segunda-feira, novembro 11, 2013

SÉRIA DISCORDÂNCIA

Discordo muito de mim mesma. Mesmo sabendo que a relação eu/comigo será indissolúvel até o fim dos meus dias, não faço o menor esforço para ter um convívio mais tranqüilo. Algumas decisões são responsáveis por noites mal dormidas povoadas de discussões, por vezes acaloradas, nas quais meu comportamento é execrável. Culpo-me, sem dó nem piedade, por resultados funestos e meu eu, irônico e maldoso, não perdoa o insucesso. Cobro e cobro feio. Deselegante, mesmo. E sempre termino com a abjeta frase: se tivesse me ouvido... seguida do terrível eu não disse?!

E eis que agora chego a um impasse. Este “chego” não é figura de retórica, não. Aportei, ancorei, empaquei. Isto feito, aqui me encontro e para onde vou? Por que este “vou” é o motivo da séria discordância e está criando um clima bem desagradável. Dizem-me que é necessário adotar outro estilo de vida. Morar sozinha (parece) não é coisa prudente em minha idade. Pessoas insuspeitas começaram a alertar para o perigo que isto significa. Até o porteiro balançando a cabeça: a gente fica preocupada!  Quem é esta “gente”? A síndica, os outros moradores? Mas se mal os conheço!

Verdade que os vizinhos andam me olhando com estranheza. “Et pour cause! Vai ver estão preocupados com periódicos incidentes que ocorrem aqui em casa e para os quais não devem encontrar explicação. Ou melhor, certamente têm alguma que imagino terrível para minha reputação. São os ensaios para leituras de minhas peças teatrais, que ocorrem sempre à noite. A projetada voz dos atores atinge – creio - alguns apartamentos. E o teor dos diálogos certamente causa espanto e indignação, já que provavelmente os imaginam reais. Para piorar, no último ensaio, um dos personagens chamava-se Ana e demonstrava um comportamento pra lá de condenável que era evidenciado pelos termos nada elegantes com que se dirigiam a ela os demais. 

Mas voltando ao ponto de discordância a que cheguei: morar ou não morar sozinha? É preciso esclarecer que adoro esta condição. Dona e senhora de meus horários e de entradas e saídas, me regalo. Verdade que sempre monitorada via celular por filhos e até netas dotados de uma espantosa capacidade de descobrir que em casa não estou. Vozes severas e cobertas de censura repetem a frase de um texto ensaiado: onde é que você está?  Pelo tom percebe-se que me acham capaz de aportar a lugares proibidos e até mesmo inconfessáveis. 

 Provavelmente isto se deve ao fato de ter eu um dia comentado que gostaria de ir a um baile funk. Creio que é por lá que me imaginam, velha fogueteira, saracoteando adoidada! Pode?! Mas inquietações sobre meus paradeiros a parte, a discordância se estabeleceu furiosamente. Devo ou não morar sozinha? Várias pessoas já vaticinaram que se eu tiver um “treco” por aqui e sozinha não seria socorrida a tempo. Analisar prós e contras de nada vai me servir. Só consigo pensar nos contras! Parto para a discussão de alternativas como, por exemplo, tomar medidas que tornem o “morar sozinha” mais seguro: uma empregada e que durma no emprego, quem sabe? Imediatamente vem o “contra”: esta jamais acordaria se o “treco” se fizesse presente noite alta. Instalar uma campainha que soe direto na portaria para ser acionada em caso ocorrência de “treco”. Ouço a voz severa de amigos: e se o “treco” ocorrer fora do alcance da campainha? Colocar vários botões em espaços regulares em todos os cômodos e alturas. Perigosíssimo. Vou ficar conhecida como a Doida das Campainhas.

Mesmo por que o “treco” pode ser daqueles que impede qualquer movimento ou até mesmo lembrança de que campainha existe. Treinar os gatos para que se atirem pela janela em busca de socorro no momento em que seus desesperados miados solicitando carne moída não surtam o efeito desejado. Sei não! Acho que mais fácil seria convencê-los a procurar carne moída com o porteiro que também teria que ser treinado para partir em meu socorro tão logo alvo de miados desesperados e dramáticos. Mas esta é uma total impossibilidade. Gatos já nascem treinados para ações que só interessam a eles próprios e são impermeáveis a qualquer outro aprendizado. Agora mesmo Pandareco se encontra entre o teclado e a tela, inamovível, o que vai me valer mais um dos muitos torcicolos que causa.

Começo a entrar no delírio: imagino andar pela casa dia e noite portando à cintura uma pistola sinalizadora daquelas utilizadas pelos náufragos e que me permitirá sinalizar ao porteiro, à rua e ao bairro que um “treco” está em curso. Vai daí quem sabe? Tudo é válido para que retorne eu à paz sem culpa do morar sozinha. Por hoje, exausta, paro de discutir e preparo-me para gozar a liberdade de ir à Cobal para comprar o raio da carne moída de Pandareco e Marta.  

De repente, faz-se a luz ao me lembrar de uma declaração de minha mãe quando a exortei sobre a necessidade de contratar uma acompanhante que a atendesse, além do fiel staff há anos presente: Você está certa. Assim que eu ficar velha vou pensar nisto!  E ela tinha mais de noventa anos! Encantada, vejo dissolver-se a cruel discordância: ainda tenho algum tempo! E, com certeza, quem sai aos seus não degenera.
2008


domingo, novembro 10, 2013

REFORMA AGRÁRIA

Não vou entrar fundo no assunto que me é tão caro e ao qual dediquei uma vida de trabalho e dedico ainda meus anseios. Quero falar apenas de um aspecto que nunca vejo enfocado e que, a meu ver, é extremamente importante e, se resolvido poderia, quem sabe alavancar a tão falada, discutida e nunca bem entendida Reforma Agrária.

Apenas como curiosidade cito Tito Lívio (Historiador romano, 59 AC – 17DC):
“Foi então, pela primeira vez, promulgada a lei agrária que, desde aquela época até hoje, nunca mais foi discutida sem provocar as mais violentas comoções”.            

Já naquela época! Mas se ainda hoje provoca emoções e comoções, estas não vêem aliadas a um conhecimento pleno do que é Reforma Agrária. Nem mesmo nossa Presidente sabe exatamente do que se trata confundindo a palavra Agrária com Agrícola, o que é o mesmo que confundir Geografia com Geometria, só porque têm a mesma raiz. Nos últimos dias, como elemento de uma prematura campanha eleitoral que se inicia, lembrou-se ela desta importante reforma esquecida nos mais de dez anos do Governo do PT. Salvo exceção feita a uma rápida menção às desapropriações (estas, sim, medidas de Reforma Agrária), todas as demais que disse pretender tomar são relativas a desenvolvimento agrícola e não á Reforma Agrária!  A mistura dos alhos com os bugalhos demonstrou seu desconhecimento do assunto.  

É lamentável que dentre seus assessores, tão bem remunerados, não exista um só que possa esclarecer a esta senhora o que é Reforma Agrária. Mas o mais grave é que se ela não sabe, muito menos o sabe a sociedade civil presa a mesma confusão entre Agrária e Agrícola.

          Reforma Agrária é, sobretudo, a redistribuição de renda de que nosso País tanto carece e da qual tanto se fala em discursos vazios e palavrórios empolados. Reforma Agrária promove esta redistribuição pela criação ampliação de mercado produtor e, o que é mais importante, de um mercado consumidor que quase inexiste no interior do País. Ou seja, promove o surgimento de uma classe média rural. É espantoso que o País (e neste conceito compreendidos todos os poderes, em todos os níveis, e sociedade civil) não se dê conta de que em todos os países em que se empreendeu a Reforma Agrária foi conseqüente e quase imediato um enorme desenvolvimento. Ganham todos.

