Obedeço mais no intuito de saber o porquê desta insistência já que mal a conheço. O mistério se desfaz no cochicho: “a senhora não deve sentar-se perto dos moradores do Bloco B! Eles nos odeiam!” Embasbacada e sentindo-me desagradavelmente odiada, percorro com os olhos os bancos de Blocos B. Meu Deus, aquele rapaz com um ar tão saudável e pai do Ricardinho que me atropela uma vez por semana com seu velocípede, me odeia! E aquela gorducha e simpática senhora que me sorri? Fingida? Hipócrita?

Busco a razão do ódio: “Por quê?!” E vem a explicação da maior lógica: “Nós temos três quartos e vista para rua! Eles não perdoam.” Não tenho tempo de avaliar a gravidade das diferenças causadoras da cisão Nós X Eles porque se inicia a batalha entre as duas facções. Um horror a derrocada B! Impotentes diante do poder econômico perdem vergonhosamente causas importantíssimas. E é assim que as garrafas passarão a ser recolhidas no máximo até 11 horas, os carros de visitantes não poderão mais entrar e será colocado um telefone na portaria, aumentando o valor do condomínio, telefone este que só poderá ser usado para receber chamadas. Ninguém, ninguém mesmo poderá utilizá-lo para falar a não ser em situações de grandes e graves emergências cuja natureza vale mais uma boa hora de discussões sem que se chegue a uma definição precisa de quais seriam. Decide-se que na próxima reunião será apresentada uma lista destas, a ser elaborada pelo síndico e por dois representantes de cada bloco. Apavorada declino do convite de ser um destes representantes. A realidade já anda bastante grave. Nos tempos que correm seria um tormento por minha imaginação a serviço de emergências hipotéticas.

 Olhares furibundos dos A acompanham algumas de minhas declarações de voto à corrente B. Pronto! Agora sou odiada pelos meus pares também. E como continuo a ter três quartos e vista para rua permaneço objeto de ódio B. Enfim, uma unanimidade! Mas eis que chegamos aos Assuntos Gerais. Ao que parece o Antônio é quase analfabeto e isto está causando problemas seriíssimos na entrega de correspondência: melhor mandar embora! Frases cruzam-se agressivas. Uma maioria do Bloco B é contra. Chego a uma conclusão importantíssima (não sei como vivi até esta idade ignorando esta máxima): pessoas que moram em dois quartos e sem vista para a rua são bem mais humanas. Calculo rapidamente a quantidade de votos prováveis pró e contra. Cruzes! Vai dar empate. Fora o absurdo de causar desemprego nos tempos que correm, fato inegável me faz decidir: não posso viver sem Antônio. Sem o sorriso simpático jamais conseguirei resolver problemas extremamente graves.

Antônio é meu anjo da guarda quando as tomadas param de funcionar, assim de estalo e o ventilador de teto inexplicavelmente passa a fazer ruídos estranhíssimos e que mais sei eu. Isto sem contar as deliciosas histórias de sua infância lá pelo interior da Paraíba, com que ele me delicia tomando o merecido cafezinho depois do pronto socorro. Não! decido! Antônio não pode sumir de minha vida! A esta altura a única perda suportável é a minha própria. E desta, felizmente, não vou ter notícia. Proponho uma solução: posso dar aulas ao Antônio. Incompreensão e espanto marcam as expressões A e B que em silêncio me observam. Verbalizando o espanto geral o senhor de imensos bigodes (bloco A) numa voz severa e firme, me interpela: Vai me dizer que a senhora, nesta idade, ainda se lembra do que aprendeu no primário?

2005

sexta-feira, dezembro 06, 2013

DESERANÇA

A palavra não existe! Mas o fato existiu e dele fui personagem. Melhor dizendo, fui vítima. Pior ainda, vítima humilhada por ter sido a facilitadora de meu castigo! A protagonista principal do ocorrido foi minha  babá – Leonídia – que foi também babá de meus filhos. Teria sido também babá de minhas netas caso houvéssemos permitido. Quando do nascimento da primeira delas, Babá aprontou-se toda de uniforme branco e esperou pela chegada do bebê em casa, instalada numa poltrona do quarto, pronta para assumir as funções. O não termos permitido isto provocou uma discussão de dias e foi mais uma vez motivo para mais um dos episódios que vou relatar.

