quarta-feira, outubro 09, 2013

OUTRO MENINO E A FINITUDE

A campainha toca às oito da manhã. O ar descomposto que eu apresentava me impediu de ir logo abrindo, habito perigoso nos tempos que correm, mas do qual não me livro. O olho mágico me revela um hall deserto! Foi Deus, penso: é um assaltante que acocorado espera por jóias e dólares que não tenho! Como é mesmo aquele número da polícia? Antes que a memória retorne ouço uma batida enérgica. Olho de novo e vejo um bracinho tentando alcançar a campainha que soa em seguida. Resolvo abrir já que é provável que eu consiga enfrentar um assaltante mirim. A porta aberta revela Ricardinho com uma expressão irritada:

-      Você tava dormindo!
-      Ricardinho! Que boa surpresa! Entra, vai!
-      Eu já ando sozinho de elevador.

Uma preocupação me assalta:

-      Sua mãe sabe que você veio aqui?
-      Não sei.
-      Ela está lá em baixo?
-      Pra que você quer saber? Você não conhece minha mãe. 
-      Conheço, sim, Ricardinho.
-      Você não fala com minha mãe! 

Embatuco. De fato nunca falo com “minha mãe” que sempre me olha com desconfiança, sei lá eu por quê. Resolvo mudar a conversa que está deslizando para um campo perigoso como sempre acontece nos meus encontros com Ricardinho:

-      Mas conta, o que é que você veio fazer aqui?
-      Eu vim ver se você não morreu mesmo. Eu perguntei ao Célio       (porteiro) e ele me disse que você não tinha morrido.

Antes que eu pudesse me recobrar do espanto ou mesmo dar graças por não ser uma verdade a dúvida de Ricardinho, ele continua sério. Solene mesmo:

-      Minha avó morreu.
-      Ah! Ricardinho! Que pena. Você está triste. É ruim, não é?
 
Pergunta não respondida, a expressão de Ricardinho nada esclarece. Ele apenas olha direto em meus olhos com aquela franqueza de que só as crianças e os gatos são capazes. Não sei o que dizer. A gente apenas se olha. Ele rompe o silêncio e desde que nos conhecemos é a primeira vez que sinto insegurança em sua voz:

-      Você vai morrer agora?
-      Acho que não, Ricardinho.

Percebo que a resposta não é a esperada e desavergonhada, afirmo:

-      Não vou morrer não. Não vou mesmo. Agora vou conversar         com você.
-      Tá bom! Você sabe jogar Mico Preto?
-      Sei sim. Jogo muito bem Mico Preto.
-      Você vai parar de não ir lá em baixo? Se você não for lá em           baixo não pode jogar comigo.
-      É verdade. Acho que vou ter que deixar de não ir lá em baixo. 
-      Pra jogar Mico Preto.
-      É. Para jogar, sim.
-      Amanhã você vai. Eu levo o Mico Preto.
-      Estamos combinados. Amanhã eu vou descer e a gente joga           Mico Preto.
-      Você não vai jogar com o Alvinho.
-      Mas, Ricardinho, quanto mais gente melhor, você não acha?
-      O Alvinho não conhece você.
-      Você me mostra quem ele é e a gente joga.
-      Não!!! Ele nem sabe que você não morreu!

A lógica é irrefutável. Alvinho, creio eu, nem sabe que eu estou viva!

-        Tá certo. Ricardinho. Jogamos só nós dois.
-        A gente vai jogar todo dia.
-         Todo dia eu não sei, Ricardinho. Às vezes não vai dar. Mas         sempre que der  gente joga.  
-        Tá. Por que você não vai morrer mesmo, não é?

Promessa difícil de cumprir esta. Mas e expressão do menino exige resposta e, sobretudo exige uma que garanta o sossego daquele coraçãozinho aflito e eu minto descaradamente:

-        Não vou morrer de jeito nenhum.

Acompanho Ricardinho ao elevador. Já dentro ele me lança um de seus raros e encantadores sorrisos:

-        Amanhã eu vou ganhar de você!

O elevador parte levando meu grande amigo e a deliciosa promessa de vida eterna a que me levou Ricardinho. Sem a presença do Alvinho, é claro!
2008



terça-feira, outubro 08, 2013

SÍNDROME DE BORIS

Inútil buscar informações junto a médicos, terapeutas ou qualquer outro profissional que lide com as mazelas humanas. A Síndrome de Boris nunca foi estudada e, cá pra nós, acredito que nunca terá cura. Existe desde que o mundo é mundo e ataca homens e mulheres, independente de raça ou faixa etária. Suas características são sui generis: não causa qualquer dano ao portador, ao contrário, seus efeitos (devastadores) só são observados naqueles com quem este convive.

Não é contagiosa, nem genética já que não se transmite de pai para filho. Estranhamente é mais observada em ambientes de trabalho, embora se tenha notícia de que ocorre também em outros. E, podem se passar anos sem que se manifeste. Para que ocorra é necessário que algum fato externo ao portador, aconteça. Não se tem notícia da época em que surgiu na história da humanidade, mas há indícios de que sempre existiu. Só recentemente foi catalogada com o nome de um portador - Boris – pelo relato detalhado dos efeitos danosos que provocou na comunidade onde passou a ocupar importante cargo para o qual foi nomeado não considerado o fator competência mas sim por indicação superior. 