Mas, infelizmente a sociedade urbana não se toca e é esta que mal ou bem exige e consegue a realização de reformas. Quando a sociedade urbana não se toca, qualquer mudança torna-se difícil. O meio rural não tem voz ou vez. Por sociedade urbana estou entendendo o conjunto de homens e mulheres que habitam e sempre habitaram as cidades e para as quais o campo é uma imagem bucólica de vaquinhas pastando. E, por “não se toca”, entendo o não perceber que é imperioso que empunhe esta bandeira que poderá lhes garantir fartura, segurança e prosperidade. Os homem e mulheres da cidade serão tão beneficiados ou até mais que os homens e mulheres do campo. Mas não sabem disto. Mesmo porque ninguém lhes diz com clareza.

Ninguém lhes conta, por exemplo, que não podemos resolver problemas nacionais cuidando apenas de algumas estruturas do Estado, pois urge uma solução orgânica para estes problemas. E Reforma Agrária mexe com todas as estruturas: estruturas industrial, agropecuária, de transportes, de comunicações, bancária, de transformação e distribuição de energia, comercial, de recursos humanos, de segurança, de recursos naturais, de reservas indígenas e que mais sei eu.

Dessas considerações vem outro aspecto que quero enfocar: Reforma Agrária é conjuntural e emergencial. Sua realização não pode e não deve ficar a cargo de organismo de linha que cuide dos assuntos da estrutura normal. Está muito acima disto e tem a ver com tudo e com todos. Como é que um ministério com a mesma hierarquia dos outros poderá promover a Reforma Agrária? Que força, que autoridade, que prioridade terá sobre outros ministérios que, obrigatoriamente (e é o único jeito), devem seguir diretrizes, obedecer a planos e ações, destinar verbas e que mais sei eu, para atingir o objetivo comum que é Reforma Agrária?

Reforma Agrária é excepcional e como tal tem que ser tratada. Realizada esta não mais é necessário um organismo que a empreenda. Caberá aos organismos da estrutura normal do Estado levar adiante, no cotidiano, os planos que garantam sua sobrevivência. Um organismo com poder político e, sobretudo, com uma “hierarquia de idéias” deveria existir acima dos ministérios para orquestrar esta tão necessária Reforma. E pasmem! Existiu! Era o IBRA, autarquia especial ligada diretamente à Presidência de República. Um quase natimorto. Tudo que pôde realizar foi o primeiro cadastro rural necessário para que se conhecesse a então inteiramente desconhecida estrutura agrária brasileira. Impossível fazer planos sem este conhecimento. O resultado deste cadastro foi uma enorme surpresa (mais isto já é outra e longa historia).

Mas esta surpresa veio acompanhada de outra: a extinção do órgão e sua transformação em INCRA (onde os ditos alhos juntaram-se aos bugalhos), uma simples autarquia subordinada ao Ministério da Agricultura e posteriormente ao Ministério de Desenvolvimento Agrário! Daí pra cá força política é coisa que Reforma Agrária não tem. Só como ilustração e para talvez espanto dos que, estranhamente, nos tempos atuais ainda vêem o comunismo atrás de todas as portas, cito abaixo o segundo artigo do Estatuto da Terra - tão desconhecido – uma das mais belas Leis que já teve este País ainda que muito mutilada desde o seu nascedouro e não adequada com propriedade às modificações ocorridas no meio rural desde sua promulgação. O negrito das palavras “condicionada” e “simultaneamente”, é meu. Incrível o que determina, não é? E, o que é mais interessante: está em vigor! 
                                                                                                                                                  
Art. 2º É assegurada a todos a oportunidade de acesso à propriedade da terra, condicionada pela sua função social, na forma prevista nesta Lei.
§ 1º A propriedade da terra desempenha integralmente a sua função social quando, simultaneamente:
a) favorece o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores que nela labutam, assim como de suas famílias;
b) mantém níveis satisfatórios de produtividade;
c)  assegura a conservação dos recursos naturais;
d) observa as disposições legais que regulam as justas relações de trabalho entre os que a possuem e a cultivem.

Tive oportunidade de conhecer de perto vários acampamentos de movimentos de sem terra (incluídos estes nos “todos” que têm direito terra no artigo citado) que em vão esperam que esta Lei seja cumprida. E ai outra desinformação: o MST não é o único movimento. Existe quase uma centena de outros tão atuantes quanto. Infelizmente só este merece destaque da mídia não por sua ação meritória mas por alguns excessos que comete. De fato eventualmente os comete como ocorre com todos os grupos organizados que precisam chamar atenção para si quando todos lhes viram o rosto. É claro e óbvio que excessos devem ser coibidos. Mas não a luta e as manifestações pelos direitos que tem. Não é assim com os estudantes? Com professores? Os sindicatos de qualquer categoria? Mas a memória que tenho é dos movimentos de sem terra é outra, não registrada pela mídia.


Outro dia, agradavelmente surpreendida, li no Facebook uma bela carta de uma estudante de direito da PUC-RJ – Blanca Moraes – postada pelo jurista Adriano Pilatti. Não conheço Blanca, nem Adriano Pilatti, mas se esta crônica chegar até eles gostaria que soubessem o quanto me foi grato ler o depoimento sobre um assentamento. E, sobretudo o quanto é importante que depoimentos como este sejam feitos. O que ela relata mais que merece ser divulgado. E muito mais ainda poderia ser dito: a plantação que se inicia no dia seguinte à instalação de um acampamento e que têm a mesma prioridade das barracas; as medidas de recuperação ambiental que tomam, até intuitivamente, para garantir para filhos e netos alguma coisa que não vão ver em vida; a instalação imediata da barraca-escola ou da matrícula das crianças na cidade mais perto; as aulas de preservação da natureza e por ai vai. Neste espaço não caberiam as ações mais que meritórias que desempenham. Fui privilegiada em conhecer de perto esta realidade como observadora envergonhada pela injustiça social neste País. 

sábado, novembro 09, 2013

COMO DAR FIM A UMA REUNIÃO DE DIRETORIA

É injusto! Profundamente injusto! O atribuir à avançada idade as peripécias em que me meto, sabe Deus por quê. É absurdo! Sempre foi assim. Desde que me entendo por gente, episódios similares, antecedentes e consequentes, à queda do Ministro, ocorrem com certa freqüência. Na mais tenra idade eram descartados com um sorriso complacente pelos adultos da família com a frase: coisa de criança. Deviam ter prestado mais atenção, os adultos. Quem sabe, atacado a tempo, o mal teria sido eliminado de minha vida, poupando-me, sobretudo, poupando a outros, o envolvimento em situações pra lá de constrangedoras.

O relato que fiz na crônica do episódio da queda do Ministro havia me dado certo alívio. O colocar no papel, isto é na tela, exorcizou, sublimou o fato. Veio-me a sensação de estar dele me livrando. Vai daí que pensei: vamos ver se funciona com outros e, quem sabe, é este o medicamento para este mal, nos últimos tempos atribuído à demência senil. Vai daí que resolvi contar, senão todos, pelo menos os mais significativos. Decido: por discrição vou eliminar os nomes reais. Afinal as pessoas objeto de meu descompasso no comportamento social já sofreram muito. Pra que acrescentar? Tenho sido perdoada, mas é bom não exagerar.