Mas vamos aos fatos: até o nascimento de meus filhos eu era o sal da terra para Babá. Perfeita, sem qualquer jaça, eu brilhava. Nascido o meu primeiro filho este brilho diminuiu. Embora eu ainda conservasse algum prestígio, meu irmão, que não tinha filhos, tomou-me a dianteira. É claro que de maneira inferior ao bebê que lhe foi entregue. “Não foi assim que eu te criei” tornou-se um bordão que eu escutava a cada ação maternal. Tolerante eu fingia que não escutava o que mais das vezes era apenas resmungado.    

Assim fomos vivendo até que nasceu meu terceiro filho. Sabe-se lá porque este se tornou imediatamente o centro do mundo para Babá. Todos nós outros fomos relegados a uma importância bem menor e sempre que citados era numa comparação com o recém aparecido, onde sempre levávamos a pior.

Babá não sabia, nem queria, ler e escrever. Foram inúteis nossos esforços. Todos tentamos. Até as crianças. Ela se irritava e desistia dizendo que não lhe fazia a menor falta. Mas era extraordinário e até misterioso o seu saber das coisas. Onde as aprendia nunca descobrimos. Mas era muitíssimo bem informada.

Quando começou a “babazar” o meu mais moço já era bem entrada em anos e eu tive que dar nó em pingo d’água para que não percebesse que a “babazisse” era apenas simbólica e que eu delegava a outros ou assumia, quando não em horário de trabalho, tudo que pusesse significar um esforço para ela. Um dia pediu-me a levasse a um tabelião para fazer um testamento. Queria registrar aqueles que seriam favorecidos com os poucos haveres e objetos que havia acumulado durante anos a serviço da família (ela havia ingressado em casa de minha avó quando minha mãe tinha doze anos!). Tentei demovê-la dizendo que era só ela me ditar e eu escreveria num papel e todos garantiríamos que seu desejo seria cumprido. De nada adiantou e lá fomos nós ao tabelião.

Não foi uma empreitada fácil. A cada vez que pensamos estar terminado ela pedia que o tabelião relesse em voz alta e trocava objetos e agraciados. Foi assim que me tornei herdeira de um oratório lindo de madeira e cristal onde ela guardava imagens dos santos de sua devoção e santinhos da primeira comunhão de toda família. Eu amava aquele oratório, meu encanto desde muito pequena quando ela deixava que eu abrisse a porta de cristal e ajudando a limpar os santinhos. Mas foi aí que começou a tragédia.

Ela ainda estava “babazando” o meu caçula quando eu tive a audácia (palavras dela) de castigá-lo por uma das muitas artes que aprontava. Deixou imediatamente de me dirigir a palavra e eu fui informada (por minha mãe) que ela exigia que eu a levasse novamente ao tabelião para modificar o testamento. Em minha santa inocência pensei que se o fizesse voltaríamos às boas. Não estava positivamente preparada para o que sucedeu diante do divertido tabelião: fui deserdada e pior, o motivo era declarado no testamento: “não vai mais ganhar porque ela não é mãe. É madrasta!”.

O injustiçado rebento passou a ser o herdeiro do oratório com a recomendação de que deveria utilizá-lo para rezar por minha alma quando me fosse já que provavelmente eu estaria destinada ao inferno! Para meu horror e gargalhadas do tabelião isto foi devidamente registrado. Vim para casa furiosa e no carro disse a ela que nunca mais me pedisse para modificar testamento algum e que se nunca mais quisesse falar comigo tudo bem, eu nem me importava. Dura, olhando para frente não se deu ao trabalho de responder.

Tempos depois era visível que não poderia nem mais fingir que “babazava” ficou muitíssimo bem instalada num dos quartos do apartamento de minha mãe e onde reinava o anjo da guarda de mamãe – Alzira – sua sobrinha e que era uma fantástica cozinheira desde os meus doze anos. Antes disso já havíamos feito as pazes e eu já havia com ela retornado ao tabelião para de novo me ver agraciada com o oratório. Mas infelizmente volta e meia ficava ela sabendo de medidas corretivas dadas ao seu preferido, informada que era pelo próprio, que delas fazia relatos exagerados a cada ida à casa da avó.

E até o dia em que ela se foi repetimos por muitas vezes a vergonhosa ida ao tabelião. Felizmente quando partiu estávamos “de bem”. E hoje com o oratório, ao lado de minha cama, eu a sinto zelando pelo meu sono como o fez encantadoramente por todos os dias de minha dourada infância.