Todo este preâmbulo é necessário para que eu faça um alerta aos brasileiros: estamos em plena epidemia da Síndrome e é necessário que os que são objeto de seus terríveis efeitos sejam alertados. Não para que possam tomar alguma medida. Como já disse não há tratamento possível. Mas é importante que possam entender o que está acontecendo para que, desesperados, não se deixem abater ou adotem comportamentos extremos, como ocorreu com pelo menos uma comunidade vitimada como verão no relato que passo a fazer. Além disto, é importante que saibam que dá e passa: é uma doença que só se revela durante crises. Findas estas desaparece como encanto para reaparecer na próxima. Isto posto, vamos ao relato.

Boris é um cão. Sim, a Síndrome também ataca animais. E este relato só de um deles trata embora os sintomas e feitos manifestem-se os mesmos na raça humana, sem tirar nem por. Pois bem, então: Boris, boxer por raça, era preguiçoso e malandro, desde o nascimento. Sujeito de sorte, o Boris. Seus donos o designaram para o cargo de segurança da residência, sem verificar se tinha ou não qualificações para exercê-lo, somente porque foi indicado por um irmão da dona da casa. Vai daí que Boris passou a viver numa bela mansão. E põe bela nisto.

Boris tinha consciência de que devia ao irmão da dona o posto que ocupava como responsável pela segurança da chácara. Mas para exercê-lo Boris teria que, no mínimo, ser capaz de se movimentar atento a quaisquer ruídos ou acontecimentos não reconhecidos como normais. Mas como fazer isto quando a comida era tão farta e a vida contemplativa tão bela? Afagos em profusão e, sobretudo, aquela bela varanda de onde se descortinava a vista da cidade, varrida por brisa constante que induzia ao repouso e ao sonho. A tudo Boris reagia como se lhe fosse devido.

Deitado em sua varanda, sonolento, olhava complacente, os gansos que nadavam majestosos no lago azul que adornava o gramado. Com estes mantinha uma relação pra lá de cordial. Tinha plena consciência de que eram eles – os gansos - que lhe permitiam conservar o título de segurança confiável. Com extrema competência eles exerciam o trabalho que lhe era afeto: estranhos eram anunciados por um grasnar ensurdecedor. Boris, ao escutar este alarido, abria um olho e, mesmo deitado, emitia latidos ameaçadores chamando atenção dos donos que assim nunca se deram conta da ineficiência de Boris e continuavam a tratá-lo como um funcionário de extrema competência e confiabilidade.

O único problema existente na sinecura de Boris era que por vezes o irmão, que morava em São Paulo, vinha em visita. Como mostrar serviço nestas raras ocasiões? Boris, inteligente e esperto, encontrou a solução que comprova os efeitos da síndrome naqueles não portadores. Todas as vezes que o carro do irmão anunciava-se ao portão, Boris transformava-se num cão ferocíssimo. Ameaçador, latindo, espumando, avançava, falta de outro oponente, contra o bando de gansos que, magoados e desorientados, debandavam em todas as direções tentando fazer alguma coisa, qualquer coisa, que pusesse fim àquela cruel e inexplicável investida. Um deles, certa feita, chegou até a voar em desespero transpondo o muro alto e entrando janela adentro de uma radio patrulha que ali estacionara. Foi julgado culpado de agressão, o coitado.

Durante toda permanência do irmão, Boris levava os gansos à loucura “mostrando serviço”. Tão logo ele partia tudo voltava ao normal. Quer dizer, voltava ao normal para Boris, porque os gansos neuróticos, tristes e desesperançados continuariam a alertar para a existência de possíveis intrusos, bons e honestos profissionais que eram, para que Boris colhesse os louros do desempenho perfeito do honroso cargo,

2005

segunda-feira, outubro 07, 2013

ABELHAS E MIGUÉIS

Abelhas não são insetos de minha especial simpatia desde que fomos, eu e meu querido cavalo Dream Boy, perseguidos por uma colmeia enraivecida, nos meus longínquos 13 anos. E de mel nem gosto muito. Mas agora tenho notícia de que as abelhas estão desaparecendo da face da terra. Isto me causa uma desagradável sensação de que, se transmudando em ratos, estão sendo as primeiras a abandonar o navio que, convenhamos, não está lá muito seguro nos tempos que correm. Tô sabendo que o motivo pode se dever ao aquecimento global, aos gases e que mais sei eu. Mas tenho pra mim que não é isto, não. Pelo menos no que toca às nossas abelhas tupiniquins. Estas, acho, têm outro motivo mais imediato.

Existia um provérbio (digo existia porque não o escuto desde minha infância) que me volta agora no espanto de perceber que começa a fazer o maior sentido: Miguel, Miguel, não tens abelhas e colhes mel!  Que me perdoem os Miguéis substantivos. Não é deles que falo. Nem poderia desmerecê-los já que sou orgulhosa neta de um e sobrinha de outro. Falo dos que são adjetivados com este nome, no provérbio. Por que, acreditem, trata-se de um adjetivo. Vai ver as abelhas, desesperançadas, viram desaparecer gradativamente aqueles que se empenhavam em contratá-las para que produzissem mel. Ou seja, os que valorizavam seu trabalho num contrato justo e certo em que competência, probidade, organização e planejamento garantiam o sucesso do negócio gerando lucro lícito para ambas as partes.