A empresa estatal era outra, diversa daquela do Ministro. Mas eu era, como naquela ocasião, relativamente graduada no ranking do corpo gerencial. Convocada para uma reunião de chefias com o novo Diretor da área sentei-me ao lado de meu grande amigo (inacreditavelmente ainda o é, depois do ocorrido). Era uma reunião pra lá de séria. Todas as divisões, na pessoa de seus chefes e substitutos, haviam sido convocadas para decidir estratégias de sobrevivência. O faturamento estava caindo! Cada chefia era conclamada a analisar a situação dos serviços que vinha prestando e a razão da não ampliação do mercado atendido.

Meu pai não admitia orelhas furadas. Não! Não se trata de uma radical mudança de assunto. Tem tudo a ver. Dizia ele – papai – que era coisa de índio. Nunca proibiu, mas eu, morrendo de vontade de furar, não furava (fui fazê-lo muito depois de sua morte, já com netas). Afinal ele sempre tivera razão. Devia estar certo. Mas o não furar causava certo desconforto. Os brincos de pressão, depois de algum tempo de uso contínuo, causavam a paralisação da circulação no lóbulo da orelha, e isto chegava a ser doloroso. E era o que estava acontecendo em plena reunião.

Discretamente, tirei o brinco esquerdo na intenção de massagear vigorosamente o lóbulo da orelha, restabelecendo a circulação, único remédio para o mal. Tão logo pousei o brinco sobre a mesa para levar a mão à orelha, o Diretor dirigiu-me uma pergunta direta. Deve ter sido este o fato gerador do que se seguiu. Comecei a responder ao mesmo tempo em que massageava o lóbulo da orelha. Uma sensação estranha se instalou: não estava melhorando. Para falar a verdade nem mesmo estava sentido a massagem. Desta vez está bravo, pensei, enquanto respondia. 

Mas alguma coisa muito esquisita estava acontecendo. Meu discurso provocava um estranho efeito: todos, incluindo o diretor, olhavam em minha direção como se estivessem presenciando algo de inacreditável. Surpreendi-me: havia me preparado para a reunião e até tinha argumentos válidos e – acreditava – inteligentes.  Mas não a ponto de provocar tanto espanto. O silêncio havia se instalado e nem uma só voz se levantava para refutar ou concordar com o que eu dizia, como havia acontecido nas manifestações que antecederam à minha. Alguma coisa está errada, pensei. Discretamente voltei-me para o amigo ao lado. Quem sabe através do olhar dele, tão meu conhecido e, portanto, revelador poderia ter uma dica do que estava ocorrendo. Ao fazer isto, ainda pensei: esta orelha vai cair! Está absolutamente insensível! Morreu!

O rosto do amigo estava rubro e ele olhava para frente, duro, imobilizado numa expressão de pânico! Que estranho! Volto mais a cabeça e... todo o horror se revelou! Minha mão estava massageando o lóbulo da orelha, dele!!! Isto explicava a insensibilidade de minha própria orelha, explicava o espanto dos circunstantes, explicava o constrangimento do amigo. Mas nada, nada no mundo, poderia explicar o descontrole direcional da massagem. Dei um grito que foi saudado por um ataque de riso generalizado. O Diretor, sufocado de riso, resolveu fazer um intervalo e pediu uma rodada de café. Impossível retomar o clima de seriedade naquele momento. Desculpei-me com o amigo que, baixinho, mandou-me um palavrão, seguido de um murmúrio raivoso: depois a gente conversa!

O café começa a ser servido e o colega da direita oferece-me uma caixinha com sacarina ou coisa equivalente: aquelas pílulas minúsculas que se usavam à época. Aceito agradecida e... coloco duas delas delicadamente sobre a língua e viro o café de um gole, engolindo-as e dando término à reunião que não mais conseguiu retornar ao rumo, porque foram todos acometidos de um “fou-rire” incontrolável.

2005

sexta-feira, novembro 08, 2013

AQUELE OLHAR

A leitura de um  belo texto de Mário Chimanivicth - O Lamento de um Dinossauro – me trouxe à memória “aquele olhar”... Não me recordo da primeira vez que foi a mim dirigido. Mas naquela tarde de verão do ano 2000 o reconheci no momento em que entrei na sala onde faria a apresentação de um novo sistema destinado a controlar empréstimos concedidos a associações de trabalhadores sem terra para compra de propriedade rural.

A emissora do olhar era uma dos jovens analistas de sistemas da empresa que se encarregaria do desenvolvimento. Melhor que emissora seria dizer atiradora já que o olhar era mortal e carregado de significado. Era bem jovem a moça, no máximo uns 25 anos; era bem velha eu, no mínimo 70! E o motivo da agressão visual era justamente estes no mínimo 45 anos de diferença. A frase formulada com os olhos soava nítida: “o que esta velha está fazendo aqui?”.

Não julguei prudente responder com olhar adequado, mas bem que deu vontade de dar uma de Napoleão: “do alto destes setenta, mais de quarenta anos de experiência te contemplam”. A partir daí e por cerca de uma hora, fui “sabatinada” por ela e pelos demais. Todos pareciam muito mais interessados em verificar se eu sofria ou não de caquexia do que sobre as definições do sistema. Munida de uma paciência que não é muito de meu feitio consegui passar na “prova”, aparentemente até com louvor, tomando de novo as rédeas da reunião. O olhar da moça transformou-se em espanto e incredulidade.

Passaram-se meses até que a pobre conseguisse olhar-me como uma colega de trabalho! Para que isto acontecesse foi necessário que tivéssemos uma conversa que beirava o nonsense. Tudo indicava que madrugaríamos, ela e eu, atoladas nos testes da versão Beta do sistema. Vai daí que, já perto de meia noite, resolvemos dar uma parada para comer alguma coisa. Instaladas no único restaurante que encontramos ainda aberto, desenvolveu-se o diálogo do qual me lembro como se houvesse ocorrido ontem:

-  Posso te fazer uma pergunta?
-  Claro.
-  Como é que é ser assim?
-  Assim como?
-  Ora, você é ve... quer dizer, idosa.
-  Pode dizer velha mesmo. Afinal eu sou. Mas antes me diz como é que é ser jovem.
- Ora... é imaginar a vida que vou ter pela frente; é pensar qual será o meu próximo trabalho; é me divertir; é imaginar se vou ter filhos; sei lá! Um monte de coisas que virão pela frente.  
- Incrível. É exatamente igual comigo. A não ser pelos filhos. Agora imagino se vou ter bisnetos! E um monte de outras coisas que virão frente também.
-  Qual é! Você pode mor...
-  Morrer? Posso sim, claro. Mas você não?
-  !!!
A partir daí a distância encurtou. Passei a ser “colega”. Em  2005 deixei a assessoria que prestava aos projetos e não mais a vi. Vez por outra dela recebo um mail. No último me informava: fiz 31 anos! E por que já tenho filho penso agora nos netos. E você já tem bisneto! Você tinha razão: é tudo igual mesmo.

Agora ela sabe. Mas é uma exceção. A maioria dos velhos e dos moços ainda não sabe disto. Os primeiros perdem um tempo precioso chorando pelo acham ter perdido com a idade (como se perdas não ocorressem desde o nascimento) e os segundos com medo, não da velhice (porque esta lhes parece irreal), mas dos próprios velhos!

O olhar continua a me ser dirigido. Eventualmente sou agraciada com o que é considerado um elogio: você não parece a idade que tem! Pena, porque faço muita questão de que se reflitam em mim todos os anos vividos. Afinal trata-se de uma conquista conseguida às minhas próprias custas. Não gostaria de abrir mão de um só destes anos passados.