Que me perdoem os santos que nele ainda habitam por respeito à Babá, já que neles não acredito. Ao invés deles a única visão mansa que me vem antes do sono de todas as noites é o rosto de Babá me dizendo: dorme com os anjos, minha nega.    

2006

quinta-feira, dezembro 05, 2013

SENSIBLJERIE

      E eu nem sabia que havia uma denominação própria para o fenômeno. Na verdade nem mesmo sabia tratar-se de um fenômeno. Do fato comecei a percebê-lo de uns anos para cá e, sem que desse muita importância a isto, percebi também que a freqüência de sua ocorrência vinha aumentando. Afinal as coisas evoluem muito e quem já viveu tanto quanto eu não mais se espanta com novidades. Mas vamos ao fenômeno. Não o Ronaldo, é claro. Depois do advento de Robinho, que se anuncia como sucessor das auras de Pelé, Maradona e Garrincha, este “fenômeno” já não é tão fenomenal assim.

      O fenômeno de que falo é catalogado por Jurandir Freire Costa e tem um nome: Sensiblerie. Pois é: há tempos venho dele sendo vítima sem saber que tinha nome, definição e descrição. Parece que surgiu lá por volta do século XIX. Mas naquele século era ligado ao lado sentimental. Nos tempos de hoje transformou-se em uma hipersensibilidade que acomete as pessoas no que toca a aspectos corporais lá delas. À simples menção de assunto que possa ligar-se a isto se estabelece uma competição feroz entre os circunstantes, na qual sempre saio como derrotada. Sou sempre “mais” ou “menos” que os presentes que além de me evidenciarem isto, cruelmente demonstram as razões que me colocam neste patamar desfavorável. E estas razões sempre atestam minha exclusiva culpa.

      Nunca imaginei que aos setenta e cinco anos me veria execrada por não exibir a massa muscular adequada. Até que eu deveria ter uma. Montava, jogava tênis, nadava e outros que tais. Mas a tal massa aparentemente não se criou porque, segundo me informam os que a tem, deve ser desenvolvida com método, ou seja, com freqüência, duração e técnica cientificamente calculadas. Isto de fato eu não fiz, confesso. Todas estas atividades foram realizadas por puro prazer nos momentos em que me dava na telha. Ao que parece não pode ser assim. E, o que é pior, parei de fazer. Isto não pode. Não pode mesmo. É mortal.

      Segundo os entendidos é literalmente mortal: morre-se por não fazê-las. A afirmação irrefutável que mesmo não fazendo, ainda estou viva, de nada adianta. Revelam-me que por me constituir numa exceção, se cheguei a esta provecta idade fazendo tudo errado, certamente poderia viver até aos cento e vinte (que me garantem, não atingirei) se me dedicasse “comme il faut”.  E embora não consiga imaginar a que tipo de atividade me dedicaria dos, por exemplo, cem aos cento e vinte, cercada de filhos de cem e de netas de oitenta, e possíveis bisnetos quarentões pais de tataranetos adolescentes, o argumento é realmente imbatível, sobretudo por ser de impossível comprovação.

      Mas o que tem me tornado vítima neste fenômeno é a competição. Ela se estabelece sempre quando eu, inadvertidamente, faço alguma inocente observação como outro dia ocorreu: hoje andei pela lagoa até a Curva do Calombo. Imediatamente um dos presentes me informa ter andando o dobro, outro o triplo e outro, me parece, ainda está andando. Belicoso alguém me encurrala: em quanto tempo?  Não tendo a menor idéia do tempo decorrido do que para mim era um passeio, chuto: uma hora, acho. O comentário vem com uma enorme carga de desprezo: você não andou. Arrastou-se. Faço este percurso em 10 minutos. Tento justificar: É que eu parei para... Gritos escandalizados interrompem: Parou! Ela parou! Imagina! Que loucura! Não pode parar! Desisto de completar a frase: vai ver não é mais aceitável ver o pôr-do-sol e eu nem sabia.

      No silêncio uma voz maldosa: vocês não repararam bem no que ela disse. A mim parecia que não faziam outra coisa desde minha infeliz declaração. Mas a voz explica: ela disse que hoje andou na lagoa. Sinal que não o faz todos os dias. Todos olham para mim horrorizados É verdade? alguém pergunta com voz grave e carregada de censura. Por alguns segundos penso em mentir descaradamente, mas humilhada acabo por admitir: É, sim... Diante desta confissão infame me deixam de lado, mas o assunto não pára. Começam a comparar os respectivos tempos e distâncias.