 Colhia-se o mel que vinha de origem certa e digna: fruto de trabalho. E eis que agora se revelam centenas de Miguéis produzindo uma espantosa quantidade de mel sem que abelhas sejam. No início Miguéis desconhecidos do público e sem expressão na escala de poder. Gente de quem nunca se tinha ouvido falar: Delúbios e Marco Valérios que só se tornaram notórios depois de descoberta a melada lambança que fizeram. Logo depois entraram em ação os de alto coturno. Todo mundo colhendo mel em profusão, sem que tenham, favos ou colméias que possam explicar a sua origem. Isto, convenhamos, é para derrubar qualquer abelha que se preze. Miguel deputado, Miguel senador, Miguel bicheiro, Miguel empresário, Miguel ministro, todos chafurdando-se no mel que, em última análise, foi produzido por nós abelhas e a duras penas. Triste isto.

Nem de propósito uma abelha, ainda não fujona, abandona a mangueira para voltear sobre o monitor. Não sei se é sempre a mesma, mas ultimamente surge curiosa todas as manhãs parecendo querer ler o que escrevo. Nunca puxei conversa: como disse não me dou bem com a espécie. Mas hoje sou tomada de certa ternura pelo inseto. Afinal fomos as duas espoliadas. Ela parece um tanto descontrolada, sem rumo, volteando o micro como se uma flor fosse. Quem sabe é seu jeito de mostrar agradecimento ao meu reconhecimento de sua desdita. Procuro animá-la: tem gente que não é Miguel, sabe?  Estão um tanto desaparecidos. Mas existem.

E me vem um pensamento: se uma maçã podre pode contaminar todo um saco de maçãs a recíproca será verdadeira? Aparecendo alguém correto, competente, verdadeiro e corajoso poderá “desapodrecer” os outros? Uma reação em cadeia... por que não? A abelha, parada no ar, olha para mim numa interrogação. Intuo a pergunta: então você acha que eu devo continuar a fabricar mel? Claro! Deve, sim! Você e todos nós. Operários que somos não devemos abrir mão do fabrico para o qual fomos treinados, durante anos e anos.  É continuar fabricando e cuidando para que os Miguéis tenham o destino que merecem. Se a gente sai de cena vai facilitar para eles. Juro que a abelha sorriu e, vendo a inutilidade de voltear em torno do árido monitor, parte esperançosa para a mangueira.

E eu aqui fico rezando para que voltem abelhas capazes de produzir pela experiência, pela competência, pela ética, pelo espírito público. E, de hoje em diante, prometo rever minha posição sobre as elas. Dream Boy já se foi, faz tempo, muito tempo, mas eu ainda estou por aqui. Quem sabe naquela manhã em que fomos, ele e eu, impiedosamente perseguidos, havíamos invadido o território da colméia. E nos tomando por Miguéis elas partiram para defender o produto de seu trabalho. Da mesma maneira que devemos nós agora impiedosa e corajosamente defender o produto do nosso, espoliado por Miguéis espúrios. 


2007

domingo, outubro 06, 2013

EFETIVA LIDERANÇA

Leio, divertida o texto do e-mail: “Por apenas R$ 40,00 você adquire em CD-ROM um completo Curso de Liderança, com ensinamentos dispostos de maneira didática e objetiva, para tornar-se um líder com excelência, aspecto de suma importância em sua vida profissional”. E me vem à memória a figura de Seu Xandinho, maior líder que já conheci e que, certamente, jamais pagou pelos ensinamentos desta arte mesmo porque, creio, teria melhor uso para R$ 40,00 que naquela época nem reais eram.

Corria o ano de 1966 e, pela primeira vez, o País empreendia a hercúlea tarefa de coletar dados para conhecer sua estrutura agrária. O conceito de “estabelecimento rural” utilizado pelo IBGE não descrevia esta estrutura já que voltado para produção agrícola sem qualquer conotação com a tenência da terra. Empreendeu-se então a realização do Cadastro de Imóveis Rurais. Dura tarefa: os detentores de terra, a qualquer título, teriam que responder a um longo questionário sobre suas posses ou propriedades. Isto em todo Brasil!

Sabíamos que a resistência, por motivos diversos e até conflitantes, seria enorme entre os grandes e pequenos proprietários e os posseiros. Vai daí passamos a viajar para os mais longínquos municípios com o difícil encargo de explicar e convencer a todos para que preenchessem os formulários e aos prefeitos para que instalassem uma Unidade Municipal de Cadastramento.

Logo nos primeiros Municípios percebemos que se não tivéssemos a ajuda do líder local esta tarefa jamais teria êxito. A identificação deste líder nos levou a uma espantosa constatação: nem sempre era o Prefeito. Aliás, quase nunca era. Horas intermináveis de tentativas de convencimento de padres, padeiros, farmacêuticos e até uma mãe de santo, nos estavam levando à exaustão na subida da ainda não terminada Belém-Brasília Um pequeno parêntese para esclarecer uma dúvida: já terminou?

Foi então que nestas lonjuras, surgiu Seu Xandinho. Havíamos sido informados de que se conseguíssemos sua adesão o sucesso seria total. A aparência era de uns 70 anos. Enrugado e calado apenas ouvia. E nos deixou desorientados quando declarou lacônico que faria uma reunião na pequena capela do povoado. Contra ou a favor?! Impossível saber. Tentamos em vão obter uma pista e tudo que recebemos como resposta, num tom de reprimenda, foi: vocês na hora vai vê!