Aprendo muito com os mais jovens (e mais jovem para mim é qualquer pessoa que tenha menos de oitenta dois anos). Aprendo muito com o tempo que passa e que me trás novos pontos de vista, novas possibilidades. Não tenho uma saudade sofrida “do meu tempo” quando, por exemplo, frequentava fila de banco. Hoje não mais o faço graças à possibilidade de acessá-lo no cibernético espaço.

Impossibilidade que dói só mesmo não ter mais cavalos. Agora tenho gatos! Uma mudança significativa. Mas até eles, os gatos, me ensinam. Como sabem ser zen! Possivelmente nunca atingirei o grau de perfeição com que conseguem assim se comportar, mas já melhorei muito neste aspecto. Pelo menos já consigo sorrir quando me lançam (e isto acontece com freqüência) aquele olhar... Cavalos jamais me ensinariam isto. E nem teria o menor sentido ser zen naqueles tempos eqüestres! Vai daí que embora usada para saudar a diversidade entre os sexos tomo emprestada a frase para saudar a que existe entre idades: et vive la differénce!

2012

quinta-feira, novembro 07, 2013

QUEM DIRIA!

O dia-a-dia sempre foi minha meta e neste um depois do outro os desejos e pensamentos sempre foram ligados ao imediato. Como eu gostaria de ter sido eu a dizer a frase genial de Paulinho da Viola que tanto me descreve: “Meu tempo é hoje. Eu não vivo no passado. O passado vive em mim”. E agora, de repente, o imediato se reveste de solenidade e importância enormes: bisavoíce! Invento a palavra como invento a vida. E é então que me volto para o passado. Mais precisamente para 1951.

Jovem, muito jovem escuto a voz do médico: você está grávida. Grávida?! Como?! O médico ri do “como”. Não entende. Mas a palavra se justificava, sim. Havia quase dois anos que eu, apenas saída da adolescência, estava brincando de ser casada. A brincadeira de ser mãe ainda não havia me ocorrido. A surpresa misturou-se ao medo. Seria eu capaz? Desse negócio de ser mãe eu só sabia o “desdobrar fibra por fibra” do poema e isto era assustador.

Em nada ajudou a reação de meu marido quando, com um ar culpado, dei a notícia: ele claramente demonstrou o medo que eu tentava esconder. Mas fazer o quê? O jeito foi enfrentar decidindo num ato de coragem ter meu filho em Natal quando todas as outras jovens senhoras de oficiais da base aérea, também grávidas (e eram em grande número), se mandavam para perto da família, no sul.

Meses depois chega a hora e eu, agora já animadíssima, acordo meu marido na madrugada. Consigo rir quando escuto um “dorme que passa” em voz sonolenta. Finalmente acordado nos metemos no Fiat Pulga, onde eu entrava com certa dificuldade e partimos rumo à maternidade Januário Cicco. Poucas horas depois o milagre: meu filho lindo que pelas fotos que vejo agora era muito feio. A partir daí acho que dei conta. Não só dele, mas dos outros dois que vieram depois.

E tome passar de tempo. Até o dia em que minha filha me participa que vou ser avó. De novo uma coisa nova. Muito nova. Chegado o dia a ansiedade foi tanta que cheguei ao hospital antes da filha e do genro. Por um vidro vi minha primeira neta. Fiquei tão grata ao meu genro! Tinha um quê de mais milagre do que os filhos. Uma sensação de eternidade. Logo eu que não acredito nela. Mas um dia, naquele momento, ficou claro, aquele ser tão pequeno seria uma mulher de minha idade vendo o neto ou neta nascer. E mesmo eu não estando lá de carne e osso, dentro da figurinha um dos vinte e cinco milhões de genes que a formarão, maroto, dirá para outro: eu venho da bitataravó! É eternidade ou não é?

Com o passar do tempo mais duas netas vieram. Extremamente competentes como netas e como gente. Duas já adultas e uma adolescente fazem minha vida mais bonita. E agora esta notícia: vou ser bisavó! Incrível! Como é que tanto tempo passou e eu não percebi? Estou velha? Muito velha? Meu bisavô, o único que conheci, era muito velho. Vovô de Uva ou Vovô de Barba, eu o chamava. Minha bisneta ou meu bisneto vai me chamar de Bisa.

A primeira providência que tomei depois que me foi dada a notícia (seguida da compra de rolos e rolos de lã e linha para começar a tricotar furiosamente) foi declarar que esta denominação é exclusivamente minha e que os quatro (!) bisavós do outro lado terão que criar outra para eles. Um exagero de bisavós terá esta criança. As agulhas de tricô batem uma na outra e eu sonho: numa cadeira de balanço austríaca, no meu colo, vou fazer o bisneto ou bisneta dormir.

Um frio me percorre a coluna: e se acontecer como ocorreu com meu filho mais velho? Durante mais de dois anos cantei para ele dormir, balançando, balançando, até que um dia, quando ele já falava, me atirou um balde de água fria: pára de canta que eu piciso dumi. Não! Ele, o bisneto ou bisneta, não vai ser cruel assim e vai permitir que eu rompa o silêncio de décadas a que me obriguei, a partir da frase cruel, com pelo medo de ser de alertada pelos outros filhos e netas de que eu era um estorvo ao sono. Vou cantar e muito. E ele ou ela vai amar e pedir: canta mais, Bisa. Logo no início vai pedir com os olhos e com aqueles barulhinhos e grunhidos que só os recém nascidos sabem fazer. Depois vai mesmo falar. E a sensação de eternidade de novo vai tomar conta de tudo.

Pode sorte maior? Corro para o espelho. Estou com cara de bisavó? Como é cara de bisavó? Deve ter uma adequada. Vou ter que descobrir assim, apenas vivendo, como ocorreu com cara de mãe e cara de avó. Volto à cantoria. O silêncio de muitos anos a que fui obrigada vai ter fim. Será que ainda me lembro da cantoria de Vovô de Uva, de Minvó (minha adorada avó)? Será? E lá de longe, bem baixinho, escuto as vozes trêmulas do velho bisavô e da velha avó. Nossa! Eles modificaram a letra para meu uso!

Tutú carneiro não pega essa menina
Essa menina é muito linda, Tutú Carneiro
Não pega ela não, Tutú Carneiro
Que ela é minha bisnetinha, Tutú Carneiro...

E sorrindo para a lembrança deles eu digo: vocês sabiam que isto ia acontecer! Por que nunca me disseram?

2010

quarta-feira, novembro 06, 2013

DE QUE PLANETA?

Minha grande amiga e juíza Andréa Pacha é autora de um maravilhoso livro intitulado A Vida Não É Justa onde relata casos de separações e divórcios. Como o título indica as histórias são tristes, muito tristes, em sua maioria. Hoje, um mais que gentil leitor pergunta de que planeta eu vim, no sentido elogioso de achar que o que escrevo é inédito. Vocês devem estar se perguntando o que tem uma coisa a ver com a outra. Pois tem! Andréa devia ser um bebê quando se deu o caso que vou relatar e isto a salvou, quem sabe, de julgar o imbróglio que, certamente não seria incluído em seu livro. 

O gentil leitor – Antônio – me fez embarcar numa viagem. Acho que vim deste mesmo planeta que todos habitamos. Nele acontecem, todos os dias, fatos tristes, alegres, engraçados, emocionantes e eu  sempre paro para ver. E por que paro para observar, desatenta para o que se passa em volta, vez por outra a serial clumsy se revela. Suas palavras foram elogiosas, Antônio, mas a dúvida de minha origem já foi levantada, há muitos anos atrás. É verdade que em tom não elogioso e gentil como agora.