      A discussão acalora-se, cada um  buscando a superação do outro. Depois descamba para outras paragens, sempre ligadas ao físico: quem come menos gordura; a quanto tempo se deixou de fumar (porque nenhum deles fuma mas todos fumaram um dia); qual a dose de vitamina C ingerida diariamente; como andam os radicais livres de cada um; e que mais sei eu. Fico sabendo que é necessário para sobreviver, comer seis verduras e quatro frutas diferentes (ou vive-versa, não sei bem), diariamente. Meu Deus! Penso no peso do carrinho que vou ter que puxar ladeira acima vindo da Cobal. Para não repetir todos os dias o mesmo cardápio, a cada ida vou ter que providenciar, no mínimo, 18 verduras e 12 frutas diferentes. E também sardinhas. Parece que são indispensáveis para que se perca ou se ganhe alguma coisa que não consegui registrar. Alegro-me. Agora posso participar da conversa. Afinal eu como sardinhas. Perguntam-me como as preparo... e o mundo cai sobre meus ombros. Fritas? Você está louca?

      A partir daí sou totalmente alijada da conversa e é evidente que me consideram como pessoa altamente problemática emocionalmente e que vem paulatinamente se destruindo física e moralmente. 

2005

quarta-feira, dezembro 04, 2013

EU SAPATEIRO

Sei lá eu por que, do México, um amigo envia uma inquietante informação: fui, numa encarnação passada, um sapateiro! Pode isto? E eu que sonhava em ter sido Cleópatra (como ocorre com uma minha amiga) ou, pelo menos uma de suas serviçais (como ocorre com outra). O mais extraordinário é que eu-sapateiro vivia no lado ocidental da Austrália, em torno do ano de 1576. E eu que não sabia que nesta época os aborígenes usavam sapatos! Por que será que deixaram de usar? Será isto devido a minha incompetência à época? Vai ver eu os fabricava imperfeitos para caçar ornitorrincos e impróprios para saltar como cangurus. Será que fui o último dos sapateiros australianos do século 15?

Algo de muito errado deve ter acontecido já que o parágrafo em que reside a informação desta minha personalidade é encabeçado pela seguinte declaração: no sé si le parecerá bien o no, pero usted era males en su última encarnación terrena. E conclui: Su profesión era Zapatero. Não me pareceria nem bem nem mal não fosse pelo usted era males.  Por que “males”? Afinal sapateiro é uma profissão digna. Estas coisas deveriam ser mais bem explicadas.

Mas tem pior. O breve perfil psicológico deste eu-sapateiro me descreve como “inquisitivo, inventivo, le gustaba llegar a la base misma das cosas y hacer búsquedas febriles en los libros. Talento natural para el teatro”. Como dificilmente existiriam livros na Austrália Ocidental naquela época e muito menos teatro devo ter sido um ser frustrado e triste. Então me vejo em meio aos sapatos que inventava desgraçadamente possuído de um incontido desejo de saber sei lá o quê, sem dispor de fontes onde pudesse realizar minhas buscas febris. Possivelmente, por ausência de público e palco declamava solilóquios com um sapato nas mãos ao invés de caveira.

Existe ainda uma importantíssima informação: é afirmado que uma lição eu aprendi desta vida passada e que poderá ser de grande ajuda para a atual encarnação: “hay un vínculo invisible entre el mundo material y el mundo espiritual. Su lección es buscar encontrar y usar ese puente mágico”. Caramba! Põe invisível nisto! Passados 434 anos pelo menos, eu ainda não consegui descobrir e sequer vislumbrar este vínculo. E agora? Desconfio que nesta encarnação não conservo esta febril disposição de “hacer búsquedas”. E mesmo que houvesse conservado, só agora dispondo desta valiosa informação. Ainda haverá tempo para usufruir desta extraordinária ponte? Tudo indica que não, já que outros aspectos me são revelados pelo vidente virtual que afirma alguma coisa que não me era desconhecida, mas jamais tinha percebido com tanta clareza.