Apreensivos, tomamos a palavra na reunião tentando explicar o propósito, as vantagens, e a necessidade do preenchimento do formulário e da instalação da UMC (Unidade Municipal de Cadastramento) na pequena cidade e abrimos para perguntas. Silêncio total: até o Prefeito dirigia o olhar para Seu Xandinho que, pitando seu cigarrinho de palha, olhava para o chão como que desinteressado da participação.

O silêncio, desagradável e constrangedor, prolongava-se e eu aflita levantei-me disposta a conseguir alguma reação da platéia. Fui impedida de dizer a primeira palavra pela voz severa de seu Xandinho: a moça já falou. Agora fala mais não. A moça (eu), nos seus trinta e seis anos, engolindo seus arrogantes e técnicos argumentos, botou a viola no saco e calou-se, sob o olhar divertido dos demais técnicos da equipe. E seu Xandinho, sentado como estava, dirigiu-se à platéia.

A tradução que fez de nossos argumentos era extraordinária. Ele havia entendido perfeitamente a finalidade do Cadastro e a urgência de serem tornados disponíveis os dados que permitiriam obter as informações necessárias à realização de uma Reforma Agrária. Percebia também com clareza a reação de resistência por parte dos grandes proprietários e de desconfiança por parte dos posseiros e, mais que isto, tinha claro o conceito do que era Reforma Agrária, o que até hoje nas "cultas" cidades não é comum! Ele falava manso nos designando como “eles” como se ali não estivéssemos presentes. Este “eles” nem sempre era acompanhado de adjetivos e predicados agradáveis: eles não é daqui, não conhece nós e tem lá o trabalho deles para fazê.

Embora ao pé da letra isto fosse verdade, soava como uma enorme censura. O desconforto era cada vez maior. Terminada a explicação nada ortodoxa das finalidades e razões do cadastramento seu Xandinho faz uma pausa como que autorizando a pergunta que veio de um figurante na platéia (provavelmente um sub-lider): e ai Xandinho, nos faz o que?

Um sorriso surgiu nos lábios de seu Xandinho. Um sorriso maroto, mas também ameaçador! Tão ameaçador quanto as palavras que seguiram: nós vai responder este papel e nós vai cobrar deles tudinho dessa tal de Reforma Agrária que eu achei que nós carece. E, para nós num seco tom de comando: vocês pode ir agora!

Obedecemos e, meses depois, conferimos a freqüência de preenchimento dos formulários pelos liderados de Seu Xandinho. Espantosa: um dos maiores índices obtidos. Lá vão quase cinquenta anos e Seu Xandinho não mais está entre nós. Mas certamente cobrou, pelo tempo que viveu, esta Reforma que desgraçadamente nunca se fez. Por isto culpada, mesmo sem ser, peço desculpas a ele e a seus liderados. E os felicito por terem tido como líder este extraordinário personagem que nunca freqüentou um curso “receita de bolo”. Como tantos que hoje conhecemos.

    2012 

sábado, outubro 05, 2013

VERSÃO CARIOCA DE ANTÍGONA

-    Essa rua que a senhora quer ir tá em obra. Lugar perigoso pra “daná” e esta hora tem nada mais aberto. Que mal lhe pergunte: que é que a senhora vai fazer lá?

A expressão do motorista de táxi é genuinamente preocupada, além de simpática, evitando um irritado “o que é que o senhor tem com isto?” Muito ao contrário resolvo prestar contas:

-   Vou ver uma peça de teatro, quer dizer não é de fato uma peça, É a leitura de uma peça.
-   Cumé que é?! É só artista lendo?
-   Não são atores. São juízes que resolveram ler uma peça.
-   Eu, heim? E por que é que eles vai fazer isto?
-   Por que a peça é muito boa.
-   Ah! É comédia?
-   Não. É... é tragédia. Quer dizer, é muito triste.
-   E a senhora sem ver já sabe que é muito triste?
-   Eu já conheço. Já li várias vezes. 
-   Eu, heim?! Vai ver um teatro que não é teatro com gente que não é artista lendo uma história que a senhora tá careca de conhecer! Cumé que é o lance dela? Diz ai.
-   Aconteceu na Grécia que é um país....
-   ... sei qual é. Tá uma confusão dos diabos por lá. Vi na televisão. Desemprego brabo! Tô sabendo. Triste mesmo.
-   Não é isto! A história aconteceu há muito tempo. Antes de Jesus nascer!
-   Caramba! Antes de Jesus nascer era no tempo dos dinossauros, né? E ai?
-   É a história de uma moça chamada Antígona. O tio dela, chamado Creonte, era o rei. E havia uma guerra pra tirar ele do trono. Um dos irmãos de Antígona era a favor, outro contra. Ai um mata o outro. Quer dizer, os dois se matam. E Creonte proíbe todo mundo de enterrar o que lutava contra ele. Tinha que apodrecer sendo comido por bichos. Ai Antígona...
-   ... porreta este pinta! Jeito maneiro de castigar bandido. Sempre pensei assim: bandido mesmo morto tem que ser castigado.
-   Mas ele não era bandido!
-   Cumé que não era? Tava lutando contra o tio e mais o irmão. E ainda mata o irmão. Qual é?!
-   Não era bandidagem. Era uma guerra que tinha seus motivos.
-   Tá legal a gente não vai brigar por causa desse seu Creonte. Mas conta lá. O que foi que aconteceu com a mocinha?   
-   A “mocinha” desobedece o tio e vai lá enterrar o irmão e os soldados do tio prendem ela. Então o tio resolve condená-la a morte mandando enterrar viva numa caverna.
-   (rindo) O homem era mau mesmo!
-   Mas o pior é que o filho de Creonte era noivo de Antígona. Ele fica desesperado e se suicida. Então a mãe dele, mulher de Creonte, também se mata.
-   Danou-se! E esse Creonte ficou na pior, né?
-   Ficou desesperado. Arrependido!
-   Acaba ai? Essa tal de Antígona não tinha mais ninguém, não? Pra defender ela? Nem pai, nem mãe?
-   A mãe tinha se suicidado também muito antes. E o pai já tinha morrido também. É outra história que também virou uma peça de teatro muito bonita.
-   Bonita? Com essa desgraceira toda? Eu quero é distância! Porque a mãe da guria se suicidou?
-   Porque descobriu que o marido, era seu filho.
-   Putzgrila! Depois diz que por aqui só tem violência! Esta tal da Grécia é uma sem-vergonhice das grandes. Eles merecem tudo que está acontecendo por lá. Pode uma coisa dessas?! Aqui bandido respeita a mãe. Os pior respeita! É de lei! Coitada da mocinha. Vai ver só ela que tava certa. Eu só não entendo como é que a senhora quer ver esta porqueira de novo! É só pouca vergonha. Agora me diz: o pai da mocinha que casou com a mãe dele mesmo, morreu de quê? Também deu um tiro nos cornos?
-   Não tinha tiro naquele tempo! Quando ele descobriu que era filho da mulher furou os próprios olhos e foi pra longe. Ele era o rei e deixou o reino para o cunhado que era o Creonte. Morreu pobre e só. 
-   Cacilda! Só tem tarado nessa história. Agora me diz por que os juiz vai ler esta pouca vergonha? Juiz tem mais é que mandar bandido para cadeia. O que me encafifa é que a senhora acha bonito. Qual é? Vai ver isso aconteceu porque foi antes de Jesus nascer. Eu nunca fui muito pros lados dos evangélicos. Mas só mesmo o poder de Jesus pra não deixar uma sacanagem dessas acontecer!
2011



sexta-feira, outubro 04, 2013

QUEM SOU EU?

Não! Não se trata de uma biografia. Não poderia escrevê-la porque não tive o cuidado ir construindo uma ao longo dos muitos anos, para uso externo. Existem pessoas que o fazem, não é? Falo hoje do efeito devastador de um fato resumido numa frase que li num renovado encontro com Pirandello: “somos tantos quantos aqueles que nos vêem”. A constatação de que sou várias veio há muitos anos atrás.

 Preocupado com desentendimentos que começaram a surgir entre seus subordinados o gerente de nossa divisão inventou de nos fazer comparecer a um encontro comportamental. Seríamos confinados num hotel durante três dias onde, sob a condução de um especialista em relações humanas, teríamos que refletir sobre nós mesmos. Um horror! A maioria, na qual estava eu incluída, reagiu furiosamente: estávamos atolados de trabalho e prazos nos atormentavam, como sempre. Declaramos enfáticos e revoltados que estas receitas de bolo nunca dão certo. Mas a pessoa jurídica do chefe (que como pessoa física era, e é até hoje, um muito querido e encantador amigo) exigiu. Mandou mesmo!

E vai daí que fomos introduzidos num ônibus para que fossemos encarcerados num hotel longínquo. Lembro-me que chegamos à noite e o tal do encontro começaria no dia seguinte às oito horas da manhã. Insubordinados, cinco de nós passaram a noite jogando pôquer, atirando-nos às cinco da manhã na piscina gelada para espantar o sono. Tudo que conseguimos foi entrar na sala na hora marcada com os cabelos pingando água como zumbis mal humorados.

O tal do especialista já nos esperava com cadeiras dispostas em círculo o que nos obrigava a ver alguém para qualquer direção que voltássemos o olhar. Cinco folhas de um questionário nos foram distribuídas. Em quatro delas deveríamos assinalar a existência ou não de características pré-impressas, dos quatro participantes sentados em nossa esquerda. A quinta folha deveria ser preenchida sobre nós mesmos. Um saco! Mas fazer o que? E lá fui eu assinalando quadradinhos numa certeza de julgamento que me vinha dos muitos anos de conhecimento daqueles que avaliava. Coisa mais infantil! Certeza maior me causava a que preenchi sobre mim mesma.

Findo o exercício os resultados foram tabulados e... caí da cadeira. Não me reconheci naquela pessoa descrita pelos outros. Pior ainda, os meus julgadores nem sempre concordavam entre si e muito menos comigo! Na discussão que se seguiu ficou claro que nenhum deles mentia. E nem eu. Melhor seria dizer nem eus. Porque eu havia descoberto ser várias. Se era assim no trabalho como seria fora dele? E então que me dei conta dos diversos personagens que interpreto vida afora. A profissional, a filha, a mãe, a neta, a avó, a mulher, a amiga e vai por aí. Cada uma delas tem seu script, sua movimentação, sua idade, seu aspecto físico e suas marcações, fixadas sabe-se lá por que diretor. Até se vestem de forma diferente, acreditem.
 