Já lá vão mais de quarenta anos quando um advogado, meu quase ex-marido e eu nos dirigimos a uma leiteria para almoçar. Na verdade o almoço não estava programado. Deveríamos, naquele momento, estar no Fórum, consumando o desquite. Naquele tempo não existia divórcio e éramos os dois assistidos por um único advogado, também grande amigo. Não havia qualquer discórdia. Já estávamos separados havia tempo e tratava-se apenas de regularizar a situação. Tudo se faria calma e civilizadamente, pensava eu...

Aconteceu que houve atraso num caso tumultuado, programado para o horário imediatamente anterior ao nosso e pediram-nos que voltássemos depois do almoço. Resolvemos então almoçar ali por perto e, para minha desgraça, numa leiteria. Não sei se vocês que me leem são do tempo das leiterias e nem mesmo se têm idade para delas se lembrar. Eram pequenos restaurantes, com mesas mínimas, que ficavam lotados na hora do almoço por serem baratos e bem servidos. Ao chegarmos à entrada meu marido, gentil como sempre, se afastou para me deixar entrar, empurrando-me suavemente. Verifiquei que só havia mesas vagas muito lá no fundo e impetuosa avancei abrindo caminho entre duas logo em frente à porta. Estas, como em todas as leiterias, deixavam apenas uma pequena passagem entre elas.

Não sei explicar até hoje como consegui, ao passar, transferir o conteúdo de uma cestinha de pães da mesa da direita para o prato de canja que era saboreado pelo ocupante da mesa da esquerda. Mas o fato é que o fiz. Desolada vi dois pequenos pães descreverem uma elegante curva no ar até a canja inundando aquele que a saboreava. Imediatamente me apoderei do que me pareceu ser um guardanapo para ajudá-lo a se limpar. Não era um guardanapo! Era a ponta da mínima toalha que ao ser violentamente arrebatada voou por sobre a mesa derrubando tudo que nela estava não só sobre o infeliz freguês, mas alcançando algumas mesas vizinhas.

Um tumulto se estabeleceu envolvendo fregueses, garçons, marido, advogado, pessoas que queriam entrar e pessoas que queriam sair, ocupando até a calçada. O amigo advogado cumprindo seu papel protetor pegou-me pelo braço, com certa violência, arrastando-me até o fundo da leiteria para evitar possíveis agressões que poderiam me ser dirigidas o que, convenhamos, seria plenamente justificado. Já instalados a expressão de meu marido era de dar pena e ele permaneceu mudo durante o almoço.

Já no Fórum fomos instruídos por nosso amigo advogado de que só deveríamos nos manifestar caso o juiz a nós se dirigisse. Ao ouvir esta orientação meu marido, alarmado pela possibilidade de mais um desastre, saiu de seu mutismo e profundamente angustiado, buscou assegurar-se de que eu havia bem assimilado a orientação. Prometi que nada mais aconteceria. Por que eu haveria de falar qualquer coisa? Embora duvidando desta minha afirmativa ele se calou mas sua expressão mostrou alarme quando observei que não haveria motivo para que eu me manifestasse já que tudo estava acertado, e muito bem acertado. Até com rima perfeita – disse eu: ao cônjuge masculino o imóvel; à cônjuge feminina o automóvel!

E eis que começa a sessão. E o juiz passa a ler os autos, em silêncio. De repente levanta os olhos e dirigindo-se a mim pergunta: a senhora tem telefone?  Achei estranhíssima a pergunta, mas ele havia se dirigido a mim e obedecendo às orientações do advogado, respondi: Tenho, sim. Para recados. É 2672.... O severo magistrado cortou-me em meio do enunciado do número, exclamando escandalizado: minha senhora! Não quero saber seu número de telefone!!! Quero saber se é titular de uma assinatura! Ouço a voz irritada de meu agora praticamente ex-marido manifestando-se com veemência e sem ser chamado: Nem eu, nem esta senhora, temos assinatura! Ela... E ele pára no “ela”, parecendo exausto. Nunca soube o que qualificaria o pronome, mas imagino porque o “esta senhora” foi dito num tom terrível. Encolhi-me na cadeira e lá permaneci até que o advogado me fez levantar dizendo: por hoje chega

Desolado meu agora ex mesmo dirige-se a ele: muito obrigado por tudo e, por favor, desculpe. Nunca consegui descobrir de que planeta ela veio!



terça-feira, novembro 05, 2013

EU NÃO FALEI?

Como se não bastasse esta frase irritante quase sempre vem precedida de “bem feito!” juntando a ofensa à injúria. Deus que me perdoe o julgamento, mas sempre me fica a sensação de que os que a proferem o fazem com um imenso prazer como se a constatação do acerto de suas catastróficas previsões lhes conferisse alguma superioridade.

Fui, vida afora, vítima desta praga talvez até com mais freqüência do que são os demais mortais, dada a minha condição de “serial clumsy” que propicia um alto índice de acerto das previsões que fazem sobre conseqüências de meus atos. Como esta expressão, outras existem, igualmente irritantes. “Na minha modesta opinião” é uma delas. Por que raios a opinião de quem pretende ser irônico ao se contrapor a alguma coisa que afirmamos é “modesta”? Opinião é apenas e tão somente opinião. Todos têm direito a sua. Mas não precisa ser e de fato nunca é modesta.

Hoje, sei lá eu por quais artes, me veio à cabeça que respostas e comportamentos esdrúxulos poderiam ser criados para enfrentar estes ditos fornecendo o sabor de uma doce vingança. Como iria se sentir o interlocutor se ao proferir o nefasto “eu não falei?” eu caísse em pranto convulso, estivesse onde estivesse, batendo no peito, me contorcendo em agonia e aos gritos: Falou! Falou, sim! E eu deveria ter escutado. Ai de mim! Sou uma anta! Ai, Ai, Ai. Dependendo de minha capacidade histriônica este mea culpa poderia se transformar num espetáculo vexatório do qual o indivíduo ou indivídua não poderia fugir porque eu teria me agarrado firmemente a ele ou ela, em desespero, quase ateando fogo às vestes.

E ao dono da modesta opinião poderia ser entusiasticamente dito: como modesta?! Uma pessoa como você não conseguiria nem que quisesse ter uma opinião modesta. Nunca! Suas opiniões são... são... faltam-me palavras para descrever. Uma opinião sua tem para mim um valor inestimável. Eu até coleciono. Tenho todas transcritas num caderno. Fale-me mais desta. Forneça detalhes.

Uma das grandes vantagens da idade avançada é que podemos fazer coisas deste tipo que não mais serão rotuladas de falta de compostura ou educação. No máximo ganharíamos o título de excêntricos ou já um tanto lelé da cuca. No primeiro caso uma velha em pranto convulso certamente iria comover e, se houvesse público presente, o que seria ótimo, poderiam ser conseguidas manifestações apoio provocando até uma constrangida retratação do energúmeno que provocou a encenação que aflito e numa saia justa diria: não fique assim, poderia ter dado certo. Eu não falei por mal (o que seria uma deslavada mentira). Por que é por mal, sim. É sempre por mal.

Os que nos querem bem, os amigos de fé, jamais fazem isto. E olha que muitas vezes nos alertam sobre decisões que pretendemos tomar e que aos seus olhos não darão certo. Faz tempo, muito tempo, ouvi de meu pai um comentário: “quando alguém de você gosta estiver à beira de dar um passo em falso, você deve se perguntar se ao alertá-lo vai se sentir superior ou se, lá no fundo, o chamar sua atenção vai te dar algum prazer. Se for este o caso não fale nada. Mas se for difícil falar ai sim deita o verbo porque você vai mesmo estar querendo ajudar”. Aqui um parêntese surgido de meu espanto ao escrever a palavra “comentário” e não “conselho”. A esta altura da vida me dou conta que papai nunca me deu conselhos. Comentários como este surgiam em meio a conversas.