O primeiro destes aspectos, que dá origem a todos os outros, é conhecido por mim de há muito. Só não havia me dado ao trabalho de efetuar os cálculos que inequivocamente leva aos demais. Positivamente não conservei o febril afã por “búsquedas”. Fico sabendo que:

Tienes 79 anos y 327 días
Has nacido en martes
Desde que naciste han pasado: 29.181 días.
Desde que naciste han pasado: 959 meses
Desde que naciste han pasado: 4.168 semanas

Fora o fato de ter nascido numa terça-feira que me era desconhecido o resto de nada me serve. Mãe do céu! É tempo que não acaba mais. Eu não fiz “búsqueda” nenhuma e me ferrei. Qual será esta ponte e cá pra nós, para onde leva? Será que se refere à fé em correntes que, se encaminhadas, me tornariam milionária? Vai ver é isto. Uma ponte entre mim e outros internautas. E eu que jamais encaminhei estas malditas (que agora desconfio benditas) correntes? Bem que falavam que se eu tivesse fé e repetisse o versinho-reza que as acompanhava dentro de alguns dias ou minutos ou segundos um valor inesperado e bastante vultoso me chegaria às mãos. E eu não acreditei.

Ah! Mulher de pouca fé! Viu só! De que adiantou você ser um sapateiro espiritualizado? Passei uns 400 anos no limbo e voltei sem fé! Foram necessários 29.181 dias para que atentasse para isto. Que vergonha! Que me perdoem os amigos, os apenas conhecidos e até os leitores. Se eu for detentora de seus endereços de e-mail os inundarei de promessas que talvez não se cumpram porque vocês não foram, como eu, em 1546, um sapateiro que numa outra encarnação (esta) descobriria este invisível vínculo.

Lamento mas não é ganância, não. O INSS torna a “búsqueda” imperiosa. Caso se concretize o encontro desta ponte estarei plenamente satisfeita com o eu-sapateiro e não o trocaria pela passada personalidade Cleópatra de minha amiga, que pelo que sei, dela só herdou um Marco Antônio que não a fez nada feliz. A amiga ex-serviçal da rainha até que se deu melhor e está muito bem em companhia de um ex-escravo egípcio que trabalhou na construção das pirâmides, segundo me contou. Mas que eu saiba não lhe foi repassado nenhuma ponte invisível. Então viva o sapateiro!  

2010

terça-feira, dezembro 03, 2013

MAL GENÉTICO

“Quem sai aos seus não degenera” afirma o ditado para meu conforto. Por que não deixa de ser um consolo e, sobretudo, uma justificativa honrosa, o fato de minha condição de “serial clumsy” ter por origem a herança materna. Verdade seja dita que eu fui muito além. No caso dela as ações desastrosas tinham um caráter especializado circunscritas que eram ao uso da linguagem escrita e falada. Tinham também um caráter recorrente como, por exemplo, o uso de sinônimos que numa dada situação não caberia utilizar.

Alguns destes episódios ficaram nos anais da família: como o do Seu Batalha, o empalhador de cadeiras que, até morrer, foi por ela perseguido. Era este um profissional muito requisitado por todos e, bem pequena eu adorava vê-lo trabalhando rodeado de cadeiras no quintal, com gestos precisos e rápidos restaurando aquelas que perigosamente ameaçavam afundar com o usuário. Pois bem, o pobre do Seu Batalha era invariavelmente chamado por Mamãe de Seu Combate!

Outra troca extraordinária foi feita com uma amiga de minha avó que deve ter sido um bebê não desejado pelos pais que, cruelmente, lhe atribuíram o nome de Orinopla. Estava esta senhora em visita a minha avó quando Mamãe, comigo a reboque, entra na sala e efusivamente dirige-se à infeliz com esta extraordinária frase: mas que prazer revê-la, D. Pinícula! Foi um Deus nos acuda. E D. Orinopla ofendeu-se para todo sempre, jamais retornando à casa de minha avó.

E sabe-se lá porque o nome de Dr. Roiter, um médico muito amigo da família, era sempre trocado por Topi, nome do cão basset da família. Eu tinha ataques de riso incontroláveis quando Topi entrava indevidamente na sala farejando o bolo do chá e era energicamente rechaçado com um severo: Passa, Roiter! Para a cozinha, já!  Contavam os mais velhos que a primeira vez que isto sucedeu Dr. Roiter ficou em estado de choque, espantadíssimo, murmurando: O que foi que eu fiz? Depois se acostumou e nem parecia perceber que o chá era oferecido ao Topi, enquanto Roiter era ameaçado de castigo por algum mal feito.