Lembro-me que há muitos anos atrás fui descrita como uma “pombinha sem fel”, por um indivíduo que mal conhecia, na empresa onde trabalhava. Isto provocou um ataque de riso incontido nos que escutaram esta extraordinária declaração. Eu própria tive que admitir que esta descrição passava ao largo. No entanto vai ver este doce e pipilante eu-pomba, sabe-se lá porque artes, havia se revelado em algum momento.

Às vezes me assalta uma ideia maluca. E se eu trocasse os eus? Numa versão Pai-Patrão, que certamente seria uma comédia, poderia começar a levar a personagem-avó a uma reunião para definir um sistema; a profissional ao jantar com amigos; a amiga passaria a se entender com o bombeiro que resolve mal um entupimento na cozinha e a mãe se relacionaria com o síndico enquanto a patroa falaria com as netas. Seria divertido, mas se revela impossível. Como fazer surgir estas personagens? Não tenho o menor controle sobre elas. Elas “baixam” estimuladas pela presença do interlocutor que lhes dá vida. Até mesmo por telefone!

Um “oi, vó Anna” em resposta ao “Alô” do personagem-atende-telefone desfaz a testa franzida do eu-analista de sistemas, presente antes que o telefone soasse, interrompendo a tentativa de resolver o problema de um modelo de dados. Imediatamente o eu-analista combinado com o eu-atende-telefone, bem mais jovens, envelhecem anos. E os desdobramentos? Porque existem! A personagem-avó são duas: uma surge a partir das netas mais velhas e a outra da neta criança. E aí se dá um extraordinário paradoxo: a avó-da-neta-mais-moça, que é a mais recente personagem, é a mais velha de todas! Eu-mãe se desdobra em: mãe-do-filho e mãe-da-filha, que dão origem aos corolários sogra-do-genro e sogra-da-nora.

Pirante isto, né? Ergo: a existência de um único eu positivamente não existe. Descartes me garante que não sou um fantasma: penso, portanto existo. Nem sempre penso o que devo, é verdade, mas inegavelmente penso. Descartes não sabia de nada. O certo é “pensamos, logo existimos” isto não invalida a certeza da minha(s) existência(s). O problema não é este e sim um muito mais sério e que provoca a dúvida que para qual até hoje não tenho resposta: quem sou Eu?
2006

quinta-feira, outubro 03, 2013

VAZAMENTO DA CAIXA D'ÁGUA

E eis que se destina, no orçamento da União, vultosa quantia para educação! Vocês me perguntarão o que tem isto a ver com o vazamento da caixa d’água. Pois não é que tem? Isto por que apesar de toda esta verba caixas d’água continuarão a vazar no enunciado dos absurdos problemas propostos à nossas crianças, nos livros destinados ao ensino de matemática, em todo País. Será que isto motiva os pequenos a interessar-se por esta matéria? Não creio! Este assunto e a constatação do volume do precioso líquido perdido, quando muito interessa a um desolado síndico desesperado com a elevação das despesas do condomínio!

A tragédia é que o conceito de condomínio e caixas d’água é ignorado por um enorme contingente de crianças, e até adultos, que vivem em vilas e pequenas cidades deste nosso imenso País. Por esta razão vazantes caixas d’água se constituem num ínfimo exemplo do grau de irrealidade que grassa no ensino fundamental. Uma reforma urgente, estrutural, planejada, já se faz tarde. Em 1932 o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, assinado por vinte e cinco extraordinários educadores liderados por Anísio Teixeira já se referia ao descompasso na educação:

“No entanto, se depois de 43 anos de regime republicano, se der um balanço ao estado atual da educação pública, no Brasil, se verificará que, dissociadas sempre as reformas econômicas e educacionais, que era indispensável entrelaçar e encadear, dirigindo-as no mesmo sentido, todos os nossos esforços, sem unidade de plano e sem espírito de continuidade, não lograram ainda criar um sistema de organização escolar, à altura das necessidades modernas e das necessidades do país. Tudo fragmentário e desarticulado”

O fragmentário e o desarticulado ainda vigem após 123 anos! Portanto não há que se culpar apenas a Era Lula. Esta porém é culpada ao adotar a pratica da improvisação nas ações destinadas a acudir conjunturas, nos discursos vazios, na incompetência no trato da Educação. Em vão Cristovão Buarque mostra o caminho. Um programa nacional contendo matérias desnecessárias, nas quais o decorar é a tônica, é aplicado do Oiapoque ao Chuí. 

Estarrecida, assisti em uma pequena cidade do centro maranhense, crianças decorando nomes de rios da África! Quando por mim perguntadas, mostraram um total desconhecimento dos rios existentes em seu Município e Estado. E, no livro adotado para matemática, sem surpresa, encontrei o nefando problema de caixa d’água que vaza! Inexistiam problemas sobre bolas de gude, bonecas de pano, quantidade de cabras responsáveis pelo sustento da família, ganho dos meeiros, valor do arrendamento da terra, volume utilizado da palha do buriti, léguas que caminham para chegar à escola, ou qualquer outro que fizesse sentido e, mais que isto, que possibilitasse utilizar a matéria para solucionar  problemas reais em suas vidas.