Meus amigos, quando fazem previsões do que vai dar errado jamais proferem o “eu não falei?” quando vai tudo para o brejo. Ao contrário, agem como se nunca tivessem me alertado e procuram ajudar a apagar o incêndio que provoquei. Por vezes eu mesma comento: você bem que me falou. E sempre – acreditem – ouço a resposta generosa: deixa isto pra lá! Vamos ver como é que as coisas podem se arranjar.  Lembro-me que uma vez um deles disse: Eu te avisei?! Nem me lembrava! (o que, como no caso do maldoso interlocutor, é também uma deslavada mentira).

Sei que com a idade deveríamos ficar mais tolerantes. Esta minha reação irritada contra os interlocutores de opiniões modestas e de inefáveis “eu não falei?” talvez fosse mais apropriada aos vinte, trinta ou quarenta anos. Este arroubo de juventude pode estar fora de hora. Pode ser até que vocês que me leem e que têm sido tão generosos possam desta vez me ver como uma velha intolerante. Corro o risco, sim, de ler comentários a respeito, agora mais contundentes porque divulgados via WEB. E o W desta sigla é aterrador. Nunca, em meus mais dourados sonhos imaginei-me exposta ao julgamento do mundo!

Mas como nenhum dos seres capazes do “eu não falei?” está presente para me alertar vai o desabafo que tem uma justificativa: estou digitando com menos três dedos que foram esmigalhados pela porta vai-vem da cozinha ao fechar-se repentinamente quando eu tentava desenganchá-la de um pedaço de tijolo caído do reparo que o bombeiro fazia na coluna de água. Ele me alertou que isto poderia acontecer enquanto observava meus gritos de dor sem fazer qualquer movimento para ajudar. E a me ver aos gritos, disse, absurdamente sorridente: eu não falei pra senhora?  E voltou a jogar mais entulho no chão enquanto eu entrava em pugilato com a geladeira tentando tirar gelo com uma só mão. Na minha nada modesta opinião pessoas assim não deveriam existir!

2007

segunda-feira, novembro 04, 2013

ALIENAÇÃO DE AFETO

À medida que os anos passam vejo com apreensão a aproximação de um evento que - prefiro acreditar - não exista: o Juízo Final. Se existir vou me dar mal perante toda a Corte Celeste. Pessoas que já lá estão e que em vida me atribuíram qualidade  ficarão sabendo que esta não existe. Isto será causado, tenho certeza, pelo de um amigo de infância que por lá paira há já algum tempo. A verdade dos fatos virá à tona e ele vai relatar aquilo que me condenará. Creio que o fará gostosamente, deliciando-se com a vingança.

Embora se trate de um baixo sentimento ele estará respaldado pelo fato de ser obrigado, como testemunha, a dizer a verdade e nada mais que a verdade e, pobre de mim, a verdade terá efeitos funestos. O crime de alienação de afetos não é mais previsto no Brasil, mas o é em muitos países e não deve ser aliviado pela Corte Celeste. Foi lá pelos idos de 1975. O amigo de infância (infância mais dele do que minha já que três anos mais moço do que eu) era talentoso dramaturgo, roteirista e poeta. Viamo-nos com muita freqüência depois que parei minhas andanças por bases aéreas. Rara a semana que não passava para um cafezinho que se prolongava por horas de intermináveis conversas.

Pois bem, durante os últimos encontros vinha ele se perdendo em elogios a uma moça que havia conhecido e que iria se encarregar da produção de uma peça que havia escrito. Sinto que vai tornar-se uma grande amiga, disse-me ele, é interessantíssima.  Falou tanto e tão bem que me deu a maior vontade de conhecê-la. Foi ai que ele me fez uma espantosa declaração: ela e o namorado vão almoçar lá em casa no domingo. Mas eu não quero que você vá! O não convite era tão espantoso e deselegante que nem comentei e raivosa pensei: “pois sim que não vou!”

E para desgosto dele aportei em sua casa no domingo em hora que me parecia adequada para o anunciado almoço. A moça e seu namorado já lá estavam. A mulher do amigo espantou-se: Ele não me disse que você vinha. Com um sorriso angelical respondi: não disse a mim também. A moça conviva soltou uma sonora gargalhada, ao ouvir esta minha declaração que foi acompanhada por um sorriso discreto do namorado. E foi amor à primeira vista. Apaixonamo-nos, o casal e eu. Juro que não foi intencional, mas o fato é que minutos depois estávamos os três sentados no chão em almofadas que preenchiam um minúsculo espaço, uma espécie de saleta/varanda. E tome conversa. Não nos demos conta de que os donos da casa não cabiam no referido espaço e, desconsolados olhavam de longe excluídos da conversa. E excluídos ficaram até que partimos juntos, os namorados e eu, já ao anoitecer.

Indesculpável, não é? O amigo nunca me perdoou. Até mesmo disse: você se apoderou deles com a maior desfaçatez! Naquele tempo eu não sabia que este “se apoderar” seria pra sempre. Pois é. Apoderamo-nos, o casal e eu, de alguma coisa preciosa demais: amizade. Daquelas sólidas, verdadeiras e descomplicadas. Casaram-se eles. Nasceram filhos (deles), nasceram netas (minhas) e estes sem que a gente se desse conta tornaram-se adultos e que adultos! E nós lá repartindo alegrias e tristezas com o mesmo entusiasmo e constância. Fiquei velha e eles meia idade e nada mudou. Foram-se eles para longe, muito longe e nada mudou. Telefone, Skype e correio eletrônico substituíram a presença física com a mesma freqüência e as mesmas baldias conversas. Adquiri amigos que eram deles. E aqui vale dizer que isto, entre muitas outras benesses, valeu tornar-me cronista do Montbläat.

Socorremo-nos quando preciso foi e até mesmo quando não foi, metendo o bedelho na vida uns dos outros. Assim será por todo sempre até que chegue o terrível Juízo Final que poderá me lançar nas profundezas do inferno. Mas, tenho certeza, esta estadia desagradável só terá duração até a chegada deles, que certamente se dará muito depois da minha. Não tenho a menor dúvida de que quando chegarem vão interceder por mim para que possamos nos instalar em uma nuvenzinha, macia e gostosa como aquelas almofadas do primeiro dia, continuando a conversa do ponto que a interrompemos, como sempre fizemos.

Eu sei que é maldade e que isto poderá agravar a pena, mas não consigo deixar de imaginar que numa nuvem ao lado o meu amigo de infância observará furioso a conversa como o fez naquele domingo em que nos conhecemos. Será que o Todo Poderoso relevará a falta se eu pedir perdão? Por que eu o farei, é claro, mas neste caso será que me vai ser exigido arrependimento? Ai complica pra caramba.  Eu sei que foi um mal feito, mas como é que eu posso me arrepender do que me deu uma das coisas mais gostosas que tenho na vida?

 2008

domingo, novembro 03, 2013

BRUXARIA

Ninguém é perfeito, claro. Conseqüentemente meus queridos amigos também não o são. Vai daí que o destino ou quem sabe os Deuses determinaram que uma muito, mas muito mesmo, querida amiga, seja uma pessoa maldosa, sem o menor respeito por minha avançada idade e, para culminar bruxa! Muito mais moça que eu, se intitula minha filha (pela idade até poderia ser) com olhos numa herança que não existe. Mas como é bruxa, tenho pra mim que poderá fazer com que eu ganhe a mega sena minutos antes de exalar o último suspiro estabelecendo uma batalha judiciária com meus de fato filhos. Eles que se cuidem porque ela tem poderes extraordinários como se verá no relato que ora faço.