Este mesmo Roiter foi objeto de um incidente, este por escrito, dos mais absurdos: eu havia ido à casa de minha tia e madrinha onde pequenos grupos haviam se formado na sala conversando sobre os mais variados assuntos. Vagamente escutei que num grupo paralelo falava-se de uma missa ligada ao nome Roiter. Ao regressar à casa de minha mãe lembrei-me disso e sugeri que ela que telefonasse a minha tia para esclarecer que missa era aquela ligada ao Roiter.  Eis que, sem hesitar, ela grita: Ai Meu Deus! Morreu o pai do Roiter e eu nem fui ao enterro!  Prudentemente esclareci que nada indicava ter ocorrido tão triste fato.

Eu havia escutado apenas palavra missa ligada ao nome Roiter. Melhor telefonar. Mas nada a demoveu. Imediatamente chamou Anísio, o copeiro tatibitati e completamente louco (que me valerá outra crônica, tenho certeza), ordenando que fosse aos Correios para passar um telegrama com o seguinte enunciado: tardiamente informada falecimento seu pai enviamos muito querido amigo nosso carinho por tão triste perda. E passou o resto do dia se lamentando de não ter podido dar ao amigo o conforto que gostaria. À noite aparece em visita Dr. Laclette, outro grande amigo da família e também do Dr. Roiter. Minha mãe, com uma expressão adequada à triste notícia, informa: Laclette, você sabia que morreu o pai do Roiter? Espantadíssimo Dr. Laclette responde: Claro que sei!. Morreu há mais de dez anos. Fomos ambos ao enterro!  Ignoro como foi interpretado por Dr. Roiter o “tardiamente informada”. Depois de dez anos e tendo os dois se encontrado inúmeras vezes, não era muito justificável a urgência de um telegrama nestes termos. Acredito que mesmo sendo objeto de reprimendas destinadas a um cão deve ter dado tratos a bola para descobrir o que havia motivado o envio. Depois foi esclarecido que se tratava de missa de formatura de um filho do destinatário.

Mas o feito mais extraordinário foi motivado por meu irmão. Universitários ainda, ele e um amigo haviam comparecido com as respectivas namoradas à passeata dos estudantes em represália à morte de Edson Luis. Mamãe estava trabalhando em seu escritório (que ficava no segundo andar da enorme casa e tinha uma entrada por trás), quando adentram as duas namoradas em pânico e anunciam que meu irmão e o amigo haviam sido presos. Uma dor de cabeça de meu irmão já era motivo suficiente para que Mamãe entrasse em parafuso. Ser preso era inimaginável! Ela desembesta pelo corredor demandando o escritório de papai que ficava no extremo oposto da casa, seguida das duas moças e irrompe, em cavalgada de guerra, falando sem parar: Tome providência. Faça alguma coisa! Já! Imediatamente! e sem tomar fôlego exige um imediato alerta aos dignitários de todos os poderes da República e também eclesiásticos. Meu pai confuso e querendo entender o que havia acontecido sai-se com um calma, meu bem! Imediatamente ela fica calmíssima e pronunciando cada palavra como um petardo, para horror das duas moças, declara com a frieza e altivez de um sorriso desdenhoso: Calma porque não é seu filho! Ao que meu pai responde: Boa hora para me dizer uma coisa destas!

Não é, portanto, sem razão que me tornei uma “serial clumsy”!
2007


segunda-feira, dezembro 02, 2013

O PODER DA HERANÇA

Nunca fui uma colecionadora. Mas hoje me dou conta de que, ao longo dos anos, fui construindo uma monumental coleção de... dúvidas. Dúvidas de todo tipo, de todos os matizes. Uma das mais sérias é desconfiar que o que acredito, o que penso, só serve para mim! Pior é que diante desta inevitável terceira idade em que me encontro provoco em algumas pessoas a sensação de que “sei” das coisas.  Pedidos de conselhos e orientações me deixam em cólicas. Sei lá eu?! E olha que eu era uma “sábia” em minha adolescência. Sabia tudo e pontificava sobre qualquer assunto na tentativa de convencer o mundo de que eu e só eu estava certa.

Vai daí que involui sendo hoje presa de uma enorme insegurança fora do campo da razão. Neste campo até que dá para fazer repasses. Mas fora dele nem mesmo o “dois mais dois, quatro” – desconfio - pode ser correto e me invade um medo de que, ao tentar convencer alguém, eu possa estar fazendo um desserviço, criando uma confusão, transplantando a pessoa para um solo que não é dela, com conseqüências danosas.