Como poderiam aquelas crianças ter interesse por rios da África, tão distante e tão irreal para elas? Matemática e Português os poderia preparar para vida desde que percebessem nestas matérias alguma coisa passível de ser usada, com grande utilidade e vantagem até em suas diversões e brincadeiras. Através delas poderiam ser introduzidos conhecimentos de Geografia, História, Biologia tornados vivos e verdadeiros pelo papel que estes saberes se inserem em sua realidade, descritos em linguagem e forma adequadas à cultura e interesse local. Ao invés disso o irreal vazamento de caixas d’água, completamente desassociado de sua realidade, é a tônica.

Como fixar alguém à terra natal, como fazer este alguém apto a mudar a realidade desta mesma terra, a pensar em seu desenvolvimento, se nunca lhe for mostrado de maneira atrativa, e por que não divertida, a história, a geografia e a ciência que se manifestam no dia-a-dia? De forma palpável, substantiva. É improvável que alguma destas vítimas vá se transferir para África, o que é, aliás, é uma benção. Mas também não serão estimuladas a ficar onde estão já que só são capazes de sentir e perceber as desvantagens. Estas sim palpáveis e visíveis.

O “sul maravilha”, mostrado pela televisão, as prepara mais para o êxodo previsível ou para a mesmice do ficar por lá sem que tenham sido estimulados para que, quando adultos, empreendam a mudança da realidade. Triste a coisa! Os olhos míopes do poder, quando palanques são montados nestes longínquos rincões, não enxergam futuros cidadãos e sim eleitores do próximo evento. A promessa nunca é de cidadania. Ensinar a pensar não é prioridade, muito menos intenção.

O efeito danoso não atinge só as crianças, mas também, e muito, os pobres professores despreparados e abandonados pelo Estado. Têm eles que se conformar com caixas d’água, mesmo por que em seu despreparo e impossibilidade tornam-se impotentes para formular problemas ou criar textos que despertem e estimulem o interesse e o encanto. E este interesse é muito diverso em cada estado, em cada município, em cada cidade ou vila.

Vai daí que as caixas d’água, e não as familiares cacimbas ou poços vão continuar a vazar levando para o ralo a esperança de um Brasil voltado para formação de cultura.  Parece estar longe o surgimento de um competente e bem intencionado bombeiro que, de uma vez por todas, resolva este vazamento absurdo e cruel.    


2012

quarta-feira, outubro 02, 2013

PRA LÁ DE NORMAL

E eis que me encontro octogenária. O que isto significa, sei lá eu. Quer dizer, o óbvio eu sei: foram vividos oitenta e três anos. Mas e daí? O que há de extraordinário nisto? Não consigo descobrir por que no rosto das pessoas sinto que para elas existe alguma coisa de muito diferente. Falam como se eu tivesse realizado um extraordinário feito! Olham-me com estranheza e com um misto de admiração! Mas em todos estes anos, o que de fato existiu foi a mesmice de uma sucessão de mudanças incessantes e muito poucas devidas a feitos meus!
As coisas mudam sem parar desde que me entendo por gente. A primeira grande mudança de que tenho memória foi aos quatro anos: ganhei um cavalo! Medo, emoção, encantamento e assombro misturaram-se e meu coração bateu forte ao ouvir de meu pai que teria que montá-lo sozinha. Até aquele dia era uma delícia enganchar em frente à sela dele e sentindo a proteção que me permitia a delícia do cavalgar. Sozinha? Naquele cavalo enorme? E Coringa me olhava com seus olhos mansos parecendo dizer: como é?  Vem ou não vem? Me armei de coragem e fui. Aí a mudança. Tomei as rédeas no sentido real e no figurado. A partir daí ninguém mais me segurou. Uma sensação de liberdade, de poder tudo. Incrível! Isto aconteceu de manhã e no final da tarde, a galope no cocuruto do morro, alcei vôo.
Outros cavalos vieram, mas neles eu montava com asas que me foram dadas por Coringa, o Pégaso Albino. Aos meus onze anos o ginásio! Ao invés de uma professora passaram a existir muitos. Uma mudança de peso. Sobretudo por que foram introduzidas matérias que, do meu ponto de vista, eram reservadas aos adultos: literatura, inglês, francês e ciências, que num passe de mágica, virou biologia, química e física. E latim! Ah! De Bello Galico: Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae... Importantíssima esta informação sobre os belgas. Até hoje sei de cor. E passei a me destacar, com muito mais substância, à mesa de jantar, informada que agora me encontrava.
Aos quatorze anos um namorado que partia para guerra como pracinha! Mudança de peso esta. Um verdadeiro romance. Na verdade o namoro, de corpo presente durou pouco já que o embarque para Itália se deu dias depois da emoção da declaração de amor eterno! Sim, porque houve declaração em alto estilo. Depois a emoção das cartas! E, meses depois... um colega (lindo!) passou a sentar-se a meu lado. E ao meu lado sucederam-se outros.
Até que casei. Outra mudança: enorme esta. Aos 19 anos, jovem senhora, com uma licenciatura em química, parto para Natal. Uma Base Aérea. O meio militar era um mundo totalmente desconhecido. Não os havia na família que pelos ditames de minha Avó só considerava três profissões: médico, engenheiro e advogado (nesta ordem). E veio o primeiro filho.  A cada um deles (foram três) uma enorme mudança. Em meio disto a Matemática. O encanto por Évariste Galois e pela teoria dos conjuntos. Vai daí que descambei na Análise de Sistemas enveredando pela recente, naquela época, informática (coisa misteriosa e reservada a uns poucos iniciados). Põe mudança nisto.
Foi quando um raio caiu causando destruição e dor. Disto não quero falar por que a dor tá lá, e vai ficar sempre. A tanta mudança se juntaram outros casamentos. O último, e definitivo, terminado por aquela que nos aguarda a todos, numa falseta. Pouco antes as netas me deram a sensação de prosseguimento de vida. De eternidade. Um dia as netas que delas virão trarão em si qualquer coisa minha. Sei lá eu o que. Vai ver uma delas, sem nem saber por que, herdará meu lado clumsy não tendo a menor idéia de onde veio. São três ao todo. Lindas e emocionando a avó que nelas se vê. Não muito, mas um pouco. Pedacinhos mínimos em cada uma delas.
E foi assim que aportei aqui. Na casa dos oitenta. Coisa estranha as pessoas acharem que isto é qualquer coisa de espantoso. Não é. É apenas outra mudança. Como foi a de eu passar a ter gatos depois de uma vida povoada de cães (boxers) e cavalos! Bicho pra lá de estranho esse. Pandareco, o gato, neste momento me olha, com evidente censura, por cima do monitor e é meu companheiro, nada fiel, de dias e noites.  Espero que outras mudanças venham. Na verdade sei que virão, inexoravelmente, até a maior delas. Mas não se trata de um feito inédito ou raro e muito menos se deve a artes minhas. Acreditem aqueles que me olham tão estranhamente surpresos: são apenas oitenta e três anos, um atrás do outro!
2013