Esta pessoa tão especial, sem a qual minha vida perderia muito da graça e das benesses que tem, acaba de me fazer passar por um episódio altamente constrangedor gerado por uma de suas infames bruxarias. Desde que não sou mais uma cidadã motorizada esta moça me transporta de cá para lá e de lá para cá com uma dedicação e freqüência espantosas. É verdade que quase sempre aproveita estes percursos para exercer sua maldade fina e bem arquitetada me colocando numa situação complicada. Esta manifestação de maldade sempre tem apoio em algum descuido meu ao dizer ou comentar inocentemente alguma coisa. A bruxa amiga tem uma espantosa capacidade de torcer tudo que digo ou faço. Não foi diferente há dias atrás.

Ao chegarmos ao portão de meu edifício eu estava a ela informando que no dia seguinte à noite estaria em casa de um ex colega, que mal conheço, para ver um projeto que ele estava desenvolvendo onde haveria possibilidade de minha participação. Minha frase foi exatamente assim: vou pra casa dele por volta das sete. Já fora do carro, a caminho do portão do prédio que o porteiro mantinha aberto para possibilitar minha entrada, escuto sua voz que grita: você vai pra casa ou pra cama dele?  Evito olhar para o porteiro e passo desabalada em direção ao elevador certa que de agora em diante não seria mais considerada uma velhinha a quem se deve carinho e respeito.

No dia seguinte, debruçada sobre um modelo de dados eu escutava os esclarecimentos do colega sobre o projeto quando sinto estava se iniciando um dos episódios de queda de pressão de que sou acometida, sempre sem aviso, de tempos em tempos. Para quem nunca assistiu e desconhece a não gravidade do incidente pode parecer uma cena impressionante. Como a primeira coisa que acontece é a perda total do áudio e do vídeo fiquei impossibilitada de dizer a ele que iria passar em minutos. Ao ver-me muito pálida e gelada, parecendo não dar acordo de nada o rapaz apavorou-se e tomou duas providencias que se revelaram funestas: chamou um vizinho médico e levou-me para cama dele!!!

Ao começar a voltar ao normal me dei conta de que estava na famigerada cama, cumprindo o vaticínio da bruxa. Tive um ataque de riso incontrolável. O médico explica ao rapaz: É riso nervoso! Você sabe, a idade... e para mim... fica calma, minha querida, vai passar já. Meu ataque de riso aumenta. O médico fala como se dirigindo a uma criança: fica um pouco mais na caminha. Seu amigo aqui vai ficar com você. Aí foi demais e eu já estava chorando de rir. O médico sossega o rapaz explicando mais uma vez que a provecta idade e o nervoso eram responsáveis por este comportamento absurdo, que dentro de poucos minutos eu estaria bem e se vai.

Eu tento me levantar explicando que não estava tendo um ataque de riso nervoso. Apenas havia me lembrado de uma coisa muito engraçada que tinha relação com o episódio. Não convenceu. Mesmo porque eu não podia contar o que havia ocorrido. O rapaz me olhava preocupadíssimo e declarou que não tinha sentido continuarmos trabalhando. A esta altura percebi que qualquer possibilidade de me ver incluída no projeto havia terminado ali. Já o escutava telefonando irritadíssimo para o colega que havia me indicado, este sim um amigo, dizendo: não deu. Ela está completamente gaga. Como é que você me indica uma pessoa destas?

A esta altura tudo que havia a fazer era ir embora. Peço que me chame um taxi. Ele, educadíssimo se recusa: não tem a menor hipótese. Vou te levar em casa e só deixo você em sua cama. Sou possuída de outro ataque de riso.  De novo ele, eu e a cama como havia sido determinado pela bruxaria.

Aceitei a carona, mas não a colocação na cama. Despedi-me na porta do prédio, com mil agradecimentos e de olho no porteiro que abria o portão. Era certo que curioso conferia quem era o dono da cama mencionada no dia anterior por minha poderosa amiga bruxa.

No dia seguinte, indignada, comunico à responsável pelo incidente as conseqüências de sua previsão. Ela fica encantada com o ocorrido. Tudo que lhe ocorre dizer é: sou mesmo muito poderosa!  Resignada mantenho-me a espera do próximo episódio que na certa ocorrerá. O que consola é que entre um episódio e outro posso desfrutar desta amizade tão especial. Porque feitas as contas o saldo é pra lá de positivo.


2011

sábado, novembro 02, 2013

APENAS...

Volta e meia me vem uma sensação de estranheza com certas palavras. Em meio a uma frase são quase como um vício de linguagem que nada acrescentam ao que se diz ou lê. A gente não as considera. Mas eis que um belo dia sabe-se lá por que, reboam, ressaltam e fazem pensar.  Escutava eu o noticiário na televisão. Eu sei que o verbo escutar parece estar mal colocado. Na televisão tudo é visto também e portando eu deveria estar “assistindo” ao invés de só escutando. Mas acontece que aqui em casa as coisas se passam diferente. Quase sempre é a televisão que me assiste e não eu a ela. Escuto como um som ambiental enquanto meu olhar se volta para outras paragens mais convidativas.

Mas como eu ia dizendo, escutava eu o noticiário quando a palavra “apenas” dita sem muita ênfase pela moça bonita e estranhamente sorridente, me deixa embasbacada: dos quatrocentos jornalistas mortos em serviço “apenas duzentos e cinqüenta estavam trabalhando em campos de batalha. Tá legal. Entendi o sentido, é claro. Estatisticamente deve ser pequena esta proporção embora assim não me pareça. Mas será que “apenas” pode ser justamente aplicado em caso de morte, qualquer que seja a quantidade? Mortes nunca deveriam ser “apenas”.

E me dou conta de que a imprensa falada e escrita comete, quase que diariamente, um paradoxo. Manchetes escandalosas ou palavras indignadas descrevem alguns fatos que até nem mereceriam tanto clamor e no texto aparece descuidada a mal aplicada palavra diminuindo sua importância: a vítima “apenas” quebrou a perna; os assaltantes roubaram “apenas jóias e dólares; o deputado sonegou “apenas cem mil reais (esta última – confesso - inventei agora, mas si no e vero...). Quebrar, roubar, sonegar são verbos que não deveriam ser modificados por “apenas”. São ações totais qualquer que seja a proporção ou a dimensão.

Será que o uso desta pequena palavra não acaba por provocar uma insidiosa sensação que estes fatos podem ser de somenos importância quando não ligados a um volume significativo? Quais são os critérios que definem a dimensão que dispensaria a palavra? Será que seu uso impensado faz com que se crie um entendimento de que sendo “apenas” deveríamos dar graças por ser tão pouco o que quer que seja? Cá pra mim imagino que a pessoa que quebrou a perna ficaria indignada com o apenas. Caramba! É a perna dele! Dói muito; impede que vá trabalhar; cria uma confusão em sua vida. E as jóias e os dólares? Não os tenho, é verdade, mas imagino que se os tivesse e os visse surrupiados por assaltantes ficaria desolada e quem sabe até numa situação econômico-financeira pra lá de abalada. Vai ver eram o pé de meia de seus possuidores destinado a lhes garantir uma velhice tranquila (velhice tranquila para mim é o máximo!). Se fosse eu a dona deste tesouro e o visse rotulado como “apenas” me poria enraivecida. E a sonegação do deputado que nos assalta a todos? Pode ser “apenas”?