Toda esta elucubração vem a respeito de uma história que há muitos anos me foi contada por Lúcia Miguel Pereira, escritora e crítica literária, que estava, lá pelo início dos anos 50, empenhada numa pesquisa sobre anônimas mulheres brasileiras das quais antigos escritos davam notícia. É uma história divertida, sem dúvida, mas é muito sério o seu significado.

Lembrei-me deste relato uma noite destas quando, entre amigos, a discussão estava a todo vapor sobre a possibilidade (e até o dever) que teríamos de convencer as pessoas de certezas nossas. De fazê-las acreditar no que nós acreditávamos como certo, verdadeiro. Eu, possuída pelo demônio de minhas dúvidas... tinha dúvidas. O que sou me foi dado por todas as circunstâncias sociais, econômicas, éticas e morais que foram determinadas por ter nascido nesta família, neste País, nesta cultura, nesta etnia e sei lá eu mais o que. No momento em que nasci, autoritariamente e sem ser consultada, fui recheada por uma carga de “serás assim e pronto!”. Os meus valores, vindos daí, servirão para outros que tiveram o nascimento presidido por outras fadas que não as minhas? Estas fadas eram piores do que as minhas?

È verdade que posso me livrar de alguma parte desta bagagem-herança, vida afora. E até acrescentar coisa nova. Mas dificilmente será mudado o essencial vindo daquilo que herdei. Tudo está impregnado, gravado a fogo. E as outras pessoas têm lá o “gravado” delas, provavelmente muito diverso do meu. Mas vamos a história que ilustra a força desta herança tão sólida e marcante do “eu” de alguém:

Anchieta viu com orgulho a transformação de uma índia – Ierecê - objeto mais que bem sucedido de sua catequese. Era ela o exemplo vivo de que a fé pode ser transmitida e que o toque divino pode acariciar os mais ímpios. Ierecê havia assimilado tudo e, iluminada, pregava a seu povo com emoção e êxtase sobre as maravilhas do Reino de Deus. E foi sem dor e sem dúvidas que renegou Tupã e sua corte de deuses visíveis na natureza e no cosmos. O sol e a lua passaram a ser apenas o sol a lua, sem qualquer significado divino. Uma criação de Deus, apenas. Como braço direito do santo padre ela o acompanhava em suas andanças de tribo em tribo, ajudando a aumentar o rebanho do Senhor. E ela o fazia com entusiasmo. Era comovente a introspecção e a contrição que demonstrava ao receber a Santa Hóstia que aceitava emocionada como o Corpo de Deus. Sua fé maravilhava o padre e todos os membros da Companhia de Jesus que com Ierecê tinham contato. Era o exemplo vivo de uma fé incondicional e libertadora das amarras humanas. Um milagre. Um verdadeiro milagre.

Ierecê já não era criança quando se converteu e fez batizar os filhos adultos que tomaram nomes cristãos. Como ela o fizera transmudando-se em Maria Aparecida. Uma aparecida no seio da floresta para espalhar a palavra de Deus. E foi como Aparecida que envelheceu. E eis que chegou o dia, glorioso, em que iria prestar contas ao Senhor na certeza de que lhe seriam abertas, com fanfarras dos anjos, as portas do Paraíso. Anchieta, ao seu lado, ministrou os ritos finais. Ao terminar, comovido, disse-lhe que não deveria ter medo e perguntou se havia alguma coisa, qualquer coisa, que ela gostaria de fazer ou cumprir ainda neste mundo. Um desejo humano, um último desejo ao qual como mortal tinha direito.