terça-feira, outubro 01, 2013

INUSITADO PROCESSO DE VALORIZAÇÃO

-    Nós temo que se valorizar.

O tom do motorista do táxi é grave. A afirmação é feita para satisfazer minha curiosidade. Eu havia perguntado a razão das flores artificiais presas nas costas dos bancos fronteiros.

-    Sem dúvida, digo eu.

Agora a pergunta vem em minha direção:

-    A senhora se valoriza?

Afirmo que procuro fazer isto. Mas a coisa complica:

-    Como é que a senhora faz isto?
-  Depende da ocasião. A maioria das vezes me fazendo respeitar.
-    Tô sabendo. Solta os cachorros quando alguém chama a senhora de baranga.

Droga! É evidente que ele está vendo a possibilidade de alguém fazer isto. Não resisto:

-  O senhor acha que alguém pode me chamar de baranga?
- Poder, pode, né? Velho toda hora tá ouvindo essas coisas!

Procuro me conter, mas o tom sai irritado:

-    Eu nunca ouvi!
-    Sorte sua!

A coisa está fugindo do controle e sem me dar conta do ridículo pergunto, mais irritada ainda:

-    Pelo jeito o senhor acha que eu sou uma baranga.
-   Que isso! De jeito maneira. A senhora até que tá legal.  Na sua idade, indo para um bar sozinha! Fiquei até  pensando... .

Eu estava me dirigindo para a reunião mensal do SERPROVECTOS, no Botequim Informal do Leblon, onde nos reunimos todo mês, nós os aposentados do SERPRO. O “pensando”, com reticências pode significar que o desgraçado do motorista está imaginando que eu vá me embebedar, velha caduca, solitária e triste numa mesa de bar. Será isto o que as barangas velhas fazem? O ridículo de meu comportamento continua quando eu resolvo explicar a razão de minha ida para evitar mal entendidos. O infeliz ri:

-    Quer dizer que os velhinhos se encontram todo mês pra  jogar conversa fora?
-    Não são velhinhos!

Cada vez mais irritada, ao invés de calar a boca, respondo.  Pelo jeito o homem nega a possibilidade de uma velhinha como eu manter relações com outros viventes que não sejam tão idosos quanto. Imagino que uma coleção de barangas (existe o masculino?) arrastando-se com dificuldade pelas mesas do bar.

-  Coisa nenhuma. São quase todos mais moços do que eu!
-  E o que é que a senhora tá fazendo no meio deles?

Ah! Era aquilo mesmo que ele estava imaginando! È claro que eu poderia explicar que quando entrei para o SERPRO já vinha de vários outros empregos e que a maioria dos analistas havia iniciado carreira na empresa que também era muito jovem. Mas estou furiosa, irritada e num tom gélido disparo:

-    E o que é que o senhor tem com isto? Vamos parar esta  conversa por aqui. Está desagradável. Por favor, fique  calado até lá.

E ao invés de me obedecer ele volta a cabeça para traz e sorri:

-  Tá pedindo respeito, né dona?! Legal! Legal mesmo. E  me dando respeito também me chamando de senhor!

O sorriso é encantador e eu derreto, sorrindo também. 

-     Tudo bem!

Mas, prudente, passo a comentar o inesperado calor e a promessa de chuva. Comentar o tempo é sempre uma conversa que não compromete. O valor da corrida já está em minhas mãos quando o carro para frente ao bar. Estendo a mão para pagar quando a porta do táxi se abre. Um colega me havia reconhecido e estende a mão para ajudar-me a sair, saudando alegre.

-  Anna “do INCRA” (assim era eu conhecida no SERPRO). Que bom que você veio!

O motorista volta-se para mim pegando o pagamento.

-   Tô vendo que eles gostam da senhora. Isso é de respeito. Vai com Deus.

E eu lá fui eu. Com Deus e com meu ex-colega, na antecipação de mais uma noite muito agradável, sentindo que nem sempre é fácil se fazer respeitar, mas sempre vale à pena. Baranga ou não!

2011