Sempre achei que palavras têm um enorme poder. Se repetidas – creio - devem modificar subliminarmente alguma coisa dentro da gente. “Apenas”, no sentido de que foi muito pouco, deve ser uma delas. O pouco não é atributo capaz de aliviar o sentido danoso, cruel e feio de alguns fatos. Para os seres humanos que são atingidos por estes fatos que modificam suas vidas, que viram tudo pelo avesso, que fazem sofrer, soa como uma desconsideração vê-los avaliados como “apenas”. Parece-me uma falta de sensibilidade e de realidade assim rotulá-los. Misturar vida com estatística é muito perigoso.

E, nem por acaso, acabo de ler numa revista que no desabamento da casa, numa favela da Bahia, morreu “apenas” o filho menor! O redator na notícia parecia estar agradavelmente surpreendido com isto. Apenas o filho menor! Tenha a gente a quantidade de filhos que tiver nenhum deles é apenas! Nunca!

Tomada por uma obsessão vou à cata da pilha de jornais com que concorro para aumentar os rendimentos dos empregados do prédio. Começo a busca aos “apenas”. E encontro uma quantidade espantosa. Não vou aqui relacionar os exemplos. Todos conhecem. Todos já leram provavelmente sem se dar conta, como eu até agora. Um alerta começa a surgir, será que estou ficando gagá? Falta do que fazer, não é. Mil providências me aguardam e aqui estou eu garimpando a palavra em jornais velhos me obrigando a ler as mais absurdas notícias como a que me informa que uma BBB chorou “apenas um pouquinho quando se sentiu injustiçada por seus iguais. Este é um dos casos em que é impossível avaliar se a palavra está bem aplicada. Numa total desinformação sou incapaz de formar um juízo a respeito do se passa naquela jaula que transforma seres humanos em macacos.

O telefone me liberta da garimpagem: é um amigo. Daqueles a quem, numa emergência, sempre se pode recorrer. Relato o que me parece ser o início da formulação de uma teoria. Ele escuta atento sem se manifestar. Estranho porque é sempre muito opinativo e pergunto: E aí? O que é que você acha disto? E vem a resposta firme e definitiva: ora, você está “apenas” divagando! Não tem a menor consistência isto! Bom, quem sabe, pelo menos neste caso, o “apenas” pode estar bem empregado.
2007


sexta-feira, novembro 01, 2013

DESASTRE FRANCO BRASILEIRO

O científico dele, no Andrews, havia sido cursado às minhas custas. Havíamos desenvolvido um sistema de cola que resistia a qualquer professor. Funcionava num único sentido: de mim para ele. O ser ótima aluna não era um grande mérito: meu pai me havia incutido uma fascinação por matemática conseguida através de jogos divertidíssimos, muito antes de ingressar em um colégio. Línguas não eram problema: o ginásio cursado no Bennett me valia uma proficiência em inglês muito acima da esperada. Francês era uma segunda língua, ensinada absurdamente por uma governanta alemã e apreendida pela imperiosa necessidade de decifrar o que os adultos diziam quando, em francês, comentavam assuntos impróprios para menores (foi assim que fiquei sabendo que uma prima distante havia se casado grávida!). Pai e mãe, leitores vorazes, haviam feito da leitura um dos meus maiores prazeres: portanto português e literatura, eu tirava de letra. Vai daí que, em decorrência, as outras matérias não eram grande problema.

Mas ele, o meu colega, era um desastre ambulante. Ia mal em todas. Hoje é alguém importante e volta e meia o vejo citado na mídia. Toda esta lembrança me vem pelo comentário gentil de uma leitora que como eu, foi do Andrews e lembra-se da Madame Jacobina, professora de francês. Em seu comentário ela fala de exames orais. Não existem mais, não é, Liana? Mas naquele tempo eram o terror daqueles que, como meu colega, eram péssimos alunos: impossível colar. Chamados por ordem alfabética, enfiávamos a mão num saco de pano e tirávamos um “ponto”. Sobre este, dois professores nos arguiam.

Num destes exames, este meu amigo ia enfrentar o francês nas pessoas da temida Madame Jacobina e o não menos temido Raul Penido. Sentei-me na primeira fila e disse a ele que olhasse para meus lábios. Sem som eu tentaria fornecer dicas sobre a resposta. Como quem ia para o cadafalso ele dirigiu-se desconsolado para o Raul Penido que atacou: Senhor...

Aqui dois parênteses: não posso informar o nome do personagem principal. Hoje é um homem muito importante e Raul Penido só se dirigia aos alunos como senhor e senhora, quem sabe para sublinhar a distância que dele deveríamos manter. Naquele dia, vai ver porque havia acordado de bem com a vida, Penido resolveu dar uma enorme colher de chá a nosso herói e continuou a frase: ... sabemos todos da total incapacidade apresentada pelo senhor nesta matéria. E como abomino a ideia de revê-lo em minha classe no próximo ano vou apenas apontar alguns objetos e o senhor me dirá, em francês, a palavra que os nomeia.

Inacreditável! Sopa no mel! Meu amigo fixa os olhos em mim. Penido abre a gaveta da mesa e aponta: isto! Caprichando na mímica, destacando as silabas, movimentei os lábios: TIROIR. Um sorriso de vitória ilumina o rosto de meu colega e confiante ele grita: GAVET! Um murmúrio de espanto é emitido por todos os alunos que assistiam ao exame. Penido arregala os olhos, incrédulo. Sacudo energicamente a cabeça e movimento de novo os lábios: TIROIR! Com uma expressão de alívio e de total compreensão o rapaz emite uma extraordinária e impronunciável palavra, que como um tiro ecoa na sala. GVET!

Penido, aos gritos, o expulsa da sala. Vou atrás. Eu já havia sido arguida. Meu nome começando com A me garantia as primeiras chamadas. No corredor o interpelo: Tá maluco? Que raio de palavras eram aquelas? Você não percebeu o que eu disse?! E ele, indignado: Maluca é você! Mandou tirar todos os A de Gaveta!! 

Dias depois a prova escrita. Tudo se processou como sempre: ele sentado atrás de mim e eu escrevendo com uma letra enorme, virada para o lado para propiciar uma visão ampla de minha prova (será que meu problema de coluna tem origem nisto?). Mas eis que vejo uma questão para a qual a resposta era Racine e Molière. Fiquei preocupada: vai que ele copia tudo igual! Seria um desastre. Murmuro torcendo-me mais na carteira, mumuro: Questão 5. É sobre Racine e Molière, mas pelo amor de Deus não põe igual a mim, tá? O murmúrio vem de volta: Deixa comigo!

E veio o temido dia da entrega das notas. Penido entra mais furioso que o habitual e aos gritos interpela: Senhor XXX, o senhor vai ter que explicar a mim, e a toda classe, o motivo de sua resposta à questão 5! Fiquei gelada. O desgraçado havia provavelmente copiado integralmente minha resposta. Mentalmente comecei a preparar minha defesa que seria, confesso, da maior deslealdade: não sei como foi que ele conseguiu copiar, Professor! Mas eis que Penido, vociferando, conclui: em mais de 30 anos de magistério, jamais um aluno respondeu o absurdo engendrado pelo senhor!!! E aos urros: RACINE E SUA ESPOSA!! Com efeito!!! O que significa isto? Estabeleceu-se um pandemônio no qual os gritos de Penido, o gargalhar dos alunos e a gagueira não elucidativa do réu impediam a solução do mistério: o que fazia Madame Racine na resposta?  Finda a aula o rapaz dirige-se a mim, furioso: a culpa é sua! Você falou Racine e mulher e disse para não escrever igual! E eu ainda melhorei muito botando esposa que é bem mais educado do que mulher!

2005