Um sorriso radiante iluminou o rosto de Aparecida. Medo da morte nenhum, ao contrário ela tinha certeza da divina e gloriosa acolhida de sua alma, mas um último desejo havia, sim! Um desejo forte, imperioso, avassalador. Mas quem o formulou foi Ierecê e não Aparecida. E foi assim que um estarrecido e horrorizado Anchieta, a escutou falar num tom de alegre expectativa na possibilidade de ser atendida: “Eu quero, quero muito e pela última vez, comer um bracinho de criança!”
2005


domingo, dezembro 01, 2013

CORRIGINDO UMA OMISSÃO

Sempre achei injusto considerar omissão um mal feito. Afinal ao omitir-se nada se fez de condenável. Nenhuma ação foi perpetrada!  Quem sabe penso assim por ser volta e meia responsável por alguma omissão voluntária. E aqui venho, contritamente, confessar uma que cometi contra possíveis leitores destas crônicas que escrevo. Quando me propus divulgar, possivelmente na busca de exorcismo, os meus episódios serial clumsy, prometi a mim mesma que não revelaria um deles que até hoje me dá arrepios ao lembrar. Mas eis que um amigo, testemunha do fato, me cobra o relato. E eis que ele me interpelou: você ainda não contou “aquilo”.  Se você não contar eu mando um mail circular contando para todos os amigos comuns.

Vai daí que não me resta alternativa já que por experiência sei que quando testemunhas relatam estes meus comportamentos absurdos sempre o fazem com a maior crueldade acrescentando detalhes que não existiram, tornando tudo ainda mais caricato e terrível.

Meses depois da virada do século, este meu colega e eu, fomos fazer levantamentos para desenvolvimento de um sistema em Curitiba. De lá seguiríamos diretamente para Recife. Estas viagens com escala sempre apresentam um problema para mim: a mala. Detesto viajar com uma que tenha que ser despachada. E na de mão nem sempre cabe tudo que preciso. Nesta viagem o frio que me esperava em Curitiba não combinava com a temperatura amena que poderia ser esperada em Recife. Optei por acondicionar na mala de mão apenas roupas adequadas para o calor do nordeste e levar na mão um casacão que poderia ser posto por cima de qualquer vestimenta impedindo o congelamento que sempre ocorre no inverno do Paraná.

Terminado o trabalho em Curitiba, devidamente encasacada, embarquei no vôo para Recife na companhia de meu colega. Não conseguimos lugares juntos e ele sentou-se no fundo do avião enquanto eu fui agraciada com um assento  mais à frente. Ao chegarmos a São Paulo, onde trocaríamos de aeronave, eu me sentia dentro de um forno e tão logo o avião estacionou levantei-me para sair imediatamente para livrar-me do casaco. Retirei do bagageiro minha mala de mão com rodinhas que puxei pelo corredor com uma das mãos tendo na outra a bolsa e uma sacola com doces da Confeitaria das Famílias de Curitiba, que em má hora eu havia resolvido trazer para presentear uma amiga em Recife. Em pé, no corredor junto aos primeiros assentos, esperei a porta abrir para me mandar em busca de ar indispensável à vida que se estava esvaindo pela sufocação causada pelo casaco. E a porta do avião não abria, sabe-se lá por que. Já em desespero largo a alça da mala, coloco no chão a sacola com os doces e a bolsa e faço manobras de contorcionismo para tirar o casaco que jogo por cima do ombro num gesto que até me pareceu muito elegante.

Neste momento escuto um grito lancinante. Horrível mesmo. Um misto de dor e medo. Olho por cima do ombro livre. Vejo alguns passageiros ainda sentados rindo muito e outros com uma expressão de espanto. Nada esclarecia o motivo do grito. Olho por cima do outro ombro e, horrorizada, vejo preso ao meu casaco um bicho peludo que não consegui identificar. Ai quem gritou fui eu. Gargalhada agora se faziam ouvir e eu a medo olho mais atenta para o bicho do qual só eram visíveis os pelos. Longos, negros e brilhantes. O exame mais atento, me deixa gelada: era uma peruca. Baixo o olhar e vejo uma careca reluzente sentada na poltrona ao meu lado. O rosto indignado olhava com ódio para mim.

O meu casaco ao ser arremessado sobre o ombro havia atingido a cabeça do pobre senhor arrebatando a peruca que nele se grudou. Neste momento a comissária, que também ria discretamente, abre a porta e eu solto a nojenta peruca no colo do careca e desabalo pela escada e pelos infindáveis corredores de Cumbica como perseguida por mil demônios. Infelizmente quando consigo chegar a meu portão de embarque para Recife alguns passageiros que assistiram à decapitação da peruca começam a passar às gargalhadas apontando para mim. Meu colega chega sufocado de riso e me informa que o infeliz careca permanecia no assento quando ele saiu provavelmente em estado de choque. Peço encarecidamente que esqueça este episódio, o que ele evidentemente não fez, deliciando a equipe de Recife com o relato de mais este meu malfeito.

2011